CINEMA: HISTÓRIA E LINGUAGEM 2020

Para quem esteja interessado, já estão abertas as inscrições para o curso

CINEMA: HISTÓRIA E LINGUAGEM 2020.

Parece mentira, mas o curso vai para o seu ano 22.

E continuará no endereço mais recente: na Sala de Cursos do Espaço Itaú Augusta.

Fica na Rua Augusta, 1470 no Anexo (onde ficam as salas 4 e 5)

O programa, horários, telefones para inscrições etc. tudo está detalhado no site

www.cursoinacioaraujo.blogspot.com

Clint outra vez

Por enorme coincidência, pouco depois de ter postado um pequeno comentário sobre o “Caso Richard Jewell”, leio o caro Pedro Butcher ter uma visão perfeitamente oposta à minha. Bem, concordemos em discordar, mas a reflexão que ele faz acho que de certa forma complementa o que eu vi no filme.

Ele considera o herói do filme um fracasso, embora com outras palavras. Com efeito, ele é medíocre, pasmado, um bobo que absorveu a ideologia policial inteira e acredita nela plenamente. E no entanto, mal ou bem, é o que costuma se chamar “um herói”: graças à fidelidade canina aos princípios policiais é que ele detecta uma ação terrorista em Atlanta, durante as Olimpíadas de 1996.

Quase o mesmo se pode dizer do cara do FBI que investiga o caso. Além de passar informação relevante a uma jornalista em troca de uma transa, seu método investigativo é brutal e claramente tosco. Passemos pelo fato de que, covardemente, não assume a culpa pelo desastre que foi a divulgação do fato. O certo é que não seria preciso mais de um olhar agudo sobre o Jewell para se dar conta que ele (o investigador) estava no caminho errado. No entanto, ele prossegue na investigação.

O terceiro elemento da trama, a mídia, é representada por uma, digamos, alpinista midiática. Repórter de um jornal local, ela faz o que pode, e sobretudo o que não pode, para obter um furoque lhe dê notoriedade nacional. Ajuda, no caso, a estrepar o “herói”. A obrigação de um jornalista é publicar os fatos que conhece. Mas digamos que para a obtenção desses fatos ela não recorre a expedientes muito éticos e muito menos dignos

Tudo isso o Butcher atribui a um mau roteiro, e acho que nisso está parte boa de nossa discordância. Não é o roteiro: os personagens é que são, de alto a baixo, fuleiros. E é isso em grande parte que faz desse filme um grande Clint, aliás com todos os elementos para ser de fato incompreendido..

Clint já tentou antes trabalhar com o tipo heróico injustiçado. Lembro-me, direto, de “Sully”. Mas era impossível não ser simpático a um cara que pousou um avião em pleno rio sem que nenhum passageiro ou tripulante morresse. Além do mais era Tom Hanks. A fragilidade do filme, se se pode dizer assim (porque é muito superior a quase todos os filmes americanos do período), vem justamente do fato de que não há como o espectador reprovar o aviador. Por isso “Sully” é apenas um borrador decente para este.

Pois Richard Jewell é bem diferente de Sully, e sua pobre aparência não tem nada a ver com os rapazes bombados de “15h17”. Ele sofre de evidente fanatismo policial, o que o levou a perder empregos e tudo mais. Ele é um imbecil. Um loser, na expressão que os americanos tanto prezam.

O grande, o poderoso, o infalível FBI mostra-se aqui tão falível, faccioso, limitado e corrupto quanto, digamos, a polícia brasileira em geral (ou mesmo juízes de Direito, não poucos). E no entanto ele é a própria representação do Estado americano.

A repórter representa a instituição mais valiosa para uma democracia, classicamente, que é a imprensa, no entanto ela é a prova viva de que a imprensa pode ser perniciosa e mesquinha tanto quanto a opinião pública se deixa guiar cegamente por ela (além do que, no caso, corrupta também).

A meu ver Clint trabalha na intersecção dessas linhas que orientam seus personagens com uma desenvoltura de dar inveja. Não tive a impressão de que ele fazia o possível para tornar simpático aquele projeto de tira. Isso é praticamente impossível. Se desse o papel a Tom Hanks… aí seria outra coisa. Mas seria uma coisa menor, assim como “15h17 – Trem para Paris”, com seus heróis bombados e imbecis (e que me parece um filme infinitamente menos feliz).

Porque o desafio desse tipo de filme é esse mesmo: pegar personagens insignificantes e instituições poderosas que podem ser vistas em sua fragilidade. A polícia, o FBI, a imprensa. Isto é, o Estado americano. Isto é que salta como evidência ao final. Entre a estupidez e a excelência, entre a honestidade e a desonestidade as distâncias são mínimas, por vezes muito difíceis de distinguir.

Não sei dizer se esse filme responde a inquietações gerais do tempo presente, como os filmes que o Butcher menciona (Bacurau, Parasita e outros) e que são de fato notáveis. Mas acredito que é bem próprio do autor esse hábito de, sendo um cara de direita, fazer filmes que discutem com tanta veemência as instituições americanas (em outro filme, “Crime Verdadeiro”, a Justiça é posta em questão). O “homem comum” imbelicilizado, o policial incompetente, a imprensa idem, são peças essenciais do sistema americano e de falibilidade atroz.

Claro, seria mais fácil atacar os Bushs com suas incursões ao Iraque, mas não se pode esquecer do papel que tiveram “o homem comum” e sua crença irracional na bandeira nacional, os órgãos de informação estatais e, sobretudo, a imprensa (ah, quantas autocríticas grandes jornais fizeram…).

De todo modo, pessoalmente, o que me chamou a atenção no filme não foi tanto sua eventual atualidade, sua resposta a ameaças angustiantes e iminentes que enfrentamos, quanto a capacidade de apreender seres tão simples quanto os protagonistas desse filme naquilo que podem ter de delirantemente complexo.

Começando 2020 com uma obra-prima

Se 2019 foi um belo ano para o cinema, como não se espantar com o novo Clint Eastwood?

“O Caso Richard Jewell” é algo a que o autor americano aspirava há muito tempo e ainda não tinha conseguido chegar: trabalhar num entroncamento em que tudo é ambigüidade. Primeiro, há o heroísmo de Richard Jewell. Ou melhor, primeiro há Richard Jewell, jovem tão medíocre quanto balofo, aspirante a policial imbuído do mais fantasioso clichê da profissão: proteger e servir.

Mas Jewell tem a virtude de captar do nada os gostos e intenções do outro, o que o leva a receber o apelido de Radar de seu primeiro chefe no filme. Mas Richard é bem mais do que gordo e medíocre. Ele é um dedicado estudioso das questões policiais, as quais aplica com tanta diligência que tende a perder empregos um atrás do outro.

É graças a isso, aliás, que se dá o seu ato dito heróico. Durante um show musical no quadro das Olimpíadas de Atlanta, onde atua como segurança, ele desconfia de uma mochila deixada debaixo de um banco que, sim, continha um explosivo nada inocente.

É o que basta para, do dia para a noite, ser promovido a herói pela mídia. Estamos no mundo contemporâneo, afinal. Um ato pode projetar qualquer um à condição de celebridade, com direito  a um livro sobre sua vida etc. e tal.

Aí é que entra em ação o Olimpo da atividade policial, segundo Jewell, pois ele é alguém que acredita piamente nas instituições americanas. E o FBI desenvolve a teoria de que o autor do atendado e o homem que o previne podem ser a mesma pessoa. Ou seja, passa a investigar Jewell como um tipo que arma o atentado para se projetar e voltar à atividade policial de que tinha sido ejetado por conta de seus excessos.

Estamos nisso quando temos de volta a mídia. A mesma que o projetou na qualidade de herói agora consegue, pelas artimanhas (de resto nada éticas) de uma repórter, descobrir que ele está sendo investigado e, a seguir, jogar seu nome na lama.

São esses basicamente os elementos e as pessoas que Clint joga em seu xadrez. A banalização do heroísmo, a falibilidade daqueles que ele próprio julga infalíveis (o FBI, as instituições americanas no geral) e a imprensa.

O filme tem em “Sully” um precedente interessante. Também ali há um piloto de avião que salva mais de uma centena de pessoas questionado e processado por inabilidade. Mas o quadro não tinha a complexidade de agora. O piloto era realmente hábil. Jewell é um pobre coitado. A investigação do caso Sully foi dura, porém honesta. A mídia estava ausente, assim como os advogados.

Do advogado de Jewell há pouco a dizer, exceto que sua secretária, futura namorada e mulher, chama-se Nadya, é presumivelmente russa e diz que em seu país, quando o governo considera alguém culpado, todo mundo sabe que é inocente. Basicamente, ele é um pião na história.

Clint lida com equilíbrios e abstrações: o que é Justiça, o que é culpa ou inocência. Não há vilanias mais ostensivas, embora a repórter, com seus métodos pouco ortodoxos, entre como isca para a platéia ter alguém a quem odiar. No entanto, ela é irrelevante em face das centenas de repórteres que, doravante, infernizarão a vida de Jewell. Estarão tão errados assim? Não, eles buscam informações, como todo jornalista.

Estará errado o FBI? Em suas conclusões, sim. Jewell é um anjo de inocência. Mas a premissa da investigação faz sentido. Jewell  se enquadra bem no caso do sujeito capaz de armar um atentado para ficar bem na fita e voltar à atividade de proteger e servir.

Se há falhas na investigação, são secundárias. Se se tornam fatais é apenas porque é difícil ao agente de investigação aceitar que sua hipótese está errada. Quando as  se voltam contra ele, entra em definitivo na área da ficção, de modo a tornar Jewell culpado a todo custo.

O que faz este filme invulgar é, precisamente, o fato de lidar com pessoas absolutamente comuns. Um agente policial que se guia por aparências, como em Hitchcock. Uma repórter interiorana em busca de um furo espetacular e ascensão na carreira (como todo repórter, interiorano ou não). E, por fim, Richard Jewell, com seu fanatismo inocente, cometendo erro após erro e se afundando mais sequência após sequência. Assim, ele acredita que deve falar ao FBI, pois o FBI representa as instituições, o governo, a bandeira americana, essas traquitanas todas.

É sublime a maneira como Clint constrói, a partir de um grupo de personagens que beiram a insignificância, um drama em que o humano se revela, em sua fragilidade e grandeza, tão claramente e com tanta força. Ele consegue não raro capturar esses seres no cruzamento de virtudes e defeitos, erros e acertos. Ele consegue fazer um filme perfeitamente intelectual, na medida em que capta os personagens na confluência daquilo que somos também nós de modo geral, pessoas com virtudes e defeitos, erros e acertos, burrices e eventuais iluminações. Nem bons nem maus, em princípio. Ao mesmo tempo, Clint insere um elementos emocionais capazes de mobilizar o espectador, tornando-o quase hitchcockianamente cúmplice de Jewell, o falso culpado, e forçando-o a aderir ao filme.

Há alguns filmes de Clint Eastwood nesta linha, não só “Sully”, mas é neste que, pela primeira vez, consegue tratar a insignificância do humano e de seus gestos e ao mesmo tempo mostrar-lhe a dignidade e grandeza.

É a primeira obra-prima do ano.

A Culpa é sempre do cinema

E, de repente, do nada, eclode uma campanha contra “Coringa”, como se o filme pudesse ser responsável por assassinatos em massa que viessem a acontecer nos EUA.

Entendo que a mãe de uma moça morta durante a projeção de um dos últimos Batmans tema por novos assassinatos.

Porém esses assassinatos massivos não precisam de filme para acontecer nos EUA. A julgar pelos argumentos, seria o caso de fechar todas as escolas secundárias de lá…

Mas o que prevalece é, de novo, como desde 1900, a crença de que o cinema é que determina o comportamento das pessoas.

Em parte pode até determinar, entre outras coisas, como as pressões sociais, a repressão sexual, a facilidade de acesso às armas, a frustração entre a distância do sonho americano com a realidade etc.

“Coringa” é um filme com cenas brutais, é verdade. Mas qualquer Batman em que tenha figurado o personagem, aliás, qualquer Batman supõe cenas de violência.

Mas, como bem disse Joaquin Phoenix, este Coringa é mais algo para que se reflita sobre a violência do que outra coisa.

Mas parece que refletir um pouco dói.

“Coringa” é um filho dileto do mundo das celebridades. Do neoliberallismo também, e da TV. Os dois formam o par que cria esse mundo em que ou o sujeito é um célebre ou é um nada. Eis a diferença entre os personagens de Phoenix e De Niro no filme. Ambos fazem piadas ruins, mas um deles faz as piadas ruins de que o público ri.

Entre a dor e o nada, eis como está o Coringa.

É um belo e surpreendente filme, este de Todd Phillips.

Se algum louco entrar no cinema e matar gente, acredite, não tem nada a ver com o cinema, exceto por essa campanha contra o filme, que, inconscientemente ou não, acaba se tornando uma propaganda dos assassinatos massivos.

Teorema 31

Com a gentileza de sempre, Marcus Mello me envia a edição 31 da ótima revista “Teorema”, que é hoje a única publicação em papel sobre cinema. Mas isso é o de menos. É uma revista que precisa ser lida por qualquer fã de cinema.

Embora saída da sólida tradição da cinefilia gaúcha (que hoje tem na Cinemateca Capitólio outro impulsionador importante), trata-se de uma revista que nega o mito de que o Rio Grande do Sul é uma espécie de república à parte.

O que eu vejo, sem a menor preocupação, é uma aproximação cada vez maior entre a universidade e a crítica. Houve um tempo em que esses dois territórios não se bicavam. A universidade ficava fechada em seus estudos; a crítica, na observação direta e rápida dos filmes.

A revista se vale de inúmeros professores para trabalhos ensaísticos de que a observação crítica está longe de ser descartada. Menciono os dois que pude ler até agora: um lindo artigo de Pablo Gonçalo (UNB, mas também Cinética) sobre Clint Eastwood e “A Mula”, e o formidável ensaio sobre terror a partir de “Nós” escrito por Laura Cánepa (UAM). Também percorri a longa entrevista com Jean-Michel Frodon.

Há uma extensa fila de textos ainda a ler, do “Bacurau” visto por Eneas de Souza a Denilson Lopes, Ivonete Pinto, Marcelo Miranda, Marcus Mello e… chega: muitas pessoas mais, muitos textos sobre assuntos que me atraem mais.

Nunca consigo lê-los todos. Depois de um tempo vão para o banheiro, que é um ótimo gabinete de leituras, além de servir a eventuais visitas. Acho uma delícia encontrar em números antigos textos a que não tinha ainda dado atenção.

Acho que a melhor definição para “Teorema” é o de uma revista de ensaios cinematográficos.

Bem, a revista poderia dizer onde é encontrável fora de Porto Alegre. Garanto que ajudaria a quem queira adquiri-la. Sei que a livraria do Espaço Itaú Augusta a vende. Não vi nenhum sistema de assinaturas. Não vi nenhum anúncio. O forte da revista não é o lado comercial.

Então, para quem se interesse, fica aqui o endereço eletrônico para contato:

revistateorema@yahoo.com.br

O cobrador

De tempos em tempos surge a ideia de limar a profissão de cobrador de ônibus.

As alegações variam conforme a era histórica. Pode-se alegar que em Paris, Berlim, Londres, sei lá onde, não existem cobradores nos ônibus.

Pode-se afirmar, como agora faz o prefeito paulistano, que só 5% das passagens são vendidas dentro dos ônibus, o que torna o personagem ocioso.

Sim, se Bruno Covas, nosso prefeito (e me parece até bem mais humano que o Doria, o que não é tão difícil), alguma vez já andou de ônibus terá notado que o cobrador faz muito mais coisa além de cobrar.

Ele começa por ser um auxiliar do motorista, que não é um motorista europeu, e com freqüência abre ou fecha a porta nos momentos errados, etc. Aí o cobrador bate com um ferrinho no metal e o cara se manca.

Então, você quer descer, o motorista fecha a porta e pretende ir em frente, você apela ao cobrador e ele avisa o motorista que nem todo mundo desceu.

Mas o cobrador é também auxiliar do passageiro. Eu diria que ele é o amigo do passageiro durante a viagem.

O cara não sabe em que ponto deve descer. O cobrador avisa a ele.

Se nossos ônibus se tornaram subitamente europeus e tiverem indicações decentes, o que não acontece, essa função ficará razoavelmente esvaziada.

Razoavelmente, apenas.

Quando o passageiro vai a um lugar que não conhece, precisa saber muito bem a parada em que vai ficar. Os ônibus terão um sistema que permita visualizar a parada para onde você vai?

Duvidooooo.

Os ônibus terão um sistema de som como o do metrô dizendo qual a próxima parada?

Duvidoooo muitíssimo.

Ainda assim, será que não se leva em conta que nossa população é quase toda semi-analfabeta, quando não analfabeta de vez?

O cobrador é o grande personagem do ônibus urbano no Brasil.

Posso imaginar um ônibus sem motorista. Mas sem cobrador?

Vai ser um sofrimento.

Ah, sim, para terminar: quem vai controlar se fulano pagou a passagem ou não?

Um sujeito com porrete na mão?

Seria bem a cara do Brasil.

 

Pol Pot no Brasil

Pol Pot, ano zero

Vi esse título de livro, acho que vi, e me perguntei, quase sem perceber: será que fala do Camboja mesmo ou do Brasil?

A pergunta apareceu assim, sem querer. Mas não por acaso, claro.

Não são tão diferentes Pol Pot, Khieu Samphan e Bolsonaro.

Se pudesse, se um dia puder, Bolsonaro mandaria todos os letrados para capinar na Amazônia desflorestada, trabalhar de peãozada nas grandes fazendas do agronegócio ou, melhor, ainda nos garimpos.

Sem marmita, para morrer de fome.

Mas as semelhanças ficam por aí.

Ele tem ódio na expressão, nos atos, nos tweets, nas mentiras, nas bazófias.

O khmer vermelho enganou bem. Bolsonaro engana quem quer ser enganado.

Os caras do khmer vermelho não eram grosseiros, ao contrário do que se possa imaginar,  estudaram, às vezes com brilho, em universidades francesas.

Tornaram-se os genocidas que sabemos.

Bolsonaro é grosseiro, sua linguagem é chula.

Mas a intenção de sua necropolítica é a mesma do khmer vermelho: destruir tudo que havia antes, recomeçar do zero, eliminar tudo que soe estranho a suas, digamos, ideias.

Por incompetente é capaz que seja deposto antes de ir parar numa corte internacional .