Classe é Classe ou: David Lynch

A minha primeira sensação ao ver o novo Twin Peaks: classe é classe.

E série é série. Uma coisa agradável, que pode ter momentos de beleza (ah, como “Better Call Saul”  explora bem a paisagem – entre outras virtudes), por vezes uma diversão muito boa, mas é isso e nem tanto mais.

David Lynch é do departamento do gênio.

Já passei por três episódios, mas basta o primeiro: começa com Dale Cooper num sonho-inferno, num espaço incontrolável , habitado por fantasmas, ele próprio um fantasma.

Passaremos por Twin Peaks, onde um policial revira caixas e caixas em busca de algo perdido.

E estamos já não sei onde em companhia de um duplo de Dale Cooper, porém um duplo maléfico.

Por fim, em outro lugar, Dakota do Sul ou Carolina do Norte (a série tem isso: a sucessão de eventos vai apagando a memória de certas coisas. Aliás, sempre ocorre isso nos filmes de David Lynch, ao menos comigo), ocorre outro crime. Aparentemente dois outros crimes, pois alguém encontra a cabeça de um corpo acoplada a um corpo sem cabeça (o que lembra demais aqueles quadros do Francis Bacon). E um culpado que deixou impressões digitais por todo o quarto e talvez nem tenha estado lá.

Ah, sim, há Nova York, onde num galpão misterioso um rapaz observa uma câmera em cuja objetiva nada aparece. Exceto quando ele está lá com uma garota e fantasmas começam a invadir a tela e… Bem…

É isso.

Onde vai dar isso tudo? É imprevisível, claro, é sempre surpreendente, como o reaparecimento de Laura Palmer tanto tempo depois.

Mas acompanhar linearmente a história não é só impossível, como desnecessário.

É o que eu queria dizer logo de cara: quando batem os primeiros fotogramas na tela é perceptível que estamos num outro universo, num outro departamento. Há uma classe na observação e na ocultação das coisas, dos seres, dos fatos, que não se vê, que é original. E basta olhar, contemplar. É o que basta: está lá uma beleza invulgar, um encanto invulgar. Para mim tem sido um deleite total.

De volta. Um pouco…

Faz tempo que não publico um mísero post.

Ao menos é hora de me explicar aos amigos.

Do que eu gostaria de falar (já que não ganho um tostão com o blog)? Do cinema da Eliane Caffé, do muito belo “Era o Hotel Cambridge”.

Mas falar desse filme já é falar de política. E política é o que nos ocupa a todos, todo o tempo, já faz um montão.

E, como sabem os amigos, sou um antijornalista, um cara meio lento, que remói os acontecimentos, que espera até ver alguma solidez nas coisas.

E que solidez temos? Nenhuma. Me sinto como o cara que está no mar tentando não se afogar, mas, cada vez que levanta a cabeça, vê uma nova onda chegando.

Se fosse publicar cada pensamento que me ocorre, a cada momento, bem… Isso daria uma Comédia Humana em versão chanchada.

As coisas que penso, provavelmente imbecis, não vejo em nenhum lugar. Ainda assim resolvi que começo a falar delas, um pouco por vez.

Peço apenas um pouco de paciência com minha infinita incompreensão dos fatos. Em todo caso, prometo que os posts estarão de volta.

Paterson, Cambridge e outros

Antes, o verão – Making of

Devia estar falando aqui de “Era o Hotel Cambridge”, o belíssimo filme da Eliane Caffè. Até conversei com ela a respeito. Mas por ora fica dito isso: uma beleza de trabalho. Trabalho e pensamento.

Devia falar também de “Paterson”, que me parece a obra-prima de Jim Jarmush. Como se todo o cinema dele convergisse para ali. Obra-prima.

Ou do “Pitanga”. Não gostei do Pitanga, apesar do personagem. Não sei quem foi que filmou, mas não entendo que num filme em que haja a assinatura do Beto Brant haja também aquele plano do Barreto tomado de baixo e de perto.

Todo mundo sabe (ou saberá um dia) que o pior da velhice são esses pelos que irrompem indomáveis no nariz e nos ouvidos. Filmar o Barreto daquele jeito é feio para ele e feio para quem filma. Um horror.

Mas eu preciso falar aqui é do Gerson Tavares.

Ou antes: o que acontece com o Brasil?

Faz algum tempo, no CineOP, Rafael Luna apresentou um belo restauro dos filmes desse cineasta hoje desconhecido. Na guerra ideológica intracinematográfica ali dos 60/70 ele seria o anticinema novo, o anti-revolução (cubana ou de esquerda ou o que seja).

Ok.

O tempo passou. Temos restaurados belos filmes. As questões daquele tempo não interessam mais bulhufas (temos novas!!!).

Mas o que foi feito dessa descoberta formidável? Nada. Talvez uma tese universitária?

Pode ser. Mas por que não existe reconhecimento?

Por que não se faz um ciclo? Por que o CCBB não se dedica um pouco a isso, a tratar de nossa memória cinematográfica?

Ou o IMS? Já começa a ter estrutura e tem um diretor de cinema à frente da programação.

Às vezes fico espantado como na Europa e mesmo nos EUA se reverencia os artistas. Aqui, o cara na melhor das hipóteses é esquecido.

Junto com seus filmes, claro.

Ao mesmo tempo, que me desculpem amigos e colegas que gostaram tanto de “Martírio”, me parece que é preciso um pouco mais de rigor no juízo dos filmes.

Esquecer a causa, que aliás é urgente, necessária, imprescindível, e mirar um pouco a eficácia do trabalho.

Se Vincent Carelli é um etnólogo e seu trabalho vai nesse sentido, muito bem. Mas como cinema pode ter toda boa vontade do mundo. Não me vai.

Não sou adepto do rigorismo extremo, não. Mas enquanto a gente não distinguir as coisas, não sei… Acho que faz mais bem ao diretor dizer o que está errado (ou o que a gente acredita estar errado) do que o certo.

E também tenho a impressão de que acreditamos sempre que, falando bem das coisas, estaremos protegendo o cinema. É uma atitude um pouco messiânica, além de inútil.

Estive relendo as preciosas críticas de filmes brasileiros do Paulo Emilio no Jornal da Tarde (e mesmo na revista Argumento). Ele defendia o interesse do filme brasileiro acima de tudo. Encontrava interesse em muitas coisas que nos passariam em branco (ou a mim, pelo menos).

Mas não era condescendente, isso não.

Bom, perdão se não fui claro, mas estou sem tempo para até mesmo ser claro. Abraços gerais.

Ah, comprei o livro sobre Jean-Claude editado pela Abraccine. Pena que o Orlando achou que minha colaboração seria uma piada. Não era. Um dia tentarei falar de 24 horas ao lado do J.C. viajando ao Japão.

Adendo:

Leio o juiz Moro acusando a defesa de Lula de transformar o depoimento dele em evento político.

Mas não é?

Desventuras do digital

Não é a discordância com vários, admiráveis colegas que me força a escrever aqui, e sim a percepção de que, não fosse o digital, Carelli teria feito de “Martírio” um filme excelente.

O digital é excelente, mas tem propiciado um hábito pouco animador: o esticamento artificial dos filmes. Como o material é barato, torna-se fácil. Como é rico em vários aspectos, torna-se difícil cortá-lo.

Tenho vistos longas que dariam bons curtas. Vi filmes que, concebidos para ser curtas, tornaram-se longas.

“Martírio” poderia ser até mesmo um filme curtíssimo. O material de arquivo bastaria, aliás: aquele jovem índio desajeitado, vestido de terno, com uma senhora tipo 10 mais elegantes ao lado, resume nossa política indigenista.

Carlos Adriano faria o diabo, só com essa imagem.

Mas há também a fala dos índios. As circunstâncias, que remontam à Guerra do Paraguai, à interminável guerra, como bem lembraria o Rosemberg (“Guerra do Paraguay”).

Sim, a situação dos índios é um horror. Desses e de outros. Coincidência ou não, já vi diversos sobre o extermínio provocado pelo contato e, depois, pela expropriação de suas terras e de sua cultura.

Isso não me leva a acreditar que um filme ineficaz, repetitivo, se torne eficaz por isso.

Andrea Tonacci, que fez filmes belíssimos a respeito dos índios, com os índios, entre os índios, não fez nada disso.

Outro caso: o segmento de Marco Becchis para “Mundo Invisível”, em que mostra um grupo de índios com suas vestes clássicas em uma floresta. Mas à medida que se movem, percebemos que a floresta não é tão floresta assim, há sinais de civilização ali. Eles caminham um pouco mais, ruídos surgem mais claros… Breve sabemos que estão no Parque Trianon, na av. Paulista, em frente ao Masp.

Se continuasse um pouco, o filme poderia ter promovido o encontro entre esses índios e seu espelho: esses outros, esfarrapados, despossuídos, expropriados de suas culturas, que vivem à beira da estrada vendendo cacarecos.

Lembro desses momentos lancinantes porque eles também estão em “Martírio”. Mas o empenho em mostrar tudo, em lugar de montar, de cortar, de concentrar, parece fazer suas virtudes evaporarem.

Na minha visão, o amor à causa às vezes é tão grande que termina por arruinar o filme. Me parece que é o caso aqui.

 

Narradores e Narrativas

Humilhada e ofendida, a palavra “narrativa” tornou-se nos últimos meses uma variante eufemística de mentira.

Como se, com tal narrativa, fosse possível dizer qualquer coisa – e qualquer coisa tomaria o lugar do fato.

Digamos que hoje existem duas narrativas atravessando o real brasileiro. A questão: será o Estado que corrompe a iniciativa privada ou será a iniciativa privada que corrompe o Estado?

A primeira, inequívoca opção do juízo do Paraná, da Polícia Federal e da PGR iam para a primeira possibilidade.

Tanto que quem fez delação premiada não foram os políticos, foram os empresários.

Verdade que ali a questão era prender Lula, encontrar qualquer coisa contra ele, a sua esposa, os seus filhos, qualquer parente, amigo ou fundação.

Nesse sentido, só o Estado (ele fora presidente) corrompia.

Desculpe quem, de boa fé, entende que não é assim. Mas tome o noticiário devidamente vazado (pelos acusadores mesmo): era o apartamento que ele não comprou, o sítio que não era dele, o dinheiro que recebeu por uma conferência (ah, se a gente fosse ver cada um desses: lembra daquele ministro que fez 80% de inflação em um mês e depois virou um prestigioso palestrante?).

Passado o tempo, cumprido o primeiro objetivo, que era tirar o PT do poder, vem a delação da Odebrecht. Ela complica um pouco as coisas, porque, mais que as demais empreiteiras, era uma espécie de Estado dentro do Estado.

Não há partido, não há político de alguma relevância que não tenha entrado nas delações.

Passado o tempo, a delação da Odebrecht deixa a “narrativa” original (aquela desenvolvida por vários meios de comunicação), verdadeira? Será difícil saber. Quem vai atrás da verdade é a PF. A PF não pega nem contrabando de cigarro na fronteira do Paraguai…

Então surge a segunda “narrativa”. Talvez o Estado, os políticos, não sejam tão corruptos assim. Talvez a máquina de corrupção da Odebrecht (entenda-se: empreiteiras) é que corrompa o Estado.

Coisa de que se suspeitava desde os tempos de Jânio Quadros (ou alguém passa mais de dez anos sem fazer nada e vivendo de um dicionário feito no escuro e de que ninguém nunca viu a cara?). Suspeitava-se não, era uma certeza: mas não havia quem corresse atrás.

Pois bem: a “narrativa” deslocou-se.

Foi ao centro: nem cá nem lá.

Se for ao fundo de tudo, nosso salvador “juiz Moro”, mais nosso mentor “PGR”, se tornarão os Simão Bacamarte do século: não sobra nem Estado nem Iniciativa Privada.

Com mais Trump e aquele maluco coreano, que dizer?

O Assassinato de Beethoven

É coisa passada. Eu devia ter vindo aqui há dias e dias, mas não deu.

Ao mesmo tempo, não me sai da cabeça: a Nova Sinfonia interpretada pela Osesp foi um verdadeiro crime.

Não sou pessoa de ouvido apurado, não sigo os grandes intérpretes, nada disso.

Mas a Nona é óbvia até para um surdo funcional como eu.

Por isso o que faz algumas semanas eu escutei não parecia uma orquestra, muito menos uma que se toma por melhor da América do Sul e que tais.

Não sei como, foi muito aplaudido, mas estou certo de que não ouvi mal. Não mesmo. Houve momentos em que parecia uma bandinha do interior.

Não sei, não entendo. Os músicos são os mesmos de sempre.

Acho que a maestrina da Osesp, cujo nome me esqueço, não dá conta dela.

Mas com o público que frequenta a Sala São Paulo tem um prestígio louco.

Há outros esquecimentos, mas me esqueço deles agora.

Desculpem, estou com a cabeça repleta de coisas e no fim na hora de escrever elas me escapam.

Super-Heróis

Uma coisa que já há algum tempo me intriga é o retorno tão forte dos super-heróis.

Eles começaram a se impor no entreguerras, salvo erro, com o Superman à frente. Entende-se: havia a percepção de que um conflito de dimensões universais estava para acontecer.

Nada melhor do que um bom protetor vindo de kripton cheio de vigor.

Superman já tinha o elemento de identificação poderoso que até hoje consegue garanir a fidelidade dos fãs:  trata-se, na aparência, de um sujeito comum, que no momento certo se transforma.

É o que todos nós, comuns, gostaríamos de ser, sonhamos em ser: um sujeito frágil em aparência, mas secretamente fortíssimo.

Quem mais veio depois não fugiu ao figurino: Batman, Capitão América, Homem-Aranha, Punho de Ferro.  Pegue quem quiser.

Mas o que me intriga é por que a família Marvel e qualquer outra família retorna com tanta força. Eu entendia bem no tempo em que eu cresci. A Segunda Guerra já tinha passado, mas guerra fria ainda existia, e com ela a perspectiva de guerra. E por guerra entenda-se uma coisa de homens fortes, valentes, bravos, corajosos, heroicos, dispostos a morrer pela pátria.

Bem, hoje tudo isso não passa de  machismo, para começar. A guerra é uma coisa de armas à distância. E não há perspectiva desse tipo de guerra. São localizadas. São terroristas. É outra coisa.

Penso ter avançado um pouquinho na tentativa de entendimento. O super-herói de hoje, ou seu sucesso hoje, me parece que corresponde à re-religiosidade do mundo. Esse fenômeno dos últimos 20 ou 30 anos, que talvez se deva ao fim do comunismo. Na falta de uma religião laica, como o marxismo, voltamo-nos a uma religião mística mesmo.

Pode-se sempre pensar que existiu sempre uma enorme quantidade de anticomunistas ou de pessoas contra o comunismo. Acredito que, à parte os mais pios, poucas pessoas entregavam-se de fato a Deus. O materialismo, admita-se, triunfava.

Desde então cresceu enormemente a fé. Ou as fés: a católica, a evangélica, a muçulmana. Mesmo na religião judaica, que não é proselitista, a crença em uma integração, em uma superação das diferenças religiosas (ditas “de raça”)  perderam atualidade em favor de um judaísmo cada vez mais febrilmente religioso.

E o super-herói hoje é, me parece, bem isso: uma emanação de Deus. É dele a força que pode nos proteger do mal (atentados etc.) que habita o acaso e que é representada pelo super-herói. Ele é, talvez, uma espécie de prova da existência de Deus, como foram outrora os milagres.

Ele protege as crianças e as contamina com a crença de que também elas, filha de Deus, podem superar qualquer obstáculo. As crianças e as pessoas infantilizadas seriam, nesse caso, os grandes clientes dessa classe de protagonistas.

Não sei se é uma explicação boa. Ao menos é uma. Até agora há pouco não tinha nenhuma. Era um mistério total a adesão de tantos espectadores a esses filmes tão repetidos.