De além-túmulo

O verdadeiro feitiço, aquilo que encanta a tantos no filme de Petra Costa, é sua voz. Uma voz de além-túmulo, que bem representa o estado atual da esquerda no Brasil. Morta? Talvez apenas em catalepsia, à espera de que Lula ressuscite no terceiro dia para iluminar-nos.

Eis a esperança que freqüenta “Democracia em Vertigem”, que melhor seria denominar democracia em farrapos, que é esta nossa, onde a cada dia a podridão parece se espalhar mais por toda parte.

Quanto ao filme, eu teria uma pilha assim, ó, desse tamanho de reservas a fazer-lhe. Mas é preciso reconhecer que há imagens muito boas, devam-se ou não à intimidade de Petra com o poder.

A mãe dançando na avenida num dia de vitória é coisa bonita. A entrevista com Bolsonaro é burlesca. Ele tinha no escritório de deputado o retrato de todos os presidentes militares. Diz que a esquerda odiava o Geisel. Mas não tanto, certamente, quanto o Geisel o desprezava.

O tom é de lamento e expressa bem a impotência da esquerda. Não mobiliza nem sindicatos, nem sem terra, nem ninguém. Não tem muito nada a dizer.

O Ciro Gomes rodopia perdido entre suas idéias, que são fartas e não raro boas, e sua incrível vocação para a solidão. É o mais fiel seguidor do Brizola que eu conheço. Claro, o Lula lhe passou uma rasteira que, pessoalmente, acho que arrastou o país inteiro. Mas agora ele se faz de emburrado, não fala com o Lula, não visita, não nada. Antes, ele não fez aliança porque o tapete puxava seu tapete. Agora não faz porque não vai se aliar a ninguém. Quem pode se aliar a ele, senão a esquerda?

Enfim, essa é a situação da vertigem de Meunière que atinge a esquerda. Em vez de fazer congresso, devia tomar Labirin, para ver como se encontrar no dédalo.

A Petra Costa acho que cresceu vendo telejornais da Globo. Numa boa parte do filme mata as imagens com o discurso. A Globo é assim: as imagens não falam, não dizem, não pensam e não mostram. Elas chegam embaladas pelas palavras que já trazem A Verdade embalada. Notícia em versão supermercado.

Quando não é assim, ela entope o filme de música. Me lembra o artigo do Rivette sobre a abjeção. Não acho abjeto, mas sim que beira a imoralidade, essa mania de usar a música para criar um significado que não existe.

Para jogar sentimentos goela abaixo do espectador.

Enfim, meus amigos de esquerda parecem gostar de ir ao cinema para se lamentar.

Eu também me acho de esquerda. Acho que hoje sou anarco-ecolô. Algo assim.

Não. Não agüento essa choradeira. Aquele filme “O Processo” era a mesma coisa. Parece que está todo mundo às cegas.

Professor  Haddad

Até o Lula. Ungiu o Haddad seu sucessor. Haddad é professor. Quando fala, parece um Alckmin de esquerda. O elitismo está na sua pele. Não vai superar isso. Eu gosto dele. Achei um ótimo prefeito. Não se reelegeu porque tentou legar ao povo paulista noções de vida civilizada. Paulistas e paulistanos apreciam a barbárie. Que fazer? Não. Ele será um deputado, um senador…

Moro e seus pés de barro

Dito isso, gostei bem de ver os pés de barro do Moro. Barro? Melhor dizer logo lama.

Nunca gostei dele. Couraça caracterológica bem como descreve Wilhelm Reich.

Mas, hoje, o que me escandaliza não é tanto a sujeirada processual que vai aparecendo a cada semana, no ritmo do Greenwald.

É sua incapacidade de usar o subjuntivo. Coisas como “ele a gente manter isso vai ser bom”.

No exemplo só o “manter” é original dele. A absoluta incapacidade de usar o subjuntivo.

Noutros tempos eu imaginava que os juízes seriam homens sábios. Os mais sábios entre a gente do Direito. Mas o Moro, tem dó, é um capiau daqueles. Quem leu o texto que ele escreveu no concurso? Ou concursos para juiz agora são por cruzinha? Ou, pior, os outros concorrentes eram mais ignorantes que ele.

E, quando resolve demonstrar cultura solta uma frase em latim.

Como dizia o Millor Fernandes: se queres enganar a ti mesmo, engana-te; aos outros é mais difícil.

Conheço esse latim. Meu tio Ary, velho advogado, tinha um Dicionário de Brocardos Jurídicos. Frases em latim para a ocasião certa.

É na mão de gente assim que estamos. Quer dizer, que está o Lula.

E há o Ciro solitário, o Boulos que ninguém escuta, a Tabata que o Ciro quer ver pelas costas, a Marina que há muito tempo está no além-túmulo.

E depois há o Bolsonaro produzindo factóides ridículos enquanto pelas costas vai desenhando o fascismo nosso de cada dia, o fanatismo tipo AS, as milícias tipo SS. E em vez dos judeus ele pretende chegar à solução final dos índios brasileiros, da floresta, do que der. É pulsão de morte em pessoa.

Chega. Me cansei de mim, dessas tolices, desabafos e tudo mais. Fazer algo que preste.

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O reverso da montanha

De Volta à Montanha de Gabriel

Eu gostava do “Gabriel e a Montanha” pela sua generosidade, até pela generosidade do personagem, que larga o que poderia ser uma boa vida aqui no Brasil para se aventurar pela África, para conhecer outros mundos. Gosto das conversas que ele mantém com as pessoas, aprecio sua curiosidade e a maneira como foi filmada.

Mas o Sergio Alpendre escreveu uma dessas coisas fantásticas que a crítica de tempos em tempos produz. Ele diz que gosta mesmo é do fato de a natureza ter se vingado do rapaz, em quem ele percebeu uma arrogância que me tinha passado despercebida. O jovem mimado queria, a rigor, vencer a montanha, estabelecer sua própria lei no lugar da natureza. Recusou todos os conselhos de prudência e foi em frente até se estrepar. É como se a montanha fosse.

Ora, Gabriel é a arrogância em pessoa. Ou melhor: é a arrogância brasileira em pessoa. É o sentimento de poder do rico brasileiro, que triunfa sempre contra qualquer coisa (inclusive a natureza, que estamos destruindo alegremente).

Mas o que mais gostei nessa história é que até aqui não tinha encontrado o elo entre o primeiro filme do Fellipe Barbosa”, “Casa Grande”, e “Gabriel”, e agora percebo como ambos tratam da queda da riqueza. No primeiro, o pai milionário (ou muito rico, ou abastado, dá no mesmo) entra em crise: a queda dele implica toda a transformação, mesmo que o menino já esteja propenso a aceitar um outro mundo.

No segundo, agora, o Alpendre me traz à consciência esse outro aspecto. Grande, Sergio Eduardo.

A notícia da morte do Rubens

A notícia da morte do Rubens (Ewald fº) é horrível, ainda que previsível.

Eu conheci com menos de 20 anos. Ambos éramos copydesks no Jornal da Tarde, naquela altura.

Em matéria de cinema desde então tivemos nossas divergências, ele pensava de um jeito, eu de outro. Mas, que importa?

Vou resumir: foi ele que me levou ao Candeias, que me introduziu ao cinema, a rigor. Ele já tinha esse carisma que depois ficou famoso via TV.

Mas o Rubinho sempre foi pessoa de uma lealdade sem fim. De uma afetividade ilimitada. Por isso a gente podia passar anos sem se ver e nem por isso perdia o prazer de se rever.

Eu gostava de ouvi-lo todo ano no Oscar. Para mim ele era o padrão do Oscar. Este ano ele foi tirado da cobertura, o que foi uma idiotice da TNT. O Oscar já é chato, sem Rubens ficou insuportável.

E temo que assim será para todo sempre.

Não poderei me despedir dele , no velório ou no enterro.

Estou escrevendo no dia 19, quando soube de seu falecimento. Viajo para Bolonha no dia 20.

Estarei saudoso.

Não sou de acreditar em Deus, mas, em todo caso: Que Deus o Tenha.

Eu queria falar de outra coisa…

Eu queria falar de outra coisa. Queria falar de um comentário do Sergio Alpendre sobre “Gabriel e a Montanha”, mas por hoje não dá.

As coisas que li ontem no “Intercept” me viraram o estômago. Não é que Moro tenha apenas dado um aconselhamento a um procurador, como apareceu no primeiro vazamento.

Agora fica muito claro que eles formavam um time. Um procurador chama o Moro de “caro”, só para começar.

Depois, em conjunto, o que é realmente espantoso, trocam idéias sobre como fazer para que o depoimento de Lula repercuta na imprensa de maneira a prejudicar o réu.

Já não dá para dizer que isso é um deslize, uma combinação ou algo assim.

Trata-se de uma óbvia conspiração.

Se ficasse só entre eles já seria horrível. Mas o mecanismo a essa altura deve estar espalhado por toda a Justiça.

Um horror. Uma coisa de virar o estômago.

Me senti tão mal que para esfriar a cabeça fui ver o jogo do Brasil. O que é ótimo para esfriar a cabeça e esfriar tudo mais, porque é uma chatice sem fim.

 

Parte 2

Me considero uma pessoa de esquerda, mas nunca fui petista. Gosto muito das políticas sociais que se desenvolveram no governo Lula, mas tendo a crer que sob seu governo, houve muita corrupção, sim.

Quando eu via o noticiário a respeito, os ladrões mais freqüentes eram caras do MDB, de uns outros partidos. Jogava-se a culpa toda no PT, o que é um tanto injusto. Mas parece verdade que para compor maioria o governo Lula fez qualquer coisa que pudesse ou não fazer.

Acompanhei um pouco do julgamento do Mensalão. Ao contrário do que acredita a maior parte dos petistas, me parece que Joaquim Barbosa foi um juiz arquijusto. Você pode discordar disso ou daquilo, mas não dizer que ele perseguiu alguém. Não fez isso.

Era um cara mau humorado, por causa das dores nas costas, mas isso é outra coisa.

Houve corrupção ali?  Houve. Mais do que nos governos passados? Francamente, não dá para saber. Mas havia um sistema (aliás, há) que favorece a corrupção. E o PT entrou nele, sim. Ele havia prometido acabar com isso, mas não acabou. As histórias de Marcos Valerio, os bilhões pagos a publicitários etc. não me parecem a melhor coisa do mundo.

Agora, também tem que ver quem corrompe quem.

Ficou dos julgamentos (desses de agora, não do mensalão) que os políticos corrompem a iniciativa privada, que fazem as empreiteiras se corromperem.

Ok. Acredita quem quiser. Em Papai Noel também acredita quem quiser.

 

Parte 3

Nem Papai Noel consegue acreditar no tal apartamento de Guarujá.

Caramba, então a Odebrecht, ou lá quem seja, para ganhar um contrato de bilhões, suborna um presidente da República de um país como o Brasil, com o tamanho e o peso que tem com um apartamento em Guarujá?

Se fosse um na Quinta Avenida, um na Champs Elisées, os dois de preferência, eu ainda poderia acreditar.

Mas, tenha dó, essa história de Guarujá não é questão nem de ser verdadeira, ela é francamente inverossímil.

 

Parte 4

Para terminar com essa história tão assustadora quanto repugnante.

Não é o caso de postular a santidade de Lula, não é isso.

Mas, claramente, ele foi condenado pelas suas virtudes e não pelos seus defeitos.

Ele foi condenado por coisas como cotas para desfavorecidos (sem humilhações do tipo provar que é pobre), negros em particular, desenvolvimento de universidades, ProUni, Bolsa Família, gente mais pobre freqüentando aeroporto, etc.

Ou, mais claramente, ele foi condenado para não poder voltar à presidência, o que muito provavelmente aconteceria.

 

E para terminar

Seria bom? Acho que não. Seria ruim Haddad se eleger? Acho que simplesmente não governaria. Haveria, no mínimo, uma conflagraçaão permanente.

O Brasil tinha que passar pela regressão fascista que está passando. Era o que ele queria, seja por acreditar na TV, seja porque foi lobotomizado desde 1968 (ah, o MEC-Usaid, única luta estudantil dos meus tempos que estava de fato certa), seja porque é muito frágil.

Tinha que passar por isso. Porque a ditadura daqui não foi a do Videla, que acabou com a Argentina por ódio ao comunismo.

Bolsonaro é o Videla. Gostaria de ser o Videla.

Os militares daquele tempo, Golbery, Geisel e tal, podiam ter seus defeitos, claro, mas tinham uma visão de país, de algo a fazer, um projeto.

Deu certo em algumas coisas, deu errado em outras.

Deixou um legado horrível, que podemos resumir pelo nome Bolsonaro.

Ou , agora, pelo nome Moro também.

É o horror – diria Joseph Conrad.

De Doria e Weintraub

De Doria

Uma coisa que me espanta na política brasileira: Doria.

Foi um prefeito desumano, certamente o mais desumano que já vi em São Paulo.

Foi um bolsonarista de primeira hora, porque com isso sabe que ganharia votos para se eleger governador. Eram os ventos que sopravam.

Agora, vai criando a imagem de direita civilizada, sem nada a ver com o show de ignorância do bolsonarismo, muito mais liberal do que repressivo.

É claro, vai tentando desde já botar por diante sua futura candidatura a presidente.

Não sei se a mudança é para comemorar ou para temer.

Conforme sopre o vento ele pode estender seu hábito de jogar água de madrugada nos sem-teto à escala nacional, tipo esse açougueiro que governa o Rio.

Ou pode ir para outro lado. Mas é mudança a registrar.

De Weintraub

Para o jornalismo investigativo:

Os colegas investigativos gastam tempo em algo que já ocupa polícia e tudo mais, como histórias do Queiroz.

Não podem se aprofundar em questões de milícia, por motivos óbvios.

Mas o que eu gostaria de saber é como o Weintraub tornou-se professor da Unifesp.

Normalmente, entra-se lá por concurso. Mas que concurso foi esse? Com quem ele concorria? Quem eram os examinadores que lhe deram vitória no concurso.

Afinal, hoje concursos em universidades federais são disputados por muita gente bem preparada.

Como pode ter sido escolhido um cara que, já ministro da Educação, nem ao menos tem o pudor de mandar um assessor conferir o seu português desvairado?

Aliás, nem se trata de investigar demais. Basta não ficar apenas no pobre Lattes de Weintraub. Acho que dando um pulo em Guarulhos, conversando com uns e outros, será possível achar coisas que, ao menos, satisfaçam a minha curiosidade.

Dois livros

Recebo dois livros que merecem toda consideração e de que ainda não dei notícia um pouco por falta de tempo, um pouco por depressão pelo estado geral da nação.

O primeiro é de Luiz Soares Junior, “De Forças e de Fantasmas – O Demoníaco no Cinema Clássico” (Ed. Cajuína).

Luiz Soares Junior sempre me impressionou pela generosidade com que traduz e publica textos clássicos sobre cinema na internet. São textos clássicos, que partilha com leitores dispostos a acompanhar discussões por vezes fabulosas sobre o nosso assunto favorito.

Seu livro já traz no título todo o programa de trabalho. O demoníaco, não apenas o demônio. É um pouco mais amplo.

Não o li inteiro e pretendo mantê-lo como um desses livros que você mantém à mão e vai lendo conforme o filme comentado (o essencial são comentários críticos sobre vários livros). Sua erudição por vezes me desnorteia e não consigo acompanhar o que ele pretende dizer, pois me perco entre referências que não raro ignoro ou de que me lembro apenas vagamente.

Mesmo nessas ocasiões vislumbro surpresas agradáveis, coisas em que nunca pensei ou que redescubro. Pois não se trata de demônios literais apenas, mas do demoníaco. De tal modo que de repente aparece um comentário sobre a personagem de Maria Casarès no “As Damas do Bois de Boulogne”, de Bresson.

Existe o terror literal, gênero, claro, que está presente. Mas lá estão também o “Rio Violento” do Kazan,   o “Ivan, o Terrível”, de Eisenstein e por aí a fora.

É um livro indispensável. Comprá-lo será, para muitos, apenas uma maneira de retribuir a incrível generosidade do ensaísta recifense.

“Filmes que Projetaram a Identidade Italiana no Cinema” (Ed. do Autor), de Luiz Chiozzotto, também diz a que vem logo no título.

Assim é melhor. O subtítulo é um problema e uma solução: 300 filmes e 100 cineastas, de Fellini a Sorrentino.

Trata-se de um vasto inventário de obras que, se bem entendi, abordam essencialmente esse período que começa no pós-Segunda Guerra: neo-realismo, comédia, faroeste spaghetti, cinema contemporâneo. Tudo isso está lá.

Não vi nada sobre a era fascista ou o cinema mudo, mas só porque também apenas tive tempo de passar os olhos. Não encontrei referência a cineastas como Raffaello Matarazzo ou Vittorio Cottafavi. Entre os filmes de Comencini não encontrei o que considero o mais belo, “L’Incompresso”.

Mas isso pode ser meio maníaco: Chiozzotto fixa-se em filmes que mudaram a percepção coletiva sobre a Itália e a italianidade. É bem mais do que nada.

Corpo crítico

Bacana, muito mesmo, a entrevista do Jean-Claude ao Mario Sergio Conti no único programa Globonews que destoa da Globonews.

Jean-Claude sempre foi um crítico e, mais que isso, um autocrítico. Gosta de botar tudo em questão, inclusive a si próprio.

Desta vez é aos procedimentos da medicina altamente especializada (e ligada a remédios e aparelhos caríssimos) que coloca em questão: por que submeter-se, pergunta, a um tratamento doloroso, com implicações seríssimas, no caso da recidiva de um câncer?

Seu ponto central: os operadores dessas máquinas sofisticadas não tratam o paciente, tratam a doença. O paciente é abstraído, já para não dizer suprimido, nessa operação.

Não se trata de um questionamento irresponsável. Ele diz que isso se refere exclusivamente ao seu caso. Não a todos. Ele suspendeu o tratamento mas não é, nem se considera, nem pode ser considerado um doente terminal.

Mas é interessante como JC repete aqui o mesmo método que durante toda a vida aplicou ao cinema: tudo é digno de ser questionado.

Não acho que isso funcione sempre. Cada vez que topo aqui em casa com sua antologia crítica, onde cada fase é mediada por uma autocrítica, penso que a melhor fase ainda é a primeira.

Poderia mencionar varias discordâncias, mas isso não vem ao caso: é meu gosto, minha impressão, algo assim. A atitude dele é o que importa. Sua integridade é que é exemplar: não engole nada por imposição, nem mesmo o Glauber. Nem mesmo ele.

JC é um corpo crítico por excelência.