Tiradentes de novo

Às vezes eu adoro, às vezes eu detesto os filmes do Festival de Tiradentes. Mas eles são únicos, assim como é o festival. Não são os filmes que vemos habitualmente em cartaz. Decorrem, não raro, da revolução do digital e da possibilidade de fazer filmes em conta.

Com isso, digamos que ali existe originalidade, desejo, expressão. Eles podem ter defeitos, insuficiências, eventualmente ingenuidade, mas nunca são insignificantes, nunca são motivados pela aspiração ao sucesso, ambição desmedida ou coisa assim.

Tudo isso para dizer que vale muito a pena dar uma passada no CineSesc a partir do dia 23.

Ali vamos para ver o que não vemos habitualmente.

Não posso falar nada sobre o filme que ganhou a mostra, “Baronesa”, porque não vi. Mas vi “Guerra do Paraguay”, que é talvez o filme mais maduro, mais completo do Luiz Rosemberg, e um formidável achado, que é “Histórias que Nosso Cinema Não Contava”, de Fernanda Pessoa.

A retrospectiva dedicada a Helena Ignez traz filmes de Rogerio Sganzerla em que ela trabalhou como atriz, mas, sobretudo, os que dirigiu. Eu gosto em especial de “Ralé”.

Também quero conferir o filme do Thiago Mendonça, que tem ótimos curtas.

Enfim, há coisas interessantes.

Tem filmes de que não gosto, e não sei o que há com o cinema do Frederico Machado, cada vez mais fechado, sorumbático, metafísico, menos dotado daquela luz de seu primeiro filme. Mas é um trabalho muito digno de respeito. Digno demais, até. Não tem aquele lado popular, vadio, do cinema, que eu prezo tanto.

Enfim, uma mostra para frequentar e boa para depois sair e conversar.

IV Oficina de Crítica Cinematográfica

de 5 de abril a 24 de maio

com Inácio Araujo e Sergio Alpendre

no

Espaço Itaú Augusta de Cinema (Anexo)

R. Augusta, 1470

Objetivo: desenvolvimento do espírito crítico, formação de novos críticos.

Em oito encontros, esta oficina pretende proporcionar ao aluno o desenvolvimento do espírito crítico e a capacidade de se relacionar com os filmes.

A oficina é totalmente voltada para a prática, seja de forma escrita, seja de forma oral.

Serão exibidos trechos de diversos filmes, e haverá também leitura de textos importantes da crítica de diversas épocas.

Alguns temas a serem abordados nos encontros:

  • O que é cinema? Sua função como arte. Em que seu aparecimento afeta o conjunto das artes.
  • Crítica: o que significa? A crítica no jornal, na internet, nas revistas especializadas.
  • O que é um filme clássico? Critérios clássicos do juízo cinematográfico.
  • O que é um filme moderno? A ruptura do juízo clássico.
  • Questões contemporâneas, no cinema brasileiro e no cinema mundial.
  • Alguns autores abordados: Clement Greenberg, Elie Faure, Jose Ortega Y Gasset, Leon Tolstoi, Jorge Luis Borges, André Bazin, Eric Rohmer, Jean Douchet, Jacques Rivette, François Truffaut, Noël Simsolo, Jairo Ferreira, Rogério Sganzerla.

Encontros:

Quartas-feiras, de 5 de abril a 24 de maio, das 19h30 às 22h.

Valores:

R$ 570,00 (pagamento integral);

R$ 640,00 (1ª parcela no ato da inscrição; 2ª parcela até a 4ª aula).

Informações e Inscrições:                

Fones: 3825-8141

Email: cinegrafia@uol.com.br

Estado de civilização

Ah, eu falei demais nesses últimos posts, mas esqueci uma parte.

Não foi só o trabalho, nem as operações, nem Tiradentes.

Não só. Foi uma espécie de desânimo geral, com a política daqui, com a infantilidade do prefeito, a truculência do governador, o vingativismo do governo federal, o cretinismo dirigindo nada menos que os EUA…

Caramba: como me culpar por estar meio deprimido!

Mas acho que o que mais contou foi o ministro da Educação. Dizer que “Haverão mudanças no Enem” não é uma coisa humilhante para o governo, mas para o país, para cada um de nós e para mim pessoalmente.

Senti muito esse golpe. Não ri do cara. Devia, mas não consegui. Tudo que consegui foi um sorriso melancólico.

Sapatadas e filmes bons

oriosagrado-34blg2Essa música da Maria Sapatão me pareceu sempre uma coisa de muito mau gosto.

Uma moça reclama que um menino a cantou, não sei aonde. Ok. Está aí uma música que, com efeito, difunde um preconceito, não apenas o registra.

Não me oporia a colocá-la em qualquer índex. Acho um absurdo deixar essas coisas a critério “do mercado” ou “da audiência”, que são, como se sabe, um reduto de imbecis.

Não sou inteiramente contra a censura. Ela força, como certa vez lembrou Borges, o exercício da imaginação.

Já a música da cabeleira do Zezé, longe de ser uma favorita, não me parece, em todo caso, algo que estigmatize os homossexuais. Entre outras porque não existe mais a menor associação entre cabelo comprido e homossexualidade, é coisa tão antiquada quanto preconceito contra calça comprida de mulher.

Sim, as pessoas aproveitam o intervalo entre estrofes para gritar “bicha”. Mas isso é uma espécie de desabafo. É que nem xingar a mãe de juiz no campo de futebol: não tem efeito nenhum.

No fim das contas, seria melhor parar com essas coisas, que começam a beirar a loucura.

Digo isso como alguém que é contra essas discriminações, assim como com negros, mulatos, índios.

Tudo isso faz parte do setor destrutivo, do instinto de morte, da vontade de fazer o mal a outro.

Pode ser até da “natureza humana”, mas a sublimação também é, de maneira que se pode pedir que as pessoas a exercitem. Transformem a pulsão predatória em criação, em civilização.

Agora, civilização é a palavra quando se fala da Mulata segundo Lamartine Babo.

É um canto a uma forma de beleza. E esse verso “e como a cor não pega”, por favor… É apenas algo que rima com “nega”.

Até porque, sabe-se, a cor talvez não se pegue, mas se transmite. O que dá em nossa exuberante miscigenação.

Nesse ponto eu entendo muito bem a turma da Porta dos Fundos, que se recusa a fazer humor com categorias que considera indefesas (toda as mencionadas e mais algumas).

Não há como aceitar esses sem talento que se julgam perseguidos pelo “politicamente correto”. Ah, mas pelo amor de Deus, esses se endereçam à mesma plateia que canta Maria Sapatão de pulmão inflado.

Também não aguento muito esses ressentidos que por sinal fazem o maior sucesso se dirigindo a outros ressentidos. Em São Paulo isso faz o maior sucesso, mas  me parece vil.

É só isso?

Não, não é. Depois que me recuperei da domingueira do Oscar vi uns filmes das caixas Renoir e Cassavetes. Vi o “Rio Sagrado” do Renoir, que nunca tinha visto. Um filme estranho… O Renoir pode dizer quanto quiser que não existem atores ruins, existem papeis ruins. Mas alguns desses deste filme são mesmo ruins.

E, no entanto, talvez seja isso que lhe dá uma graça amadorística, de maneira que certas partes do filme não me saem da cabeça.

Do Cassavetes revi, até agora, “O Assassinato de um Bookmaker Chinês”, que eu adoro. Os outros são “Faces” e “Noite de Estreia”.

No Renoir temos ainda “A Cadela” (com um belo documentário não creditado sobre o Renoir do início do som), o não menos formidável “A Besta Humana e o americano “Amor à Terra”.

Considerando que a Versátil lançou também uma caixa de terror que ainda não abri, o que não me falta é coisa para fazer.

Deserto Vermelho

Não foi por falta de coisas acontecendo que esse canto aqui ficou deserto por tanto tempo.

Ao contrário, talvez tenham havido coisas demais, que me afastaram ora da possibilidade ora do tempo para escrever.

A começar por duas operações, pequenas, mas que exigem ida a hospital, recuperação, visita aos médicos e tudo mais. Quando estava tudo pronto para eu me preparar para as doenças de rotina, com seus exames de rotina, pronto: quebrou um dente. A dra. Lygia passou na frente de todo mundo.

Sim, já tinha havido Tiradentes e, para mim, mais que a descoberta de dois filmes mais que interessantes (informo que não estive lá desde o início, não vi tudo), foi o reencontro com o Rosemberg, o Luiz Rosemberg Filho, o Rô.

É um cineasta exigente, que não abre mão de seus princípios, mas é sobretudo uma das pessoas mais carinhosas que eu já conheci. Voltarei a isso um dia desses.

Com isso veio uma sucessão de fatos de que eu gostaria de falar, de comentar, de meter o bedelho.

O novo dicionário do Leão, por exemplo: Super-8. Mais um notável trabalho desse dicionarista obsessivo, solitário e inesperado: pois quem havia de esperar um dicionário de um fenômeno já antigo e, sobretudo, tão soterrado e disperso quanto o Super-8?

Em Tiradentes não estava o Orlando Margarido. Claro: puxaram o tapete dele na Carta Capital e ele ficou sem veículo para escrever. Uma lástima em todos os sentidos: lá não estava o amigo, o consultor gastronômico e, sobretudo, o cara de observações tão fortes e tão instrutivas que me acostumei a ler na Carta.

A crise bate pesado e uma das razões de eu ter sumido daqui é que tenho de dedicar uma parte de tempo grande atrás de dinheiro, senão não pago as contas.

E o começo do curso: esse momento em que tudo se junta. Corrigir as aulas, receber inscrições, escrever releases… Fora as aulas propriamente ditas.

Devo mencionar o Oscar? Passei o Carnaval bodeado: no domingo, trabalhando até 2h da manhã. No dia seguinte acordando às 9h para entregar outro texto. Na minha idade certas coisas começam a ficar um tanto pesadas.

E para chegar ao Oscar houve a maratona do Oscar. Ver a maior parte desses filmes muito chatos… Porque por mais bem intencionado que seja o vencedor, por exemplo, o “Moonlight”, duvido que alguém se disponha a revê-lo com prazer. E o filme do Casey Affleck  me pareceu uma xaropada, e sua interpretação não me impressionou de modo algum. Me pareceu um Oscar arranjado. Não quer dizer que não seja bom ator, mas o papel predispunha à interpretação uniforme que se pôde ver lá.

Também não gostei do Denzel Washington fazendo tipo. Seu filme não é nada nulo, é bem mais interessante que o do Casey, mas fica nessa categoria em que ver uma vez está mais que bom. Tirando o aspecto racial, tudo ali já é bem usado.

Já disse que gostei bastante de “La La Land”, inclusive depois de revisto. Tem essa virtude de se jogar no meio de uma multidão de clichês e depois esgueirar-se com muita classe. É um filme que, ao contrário do anterior, não busca fazer o musical vir do nada. Vai ao antigo para fazer o moderno. “So, old is new”, como diria Marlene Dietrich.

O Mel Gibson, pelo amor de Deus: quem disse que aquilo é bom? É um cara que ainda acredita em heróis. Fantástico. Todos agora só acreditamos em super-heróis. Ele, não. Depois, é aquela crença no martírio regenerador… Francamente! E o martírio, aliás, puxado a um indisfarçável sadomasoquismo. Até aí tudo bem: mas o mau gosto de corpos explodindo, ratos se banqueteando em caveiras… Não dá. Certas coisas, não dá.

Também não achei nada de mais em “A Chegada”. Tem um aspecto interessante: gira em torno de tradução, isto é, da possibilidade de compreender o que diz o outro absoluto. Não precisa ir a outro planeta: é virtude de que precisamos muito aqui mesmo.

Resumindo, concordo muito com o Mario Sergio Conti, que viu em “A Qualquer Custo” o melhor filme do Oscar. E o mais político também: a pobreza como herança é um assunto bem forte, desenvolvido como um faroeste moderno.

Claro, ninguém esperava que a Huppert ganhasse. Mas, cá pra nós, ela anda sensacional em tudo que faz.

Melhor que todos os filmes do Oscar, como inventividade e profundidade, me parece ser “Jackie”. Mas nem foi indicado, exceto por Natalie Portman e sei mais lá o quê.

Fim de Oscar.

Voltemos às minhas penas. Não. Elas terminaram.

Ah, claro, haveria muito a dizer das coisas de política.

Mas são tantas barbaridades, tão cotidianas, nossas, e não só nossas, que não dá pra acompanhar.

Fico com poucas coisas.

Primeiro, um apelo para que Dória tire sua fantasia de gari depois do Carnaval e, se faz questão de usar alguma fantasia, melhor seria a de tapaburaco. A cidade parece um paliteiro, cheia daqueles postezinhos acho que da CET para avisar que tem cratera na pista. Mas o prefeito está obcecado com seu novo papel de gari.

Segundo: ah, é fantástico morar em São Paulo. Uns moradores de perto da praça Roosevelt resolveram acabar com o Carnaval a partir de horas tantas. Não os culpo por isso. Mas será que isso é viável? Claro que a polícia do Alckmin acha que sim. E cerca a praça Roosevelt. E solta gás pimenta… E o  gás entra para dentro dos apartamentos, talvez até de alguém que tivesse feito a reclamação…

Quer dizer: para acabar com a festa fizeram um tal fuzuê repressivo que, claro, em vez de ninguém dormir com o barulho da festa ninguém dormiu com a tensão, o barulho e o efeito das bombas.

Mas, que dizer? É disso que São Paulo gosta. São Paulo não é um estado da Federação. É um estado d’alma. Uma espécie de doença.

Ah, e o caso Raduan Nassar? Tenho a impressão de que quem ganha prêmio pode agradecer a quem bem quiser. À mulher e aos filhos. Dedicá-lo aos pais mortos etc. Pode até apontar o que julga ser problemas de seu país.

Bem, o Raduan não ganhou um prêmio nacional, mas da língua portuguesa.

Tivesse um pouco de tino político, o nosso ministro fingia que esqueceu o aparelho de surdez em casa, não escutou nada, dava o premio e fim de papo.

Mas não. Resolveu dar de machão nordestino e se pôs a falar besteiras. Que o escritor não devia aceitar o prêmio se é contra o governo, etc. e tal.

Ora, se fosse um prêmio do governo brasileiro, abrir uma discussão desse tipo já seria besteira. Mas, vá lá, seria um prêmio nacional.

Ocorre que não. E aí ficou mais ou menos que nem a policia alckmista: pra acabar com o fuzuê fez outro, muito maior, só que maligno: não fala muito sobre as crenças do escritor, apenas sobre o caráter autoritário do ministro.

Me espanta esse pessoal que fica dizendo, no facebook, que ah, o Roberto Freire dos últimos tempos… Sim, nos primeiros tempos era comunista. Repetia a besteirada absurda que vinha do Kremlin e conexos. Ok, era uma religião. Mas não quer dizer que estivesse certa.

Mais certo estava o Itoby, que acaba de falecer. Foi para Cuba treinar a guerrilha. Viu que aquilo ia dar no que deu. Largou a coisa e ficou ao lado do Alfredo Guevara, no instituto do cinema. Foi, aos poucos, se tornando bem crítico ao governo cubano. Se houve oportunismo nisso? Sei lá: sobreviver era a primeira questão, e não me parece nada injusta.

Gostava do seu jeito um tanto cínico. Era sua maneira de exercer o criticismo feroz. Não o via há séculos. Desde que resolveu virar político. Foi candidato a vereador e entrou pelo cano. Também: buscou apoio na classe cinematográfica… Alguém se elege com isso?

Há mais coisas. Houve mais coisas nesse meio tempo. Acabei de lembrar de uma, mas perdi.

Ah, sim, lembrei das marchinhas de Carnaval. Proibir (ou proibir-se) o prazer de ouvir e executar “O Teu Cabelo Não Nega” e outras tantas, pelo amor de Deus. Me passo com alegria de coisas tipo “Maria Sapatão” e mesmo essa da cabeleira do Zezé, mais inventiva, me parece esquecível. Mas as clássicas? É ridículo, num primeiro momento, e deplorável em seguida.

Outra: tem uma gente que tudo que acham ruim botam a culpa no PT. Politicamente correto, por exemplo. É coisa que vem dos EUA? Já viu petista curtir algo que venha dos EUA?

Fala sério.

Não há racionalidade no hospício

Calil na Festa Literária de Paraty em 2015. foto - Walter Craveiro
Calil na Festa Literária de Paraty em 2015. foto- Walter Craveiro

Li a já famosa entrevista do Calil ao El Pais, em que na chamada ele diz que o cinema brasileiro está estatizado. Ouço falar muito dessa entrevista. Eu a li com a atenção bem dispersa, pescando uma coisa aqui e outra ali. Quer saber? Acho que o Calil está meio maluco, ou meio perdido, o que é a mesma coisa. Ou então não entendi patavina do que ele quer.

Porque a  horas tantas ele diz que é horrível ter filmes que não são nem comerciais e nem bem-sucedidos do ponto de vista autoral. Então, o que fazer? Bem, para ele um bom exemplo é Boi Neon que se paga no exterior patati patatá.

Sim, ok, mas para chegar a Boi Neon ou Aquarius o cinema de Pernambuco pastou muito. Fez filmes que fracassaram, outros que não deram certo. E aí? Ninguém nasce feito. Em cinema menos ainda. Ninguém faz filme para fracassar. Filmes fracassam… Simplesmente.

Longe de mim dizer que estamos num mar de rosas. Longe disso. Mas: soviético? Vem cá, isso é coisa de quem não está batendo muito bem.

Tudo bem, entendo que aí existe a autocrítica de um ex-campeão da sovietização do cinema, dita Embrafilme, que a seu tempo lutou para amealhar o adicional sobre a bilheteria sob as asas estatais (para distribuição entre os acólitos da empresa) e assim acabar com a produção independente.

Mas, caramba, então que diga isso.

Não que precisa acabar com as comissões locais de cultura. Porque, se olhar bem, verá que dali saiu o cinema pernambucano que hoje está em Berlim, Cannes, o diabo.

Também comparar a França com o Brasil não vai dar em nada. Calil diz isso, no mais. O fato é   que, num cinema saudável, o produtor sabe que, se tiver o Delon, tem 400 mil entradas garantidas em Paris. Se tiver a Deneuve são 300 mil, se for a Huppert… etc.

Aqui não. Se botar o Wagner Moura não vai ter 10 mil ingressos garantidos. Aqui não funciona assim. E autor? Pensei que o Walter Salles fosse inaugurar isso, no tempo do Central do Brasil. Que nada. No filme seguinte, ninguém nem lembrava. Ninguém foi ver.

E o Kleber? Aquarius faz sucesso fora daqui. Aqui, a esquerda virou a cara porque pensou que ia topar com um filme militante. A direita… bem a imensa maioria da direita é aquele arremate de humanidade que a gente sabe. Fechou a cara por causa dos cartazes contra o golpe em Cannes.

(Estranha, a direita: quando alguém fala uma coisinha contra piadas racistas, idiotas e que tais, fecham a cara, dizem que não há liberdade de expressão e tal. Basta um cara fazer um grafite com o retrato do Chavez e vem aquele escândalo e esse papo de liberdade de expressão vai pro ralo mais que depressa).

Sigamos.

Enfim: todos sabemos como é difícil construir uma cinematografia contra o seu público, contra uma tradição construída todinha para o cinema estrangeiro funcionar.

Caraca! O Calil sabe disso muito melhor que eu. É o que o Paulo Emilio, que ele venera, disse a vida inteira. E com razão.

Então, volto ao início: não entendi.

Até concordo que nosso cinema ainda é irrelevante. Isso vem desde os anos 1970.

Não temos mais cultura cinematográfica. Ela é pobre. É difícil pedir que se construa um bom cinema sobre a ignorância. A geração do cinema novo, a da chanchada, a “marginal”, estava lá, malgrado suas diferenças, porque gostava daquilo.

Hoje você passa numa filmagem parece que está numa festa. São umas duzentas pessoas. Umas 180 sem fazer nada. Porque se o filme não é superprodução ninguém precisa de mais de 20 pessoas na filmagem. O resto é “pleno emprego”, digamos assim. É mania de grandeza, pompa, desperdício.

Tudo bem. Mas isso não vem de estatismo, nem de capitalismo, nem de sovietismo.

Ao contrário do que pensa o Calil me parece que a vida dos produtores é muito mansa justamente porque saem, basicamente, com o filme pago.

Não pode ser muito diferente. Já pensou o produtor de “Boi Neon” se o filme não tivesse ido para o exterior? Com 30 ou 40 mil ingressos não ia pagar nem o aluguel dos bois pra fazer o filme.

O que seria do produtor da Sinfonia da Necrópole (de que eu gosto mais que do Boi Neon, por sinal), com seus gloriosos 2 mil ingressos?

O Calil precisa explicar como ele pretende (ou entende que se deve) fortalecer as produtoras num quadro de consumo de imagens caótico como é o nosso, para dizer o mínimo.

Não dá para pedir racionalidade no hospício. Acho que o Calil está pedindo isso.

Duas Pérolas de Tiradentes

guerra2Duas pérolas de Tirandentes: “Histórias que o Nosso Cinema (Não) Contava”, de Fernanda Pessoa, e “Guerra do Paraguay”, de Luiz Rosemberg Filho.

Dois filmes ancorados, de diferentes formas, na história.

No primeiro, os parênteses no Não fazem lembrar o Vieira evocado por Manuel de Oliveira: terrível palavra é o non.

Ele nega em todas as direções.

Eis o fato: a diretora conta uma história do Brasil dos anos 70 a partir dos filmes populares do período, preferencialmente comédias eróticas.

Daí o rebu, que devemos a Freud. O sexo está na base de nossa vida psíquica, mas falar dele e, sobretudo, mostrá-lo, nos leva a uma espécie de cegueira.

Podemos perdoar se vem cercado de uma aura cultural (Carlão e outros). Mas esse outro, direto, raso, parece que provoca uma espécie de cegueira (aliás, Carlão também provocou: foi resgatado pela Europa, não pelo Brasil: nunca esquecer).

O fato é que Fernanda Pessoa percebeu o que existe de invisível no visível. Numa série de 30 filmes escolhidos por ela, dos mais variados, do melhor (Antonio Calmon) ao pior, vemos surgir ali o que não se via: o consumismo na era do “milagre”, o respeito ao dólar, a tortura, as greves, o culto do dinheiro, a irrupção do desejo feminino, o divórcio, o culto ao automóvel e a crise do petróleo.

Resumindo, mais ou menos tudo que houve de relevante no período estava lá. Por que não víamos? O fato é que não víamos. O refúgio habitual era o “machismo” dos filmes ou outra desculpa do gênero.

“Histórias que nosso…” mostra que a coisa não era tão simples assim. Pior: que esse cinema popular era também uma bela maneira de falar das coisas do seu presente, bem mais do que mero exercício de evasão.

Já “Guerra do Paraguay” reencontra o humanismo de Luiz Rosemberg num de seus melhores momentos. Poucos e longos planos, assumida teatralidade, num confronto que envolve, basicamente, uma atriz, um soldado que volta da guerra e a irmã de atriz.

A primeira é a fala, o discurso. O segundo é a incapacidade da razão: aquele que só fala por frases feitas. A terceira é a personagem talvez mais misteriosa. Pois não é uma deficiente, como possa parecer (e como a ela se referem), mas é o além do discurso, a razão que já não pode falar, que grita.

Um filme de poucos e belos planos, com um final tão forte quanto misterioso, onde Rosemberg salta da guerra do Paraguai para a guerra em geral e para a guerra brasileira, mesclando tempos com um rigor admirável (nada de “liberdade”).

Tiradentes é isso: um festival onde se topa com maravilhas, outros filmes por vezes são tentativas ainda inacabadas e outros são, vamos falar o que é, um tanto insuportáveis.

Não vi todos, não posso falar de todos. Mas esses dois valem a viagem.