Desventuras do digital

Não é a discordância com vários, admiráveis colegas que me força a escrever aqui, e sim a percepção de que, não fosse o digital, Carelli teria feito de “Martírio” um filme excelente.

O digital é excelente, mas tem propiciado um hábito pouco animador: o esticamento artificial dos filmes. Como o material é barato, torna-se fácil. Como é rico em vários aspectos, torna-se difícil cortá-lo.

Tenho vistos longas que dariam bons curtas. Vi filmes que, concebidos para ser curtas, tornaram-se longas.

“Martírio” poderia ser até mesmo um filme curtíssimo. O material de arquivo bastaria, aliás: aquele jovem índio desajeitado, vestido de terno, com uma senhora tipo 10 mais elegantes ao lado, resume nossa política indigenista.

Carlos Adriano faria o diabo, só com essa imagem.

Mas há também a fala dos índios. As circunstâncias, que remontam à Guerra do Paraguai, à interminável guerra, como bem lembraria o Rosemberg (“Guerra do Paraguay”).

Sim, a situação dos índios é um horror. Desses e de outros. Coincidência ou não, já vi diversos sobre o extermínio provocado pelo contato e, depois, pela expropriação de suas terras e de sua cultura.

Isso não me leva a acreditar que um filme ineficaz, repetitivo, se torne eficaz por isso.

Andrea Tonacci, que fez filmes belíssimos a respeito dos índios, com os índios, entre os índios, não fez nada disso.

Outro caso: o segmento de Marco Becchis para “Mundo Invisível”, em que mostra um grupo de índios com suas vestes clássicas em uma floresta. Mas à medida que se movem, percebemos que a floresta não é tão floresta assim, há sinais de civilização ali. Eles caminham um pouco mais, ruídos surgem mais claros… Breve sabemos que estão no Parque Trianon, na av. Paulista, em frente ao Masp.

Se continuasse um pouco, o filme poderia ter promovido o encontro entre esses índios e seu espelho: esses outros, esfarrapados, despossuídos, expropriados de suas culturas, que vivem à beira da estrada vendendo cacarecos.

Lembro desses momentos lancinantes porque eles também estão em “Martírio”. Mas o empenho em mostrar tudo, em lugar de montar, de cortar, de concentrar, parece fazer suas virtudes evaporarem.

Na minha visão, o amor à causa às vezes é tão grande que termina por arruinar o filme. Me parece que é o caso aqui.

 

Narradores e Narrativas

Humilhada e ofendida, a palavra “narrativa” tornou-se nos últimos meses uma variante eufemística de mentira.

Como se, com tal narrativa, fosse possível dizer qualquer coisa – e qualquer coisa tomaria o lugar do fato.

Digamos que hoje existem duas narrativas atravessando o real brasileiro. A questão: será o Estado que corrompe a iniciativa privada ou será a iniciativa privada que corrompe o Estado?

A primeira, inequívoca opção do juízo do Paraná, da Polícia Federal e da PGR iam para a primeira possibilidade.

Tanto que quem fez delação premiada não foram os políticos, foram os empresários.

Verdade que ali a questão era prender Lula, encontrar qualquer coisa contra ele, a sua esposa, os seus filhos, qualquer parente, amigo ou fundação.

Nesse sentido, só o Estado (ele fora presidente) corrompia.

Desculpe quem, de boa fé, entende que não é assim. Mas tome o noticiário devidamente vazado (pelos acusadores mesmo): era o apartamento que ele não comprou, o sítio que não era dele, o dinheiro que recebeu por uma conferência (ah, se a gente fosse ver cada um desses: lembra daquele ministro que fez 80% de inflação em um mês e depois virou um prestigioso palestrante?).

Passado o tempo, cumprido o primeiro objetivo, que era tirar o PT do poder, vem a delação da Odebrecht. Ela complica um pouco as coisas, porque, mais que as demais empreiteiras, era uma espécie de Estado dentro do Estado.

Não há partido, não há político de alguma relevância que não tenha entrado nas delações.

Passado o tempo, a delação da Odebrecht deixa a “narrativa” original (aquela desenvolvida por vários meios de comunicação), verdadeira? Será difícil saber. Quem vai atrás da verdade é a PF. A PF não pega nem contrabando de cigarro na fronteira do Paraguai…

Então surge a segunda “narrativa”. Talvez o Estado, os políticos, não sejam tão corruptos assim. Talvez a máquina de corrupção da Odebrecht (entenda-se: empreiteiras) é que corrompa o Estado.

Coisa de que se suspeitava desde os tempos de Jânio Quadros (ou alguém passa mais de dez anos sem fazer nada e vivendo de um dicionário feito no escuro e de que ninguém nunca viu a cara?). Suspeitava-se não, era uma certeza: mas não havia quem corresse atrás.

Pois bem: a “narrativa” deslocou-se.

Foi ao centro: nem cá nem lá.

Se for ao fundo de tudo, nosso salvador “juiz Moro”, mais nosso mentor “PGR”, se tornarão os Simão Bacamarte do século: não sobra nem Estado nem Iniciativa Privada.

Com mais Trump e aquele maluco coreano, que dizer?

O Assassinato de Beethoven

É coisa passada. Eu devia ter vindo aqui há dias e dias, mas não deu.

Ao mesmo tempo, não me sai da cabeça: a Nova Sinfonia interpretada pela Osesp foi um verdadeiro crime.

Não sou pessoa de ouvido apurado, não sigo os grandes intérpretes, nada disso.

Mas a Nona é óbvia até para um surdo funcional como eu.

Por isso o que faz algumas semanas eu escutei não parecia uma orquestra, muito menos uma que se toma por melhor da América do Sul e que tais.

Não sei como, foi muito aplaudido, mas estou certo de que não ouvi mal. Não mesmo. Houve momentos em que parecia uma bandinha do interior.

Não sei, não entendo. Os músicos são os mesmos de sempre.

Acho que a maestrina da Osesp, cujo nome me esqueço, não dá conta dela.

Mas com o público que frequenta a Sala São Paulo tem um prestígio louco.

Há outros esquecimentos, mas me esqueço deles agora.

Desculpem, estou com a cabeça repleta de coisas e no fim na hora de escrever elas me escapam.

Super-Heróis

Uma coisa que já há algum tempo me intriga é o retorno tão forte dos super-heróis.

Eles começaram a se impor no entreguerras, salvo erro, com o Superman à frente. Entende-se: havia a percepção de que um conflito de dimensões universais estava para acontecer.

Nada melhor do que um bom protetor vindo de kripton cheio de vigor.

Superman já tinha o elemento de identificação poderoso que até hoje consegue garanir a fidelidade dos fãs:  trata-se, na aparência, de um sujeito comum, que no momento certo se transforma.

É o que todos nós, comuns, gostaríamos de ser, sonhamos em ser: um sujeito frágil em aparência, mas secretamente fortíssimo.

Quem mais veio depois não fugiu ao figurino: Batman, Capitão América, Homem-Aranha, Punho de Ferro.  Pegue quem quiser.

Mas o que me intriga é por que a família Marvel e qualquer outra família retorna com tanta força. Eu entendia bem no tempo em que eu cresci. A Segunda Guerra já tinha passado, mas guerra fria ainda existia, e com ela a perspectiva de guerra. E por guerra entenda-se uma coisa de homens fortes, valentes, bravos, corajosos, heroicos, dispostos a morrer pela pátria.

Bem, hoje tudo isso não passa de  machismo, para começar. A guerra é uma coisa de armas à distância. E não há perspectiva desse tipo de guerra. São localizadas. São terroristas. É outra coisa.

Penso ter avançado um pouquinho na tentativa de entendimento. O super-herói de hoje, ou seu sucesso hoje, me parece que corresponde à re-religiosidade do mundo. Esse fenômeno dos últimos 20 ou 30 anos, que talvez se deva ao fim do comunismo. Na falta de uma religião laica, como o marxismo, voltamo-nos a uma religião mística mesmo.

Pode-se sempre pensar que existiu sempre uma enorme quantidade de anticomunistas ou de pessoas contra o comunismo. Acredito que, à parte os mais pios, poucas pessoas entregavam-se de fato a Deus. O materialismo, admita-se, triunfava.

Desde então cresceu enormemente a fé. Ou as fés: a católica, a evangélica, a muçulmana. Mesmo na religião judaica, que não é proselitista, a crença em uma integração, em uma superação das diferenças religiosas (ditas “de raça”)  perderam atualidade em favor de um judaísmo cada vez mais febrilmente religioso.

E o super-herói hoje é, me parece, bem isso: uma emanação de Deus. É dele a força que pode nos proteger do mal (atentados etc.) que habita o acaso e que é representada pelo super-herói. Ele é, talvez, uma espécie de prova da existência de Deus, como foram outrora os milagres.

Ele protege as crianças e as contamina com a crença de que também elas, filha de Deus, podem superar qualquer obstáculo. As crianças e as pessoas infantilizadas seriam, nesse caso, os grandes clientes dessa classe de protagonistas.

Não sei se é uma explicação boa. Ao menos é uma. Até agora há pouco não tinha nenhuma. Era um mistério total a adesão de tantos espectadores a esses filmes tão repetidos.

Tiradentes de novo

Às vezes eu adoro, às vezes eu detesto os filmes do Festival de Tiradentes. Mas eles são únicos, assim como é o festival. Não são os filmes que vemos habitualmente em cartaz. Decorrem, não raro, da revolução do digital e da possibilidade de fazer filmes em conta.

Com isso, digamos que ali existe originalidade, desejo, expressão. Eles podem ter defeitos, insuficiências, eventualmente ingenuidade, mas nunca são insignificantes, nunca são motivados pela aspiração ao sucesso, ambição desmedida ou coisa assim.

Tudo isso para dizer que vale muito a pena dar uma passada no CineSesc a partir do dia 23.

Ali vamos para ver o que não vemos habitualmente.

Não posso falar nada sobre o filme que ganhou a mostra, “Baronesa”, porque não vi. Mas vi “Guerra do Paraguay”, que é talvez o filme mais maduro, mais completo do Luiz Rosemberg, e um formidável achado, que é “Histórias que Nosso Cinema Não Contava”, de Fernanda Pessoa.

A retrospectiva dedicada a Helena Ignez traz filmes de Rogerio Sganzerla em que ela trabalhou como atriz, mas, sobretudo, os que dirigiu. Eu gosto em especial de “Ralé”.

Também quero conferir o filme do Thiago Mendonça, que tem ótimos curtas.

Enfim, há coisas interessantes.

Tem filmes de que não gosto, e não sei o que há com o cinema do Frederico Machado, cada vez mais fechado, sorumbático, metafísico, menos dotado daquela luz de seu primeiro filme. Mas é um trabalho muito digno de respeito. Digno demais, até. Não tem aquele lado popular, vadio, do cinema, que eu prezo tanto.

Enfim, uma mostra para frequentar e boa para depois sair e conversar.

IV Oficina de Crítica Cinematográfica

de 5 de abril a 24 de maio

com Inácio Araujo e Sergio Alpendre

no

Espaço Itaú Augusta de Cinema (Anexo)

R. Augusta, 1470

Objetivo: desenvolvimento do espírito crítico, formação de novos críticos.

Em oito encontros, esta oficina pretende proporcionar ao aluno o desenvolvimento do espírito crítico e a capacidade de se relacionar com os filmes.

A oficina é totalmente voltada para a prática, seja de forma escrita, seja de forma oral.

Serão exibidos trechos de diversos filmes, e haverá também leitura de textos importantes da crítica de diversas épocas.

Alguns temas a serem abordados nos encontros:

  • O que é cinema? Sua função como arte. Em que seu aparecimento afeta o conjunto das artes.
  • Crítica: o que significa? A crítica no jornal, na internet, nas revistas especializadas.
  • O que é um filme clássico? Critérios clássicos do juízo cinematográfico.
  • O que é um filme moderno? A ruptura do juízo clássico.
  • Questões contemporâneas, no cinema brasileiro e no cinema mundial.
  • Alguns autores abordados: Clement Greenberg, Elie Faure, Jose Ortega Y Gasset, Leon Tolstoi, Jorge Luis Borges, André Bazin, Eric Rohmer, Jean Douchet, Jacques Rivette, François Truffaut, Noël Simsolo, Jairo Ferreira, Rogério Sganzerla.

Encontros:

Quartas-feiras, de 5 de abril a 24 de maio, das 19h30 às 22h.

Valores:

R$ 570,00 (pagamento integral);

R$ 640,00 (1ª parcela no ato da inscrição; 2ª parcela até a 4ª aula).

Informações e Inscrições:                

Fones: 3825-8141

Email: cinegrafia@uol.com.br

Estado de civilização

Ah, eu falei demais nesses últimos posts, mas esqueci uma parte.

Não foi só o trabalho, nem as operações, nem Tiradentes.

Não só. Foi uma espécie de desânimo geral, com a política daqui, com a infantilidade do prefeito, a truculência do governador, o vingativismo do governo federal, o cretinismo dirigindo nada menos que os EUA…

Caramba: como me culpar por estar meio deprimido!

Mas acho que o que mais contou foi o ministro da Educação. Dizer que “Haverão mudanças no Enem” não é uma coisa humilhante para o governo, mas para o país, para cada um de nós e para mim pessoalmente.

Senti muito esse golpe. Não ri do cara. Devia, mas não consegui. Tudo que consegui foi um sorriso melancólico.