Amor, Palavra Prostituta – a Cid Nader (in memoriam)

Graças ao Fernando Oriente, fiquei sabendo que nesta sexta, 20h10, passa na Cinemateca uma cópia nova de “Amor, Palavra Prostituta”, do Carlos Reichenbach.

Trata-se de um filme razoavelmente raro do Carlão, pois foi retalhado pela censura e, depois do lançamento, o Carlão proibiu a exibição do filme no estado em que estava.

Só foi feita uma cópia nova quando o filme passou na Holanda.

É um filme que me diz muito, seja porque é do Carlão, seja porque escrevemos o roteiro juntos, e porque servi de assistente de direção, e ele ainda me creditou como cenógrafo porque ajudei a animar as paredes com umas coisas que tinha em casa (em especial o pôster do Allen Ginsberg, que ele curtiu pra caramba).

É também um filme montado magnificamente pelo Eder Mazzini, com um único defeito, mas dele não vou falar aqui.

Enfim, esse filme está, pessoalmente, cheio de fantasmas: Eder, Carlão, Roberto Miranda, Parolini, todos foram, assim como, me disseram,  Zé Manir, o fantástico maquinista.

O Luizinho, que o Carlão reputava como o melhor assistente de câmera que já teve, bem… Acho que tudo bem. Também a Patrícia Scalvi, essa atriz notável, também eu vi há não muito tempo. A Alvamar… Caramba, nunca mais tive notícias da Alvamar.

Claro, tudo isso é um tanto pessoal, diz respeito a minhas memórias. Mas me parece que o Brasil é especialista em não reverenciar nem um pouco seus artistas. Ou mais: em desconhecê-los, em até desprezá-los (fora da adoração que a TV desperta, mas que não é respeito, é idolatria, é outra coisa).

E a Cinemateca, caramba, a gente sabe dos problemas que tem, mas não é tão difícil assim para ela encontrar essas pessoas, fazer uma sessão convidando-os… Não é tão difícil assim.

Nem eu, que fui conselheiro da Cinemateca, sabia da sessão. Soube pelo Fernando Oriente.

Não digo isso porque se trata de um filme que me é próximo. Para mim devia ser uma atitude meio que permanente (não dá para fazer sempre, claro, mas uma vez por semana…).

No tempo do conselho eu falava timidamente do problema da exibição na Cinemateca e, vamos ser francos, só o Jean-Claude insistia no assunto. Em geral nem ia para a ata.

Porque a Cinemateca arrota Paulo Emilio, mas, francamente, precisava era ser mais Paulo Emilio. (Nem de longe é uma crítica à Olga Futema, que segura um rojão dos demônios lá, mas é um espírito). Se a Cinemateca não se aproxima da sociedade, não se aproxima nem ao menos do cinema… fica com a função muito limitada à de preservadora de filmes.

Coisa que é a mais cara de todas, por sinal, sem contar restauro. Mas restauro…

Essa é uma outra longa e triste história. São coisas que precisam, justamente, de compreensão social para serem entendidas e, mesmo, patrocinadas.

(Como explicar a importância de restaurar filmes que depois nunca são exibidos?)

Em resumo: quem tiver a oportunidade deve ir ao “Amor, Palavra Prostituta” (estranho, esse título que escandalizava tantas pessoas é nada mais que uma entrefrase do Jack London que o Carlão encontrou e desde o início bateu o pé e quis que fosse o nome do filme).

 

Luto

Só para lamentar a morte de Geraldo Moraes, que morreu em Cuiabá, vítima de complicações decorrentes de uma hepatite viral.

Foi uma das pessoas mais gentis que conheci neste meio de cinema. Uma daquelas de convivência agradável e desinteressada.

Eu o conheci apenas superficialmente, aquela coisa de encontrar em festival, mas foi o bastante para firmar uma ideia a seu respeito.

Um cara notável.

Muito triste.

O último Wajda e o novo Ciro

Está aí mais uma coisa que eu pensei que nunca fosse ver e vi.

Ciro Gomes, numa entrevista para o El Pais me pareceu claro e sensato.

Claro ele sempre foi. Sensato, não.

Mas vai ver que eu tenho visto tanta coisa que o Ciro continua o mesmo, mas a situação tornou-se tão maluca que ele parece de uma moderada sensatez.

Duas coisas retive da entrevista. Uma citação formidável de Churchill, para quem político reclamar da imprensa é que nem marinheiro reclamar do mar.

A outra: diante de tanta repercussão sentiu-se solidário com Lula.

Me identifiquei com isso. Acho que a perseguição gera esse tipo de coisa.

Ele diz que se sentiu solidário até com o Temer, desde que a Globo passou a meter o pau no cara todo dia.

Pô, com o Temer não dá. O cara é muito golpista. Mas tem razão o Ciro Gomes: não é pior que a Globo.

Fica aí a recomendação.

No cinema não consigo encontrar o que me entusiasme, o que me leve a escrever.

Ou antes, há o último Wajda. Do ano passado, pouco antes de morrer: melhor que quase tudo deste ano.

Sobre Dunquerque

É bem raro discordar de dois caras tão respeitáveis quanto o Zé Geraldo Couto e o Carlos Alberto Matos. Mas o fato é que isso aconteceu em relação a “Dunkirk”, que começa por ser uma monstruosidade no título brasileiro.

Talvez por não ter visto o filme em Imax, não tive em momento algum a sensação do Carlos Alberto, a saber: de que a primeira meia-hora era de uma barulheira de estourar os tímpanos.

Na projeção em que eu estive não senti nada disso, nem de longe. No mais, acho o som (não a música, mas os ruídos) uma das qualidades do filme.

Achei até que o filme começa bem: o lance do menino ainda na cidade, tentando chegar à praia, tendo que passar pelas barricadas dos franceses, é bem ok. Logo vem uma sequência decepcionante: o cara que rouba as botas de um morto e ao mesmo tempo o enterra devia ser bem preparada. Como está não tem o menor efeito.

Já o J.G. diz ser por princípio contra filmes de guerra, opinião que partilha, aliás, com a Denise Mesquita. Contra filmes de guerra porque espetacularizam a guerra.

Mas, nesse caso, dá para ser contra filmes de faroeste, que espetacularizam a matança dos índios, contra os Titanics, que espetacularizam desastres trágicos, contra melodramas, que espetacularizam o sofrimento. Enfim, mais fácil logo ser contra o cinema inteiro.

Acho que esse argumento, para ser franco, foi um pouco impensado. O que eu faria com os Samuel Fuller, com os Walsh, Ford, etc. de guerra? O que faria com o magnífico “Patton”? (e nem por isso Patton deixa de ter um lado abominável). E a sangueira toda de “Ivan o Terrível” seria desprezível. E… Bom, acho que já deu para ficar claro meu ponto.

Já Elio Gaspari achou o filme uma das maravilhas do universo porque tem a ver com a política ousada de Churchill, propiciando a enorme retirada, num momento que as tropas estavam encurraladas e sob pressão nazista na França.

Muito bonito, só que o argumento é pueril: nada disso está no filme. Não Churchill contra Halifax nem nada do tipo em questão.

Para resumir, o certo é que fui com esses comentários na cabeça ver o filme. E quando isso acontece, quando gente que entende de cinema fala muito mal de um filme e gente que não entende bulhufas fala bem, em suma, quando não espero nada do filme não é raro que comece a lhe encontrar virtudes.

Não foi o que, no caso, aconteceu.

Nele há três elementos muito bem definidos: a praia, onde os soldados esperam pelo embarque, debaixo de bala; o combate aéreo; o mar, com os navios (também torpedeados à beça) e os barcos dos civis cedidos à Marinha ou a lá quem seja.

Bem, a pretexto de uma narrativa inovadora, Christopher Nolan faz um filme que segue aos trancos e barrancos, de tal modo que um avião pode ser atingido com 20 minutos de filme e cair com 60 minutos. Corta-se do avião durante o dia para um naufrágio durante a noite na cara dura.

Sim, poderia ser uma revolução narrativa. Não é. É apenas uma confusão pouco competente. E isso porque o filme não dá nem de longe a medida do sacrifício do que tenha sido essa retirada. Essa geringonça narrativa apenas serve para disfarçar o que acontece aos sopetões.

Ou seja: em um momento, as tropas estão cercadas, atacadas, completamente indefesas na praia. Um pouco depois, como por uma espécie de milagre, todo mundo já está na Inglaterra. Caramba!  O negócio vai aos saltos. É um desastre narrativo.

Outro aspecto catastrófico: estamos diante de um épico sem personagens. Digamos que há um, mas frouxo como tudo, que é o dono do barco civil. Mas o personagem é tão ruim que até ele, que é um ótimo ator, por vezes se ressente da inanição do papel.

Os diálogos, quando não são pobres, são, com frequência insuportável, ridículos.

Agora, elogio da guerra eu não vi não. Existe a reconstituição, trôpega, de um episódio histórico relevante que por pouco não se reduz ao mero burlesco.

Elogio da guerra está a toda, sim, no novo “Planeta dos Macacos – A Guerra”  – se não me engano o título é esse.

Ritmos alucinantes

Talvez eu tenha sumido daqui por algumas razões, mas não importa. A principal é o ritmo alucinante com que os usurpadores atuais estão mexendo no Brasil.

Eu vivi, ainda adolescente, o golpe de 1964. Houve coisas deploráveis, e o anticomunismo era um tanto maníaco, embora não discrepante do clima de guerra fria da época.

Pois bem, posso garantir: existe uma diferença gigante entre o que houve então e o que acontece agora.

Pode-se concordar ou discordar, pode-se dizer as piores coisas dos militares, etc., mas há uma diferença fundamental em tudo isso: eles tinham um projeto para o Brasil, eram esses caras que acordam hasteando a bandeiras, essas coisas.

As mudanças, sempre se pode concordar ou discordar delas, faziam parte desse projeto. Elas aconteceram num ritmo muito menos frenético. O que acontece agora é enlouquecido: a toque de caixa se fazem reformas profundíssimas, como se fossem uma leizinha de nada.

Como se soubessem que o tempo é pouco, então mandam bala.

Não comento o que não entendo, então não vou falar da necessidade ou não dessas reformas todas. Mas o ritmo é alucinante, ninguém quer saber o que querem ou temem os interessados (a população), nada disso.

É assustador, também é deprimente.

MinC

Ah, nessa área não tem conversa. Desde o caso “Aquarius” trata-se de vingança pura e simples, permanente, contra os artistas. Contra o cinema em particular.

Eis um outro departamento em que os militares foram muito mais inteligentes.

Claro que houve intervalos, como o governo Médici. O negócio dele era ouvir rádio de pilha e deixar que os torturadores baixassem o pau.

Mas, no geral, até o que era ditatorial tinha a vantagem de ser mais aberto do que agora, onde tudo parece normal.

Abra um jornal estrangeiro: só aqui existe quem acredita nisso.

Trajano

“Na Sala do Zé” entrevistou, outro dia, o presidente Lula. Ou, em poucas palavras, José Trajano rompeu a última pinguela, se pinguela ainda havia, a vinculá-lo à imprensa tradicional.

Mas o fez com classe. Até agora o que eu tinha visto desse programa achei meio sem graça, porque eu sempre admirei a maneira como ele é capaz de misturar linguagem, futebol e vida em geral. Quando sai fora o futebol ele parece tatear.

Mas aí algo mudou. Estava ali um personagem, Lula, que não costumo ver. Nas fotos ele está sempre barbudo, como se o desânimo o desleixasse. Aparece com expressões invariavelmente raivosas. No programa, nada disso: um cara bem disposto, falante como sempre foi.

Digo dele o mesmo que dos militares: dá para concordar ou discordar do que ele fala, mas existe ali, ainda, um projeto. É coisa meio rara.

De todo modo, vê-lo assim, livremente, sem palavras editadas e tal, me reforçou a impressão de que essa Lava Jato só existe para perseguir o Lula. O resto é meio que um entorno, um acompanhamento, eu diria, se a gente estivesse num restaurante.

De todo modo, o que me parece certo é que isso deve mudar a cara desse programa do Trajano. Ele vai se tornar mais político, e mais político do lado esquerdo da atual luta de classes.

Que não é bem luta de classe, tenho a impressão de que é uma tentativa de esmagamento final dos pobres, seja até pelos pouco disfarçados e muito eloquentes jatos de Lava Jato que o Dória despeja nos sem-teto.

Uma sugestão  

Não sei se isso mudou, mas em Paris, em outros tempos, quando chegava o inverno, abriam as portas do metrô à noite, que assim era transformado em abrigo.

Isso lá, onde número de miseráveis é (ou era) quase insignificante. Aqui, onde é imenso, e cada vez maior, isso seria uma solução aceitável: já que não há albergues, o pessoal que mora na rua poderia ficar até de manhã, até a hora em que abre o metrô, lá dentro. Depois, sairiam. Não é tão difícil de operacionalizar uma coisa assim. Desde que não se tenha medo ou desprezo, ou ambos simultaneamente, pelos pobres.

No cinema

Ah, no cinema nada que me mobilize muito. Fora “Twin Peaks”, claro. Ano até aqui bem fraco.

De nossa realidade

Não acho o juiz Moro um herói nem nada parecido. É um idiota como seus admiradores. O que ele me parece mais é o conceito reichiano de couraça caracteriológica tornado gente. Todo defesa. Todo proteção que se torna ataque para não ter de descobrir quem é. Mais ou menos que nem a Mercedes McCambrige no Johnny Guitar que quer matar todo mundo porque têm medo de sua feminilidade. Nada mais profundo. É diferente do juiz negro que agora tem para presidente. Também não daria certo. Esse preza muito a liberdade e não tem paciência. Tem dor nas costas. Qualquer um com dores crônicas fica irascivel. Não é  bom para um presidente.