Críticas e autocríticas

foto: Leon Rodrigues/SECOM Prefeitura de S.Paulo

Vários amigos se espantaram por eu estar feliz com o novo prefeito de São Paulo.

Alguns perguntam quais as virtudes que eu vejo no neto do Covas.

Bem, a virtude essencial, insubstituível, é NÃO SER O DÓRIA.

Quanto ao mais, não sei nada dele.

Espero que seja bem melhor que o antecessor, o que não é difícil.

Ao mesmo tempo, temo que haja em relação a qualquer pessoa que não venha da esquerda, que não seja da esquerda a tendência a uma rejeição por princípio, como se não fosse possível alguém pensar diferente do que pensamos.

Esse sectarismo, concordo, partiu da direita.

Ela que estigmatizou Lula como “nove dedos”. Como se um operário ter o dedo decepado no trabalho fosse algo capaz de diminuí-lo (e não as condições infames de segurança do trabalho existentes no Brasil).

Ela que inventou o “vai pra Cuba”, aplicável a qualquer ciclista, é verdade, mas sobretudo uma maneira de negar a nacionalidade de pessoas que pensam diferentes dela.

Ela que se apropriou da bandeira e do hino.

E, claro, não faltam ali as hienas a entoar um “Marielle vive” entre risos de quem imagina mortas as ideias da assassinada.

Pois bem: acho que com essa gente não tem papo mesmo. Não há como conversar com fascistas.

E se não existe hipótese de convencimento, porque são puros retardados, não há o que falar.

Se, em compensação, toda hipótese de diálogo for cortada, se cada um ficar em seu canto ruminando suas verdades com os amigos de facebook, bem…

Aí eu acho que não tem jeito.

Em São Paulo, por exemplo, as ruas estão caindo aos pedaços. E o que faz o Dória? Manda asfaltar o que está ok, só porque ali tem mais carros andando.

E quando um edifício se incendeia e cai, o que diz esse inominável? Que aquilo era habitado por marginais.

E se fosse?

Então, com gente dessa espécie não há conversa possível, são uma sub-humanidade.

Mas com pessoas razoáveis, que argumentam, que defendem, sei lá, que o neoliberalismo ou coisa parecida pode ser uma solução melhor do que qualquer outra, bem, eu conversaria sim.

Por isso, em relação ao novo prefeito, o que posso dizer, pessoalmente, é: não sei nada sobre ele.

Mas espero que faça os faróis de trânsito funcionarem, que ao menos volte a funcionar aquela operação tapa-buraco, que os parques voltem a ser asseados como já foram.

E, sobretudo, que a concorrência dos ônibus seja benéfica para a população mais pobre.

Se essas coisas acontecerem, não vejo porque ficar contra ele, a menos que exista alguma coisa que desconheço. Aí é outra história.

Enfim, é isso que, mal ou bem, penso dessa política doméstica.

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A Tragédia Urbana

Foto Paulo Pinto/FotosPublicas

Não faz nem dois meses que o repulsivo Doria deixou a prefeitura.

Um prédio inteiro, enorme, caiu. As falhas de controle sobre o prédio são obviamente municipais e, sobretudo, incidem sobre o período do inominável ex-prefeito.

Morrem inúmeras pessoas.

Pois bem, o que ele tem a dizer sobre tal tragédia?

Que o prédio era habitado por criminosos.

O que significa:

Se morreu está bem morrido. Azare-se.

Não consigo perceber nessa figura nenhum sinal de solidariedade, de fraternidade, ou, vamos resumir logo, de humanidade nesse tipo infecto.

Eu falei bem outro dia do jovem Covas. Bem, duas ou três atitudes dele me fazem desde já me retrair e retirar o elogio.

Vamos esperar para ver onde vai dar isso.

Mas, claro, nem de longe é comparável ao seu antecessor.

Sai, Dória, sai

(foto: Suamy Beydoun/ Estadão Conteúdo)

Alguma vantagem haverá, ao menos para nós daqui da capital, em o Dória se candidatar a governador.

Coisas muito simples: por exemplo, voltou a existir a OperaçãoTapa-Buraco. Nada transcendental, mas um buracão quase incontornável que tinha ali perto do Hospital Samaritano, perto da esquina com av. Higienópolis, foi coberto.

Parece inacreditável. Eu já começava a acreditar que aquilo seria eterno, que duraria até que um carro se afundasse ali.

Outra bola dentro do jovem Covas (filho ou sobrinho ou neto do Mario Covas): parou aquela licitação troglodita que o Dória queria fazer e que de cara iria eliminar milhares de empregos de motoristas de ônibus, sem falar que a vida dos pobres ia ficar ainda mais sacrificada, o que era uma espécie de bandeira do , ufa, ex-prefeito.

Os cobradores

Espero que a nova licitação não elimine os cobradores de ônibus.

Há séculos se fala nisso, que na Europa é assim, que nos EUA é assado… Etc.

Só que aqui o papo é outro. A população é indefesa. Não sabe onde desce, não sabe se tomou o ônibus certo, as linhas são confusas, a capacidade de leitura muito relativa, etc.

Então o cobrador é uma espécie de amigo que a gente tem no ônibus.

Enfim, como aqui é pra palpitar mesmo eu defendo os cobradores e cobradoras do Brasil.

 

“Arábia”, minha vergonha

Aristides de Sousa como Cristiano em Arábia, de Affonso Uchoa e João Dumans (Embaúba Filmes/Divulgação)

Para que fazer bons filmes se eles nem têm lugar para ser exibidos?

“Arábia” se chegar a 5 ou 6 mil espectadores estará muito bem, muito feliz.

Não há Concine, nem congresso, nem presidente, nem ninguém que garanta uma cota de tela decente para que os filmes de outra natureza que não comédias sejam exibidos.

Com isso, o espaço publicitário, a verba de lançamento (de distribuição), a divulgação, tudo míngua.

O cinema se torna uma questão de prestígios, de licitações, de burocracia, porém o público fica decididamente fora de tudo.

Acho muito bom que existam algumas produções populares bastante decentes. Não são o suficiente.

O cinema existe para nos tornar melhores. “Arábia” faz isso. Eu admito que muita gente prefira chafurdar nas águas da pura política, essas coisas…

No Brasil, a gente adora política muito mais que cinema. É compreensível, até.

Mas, caramba, isso deixa a gente muito, muito pra trás.

Foi vergonhoso no ano passado ver que “Gabriel e a Montanha”, afinal um filme brasileiro, teve muito mais público (não falo nem de repercussão ) na França (nem falo de Europa, nada) do que no Brasil.

Temo que o mesmo aconteça com “As Boas Maneiras”.

É desanimador. Não como cinema, mas como nação mesmo.

(Independente do resto, que é resto mesmo).

O visível e o invisível 5

MALDITA FILOSOFIA

Após três anos de implantação do estudo de filosofia e sociologia no curso secundário, uma pesquisa do Ipea constata que ela trouxe atrasos na percepção da matemática pelos alunos, com relativo retrocesso.

Não duvido de que isso tenha acontecido. Nem de que a implantação dessas disciplinas tenha favorecido a melhor capacidade de interpretação de textos, porém…

Três anos não são rigorosamente base para nada. Está na cara.

Se tomarmos uma década, período em que talvez os alunos possam entender melhor a que vem uma disciplina como filosofia, há muito banida do currículo. Então se poderá esboçar uma comparação.

Talvez, então, seja possível perceber que essas disciplinas se completam em vez de se excluírem.

E que o entendimento do mundo e o entendimento dos números não são coisas contraditórias.

Embora seja um instituto sério, o Ipea sofre necessariamente do viés “praticista” imposto a nossos estudos desde o MEC-Usaid pelo menos.

E isso produziu, na prática, técnicos tecnocráticos, incapazes de ver outra coisa diante de seus olhos que não números: como na pesquisa em questão.

Esses técnicos não constatam um retrocesso. Eles são produto de um retrocesso anterior, analisando uma decisão capaz de levar os alunos à frente.

O visível e o invisível 4

O PROGRAMA

Um outro raro momento de interesse de “O Processo”: o senador paranaense Requião começa a enumerar o que seria o programa do futuro governo Temer.

Temer nunca se abriu sobre isso, ou só o fez tão discretamente que ninguém se incomodou com isso.

Ali está documentada a liquidação de bens nacionais, de petróleo a reserva aquática, tudo que possa ser liquidado. Liquidado no sentido de “sale”, para usar a linguagem mais recente das liquidações

Outro ponto: isso que genericamente se denomina “as reformas”, sem nunca se dizer do que se trata.

A instituição do semiescravagismo, entre elas.

Me pergunto como bobagens passam ao primeiro plano com tanta facilidade e como o que é importante se torna oculto.

O visível e o invisível 3

NOSSAS CORES

Na colação de grau do meu filho, na Unesp, ouço o Hino Nacional.

Como a acústica é boa (escola de música, tal seria…) aquilo me parece afinal bonito, apesar da excessiva exaltação de grandezas potenciais e heroísmos imaginários, própria de hinos de países latino-americanos.

Ao ouvi-lo pensei no Brasil como uma nação inteira, feita de gente distinta, mas uma. Deve ser meio antigo, uma coisa meio nacionalista (algo que eu nem sou).

O que eu quero dizer é que, com todos os defeitos, meus, do Brasil e do hino, me senti representado por ele.

E penso que deveríamos pensar em termos de unidade nas diferenças, se, intolerâncias infinitas.

A direita, me parece, apossou-se de certos símbolos nacionais, seja o verde-amarelo da seleção (e da bandeira), seja o hino nacional e tudo mais.

Não fez certo. Seria como expulsar metade do país do direito à nacionalidade. É aquele “vai pra Cuba” deplorável que certos donos de automóvel lançam contra… gente de bicicleta.

E a esquerda aceitou isso passivamente. Vestiu-se de vermelho, como nos tempos de Stalin, como se devesse mesmo assumir os ideais comunistas que outros lhe atribuem (claro, ainda existem alguns stalinistas entre nós, mas não tantos assim).

Acho que em vez de entregar “a nacionalidade” de bandeja para a direita acho que seria muito mais lúcido cantar o hino nacional ainda mais forte e se vestir do mesmo verde-amarelo, porque tem o mesmo direito, porque pertence ao mesmo país e porque torce para a mesma seleção.

Excluir-se disso é, penso, excluir-se de signos nacionais.

É o que permite à direita agredir e matar pessoas sem mais nem aquela. Afinal, são “outros”, agredíveis, matáveis.