Outros costumes

Outro dia deixei aqui o ponto de vista de que o essencial para a vitória de Bolsonaro foram os costumes.

O mundo contemporâneo, muito complexo em matéria de sexualidade, tende a deixar muitas pessoas perplexas, e convém compreender isso. Antes havia o azul e o rosa. Meninos e meninas. Hoje temos eles, mais os gays masculinos, os gays femininos, os travestis, os transgêneros, pessoas que nascem com o sexo trocado e operações capazes de reverter os sexos etc.

Pode haver algum atraso, mas não haverá retorno nisso, porque são transformações científicas. Antes não se podia mudar sexo ninguém. Hoje essa hipótese existe tanto quanto se pode operar um gordo e emagrecê-lo, ou transplantar um coração.

Há uma outra mudança na área dos costumes, que Bolsonaro candidato prometeu e parece tendente a cumprir: não lotear cargos de governo entre partidos. Entre uma ideia tresloucada e outra, o novo presidente vai cumprindo o que prometeu. Há uma quantidade enorme de leigos e, sobretudo, militares no novo poder.

Os políticos no primeiro momento estão alijados do poder político. E não era isso, em termos de costumes políticos que a população tanto pedia? Não era isso que se esperava do PT desde que chegara ao poder? Não será essa a razão de uma enorme decepção com o partido de Lula?

Assim, lá estão generais, coronéis, astronautas.  Não importa o que vai acontecer: para a população que votou em outros tempos no PT e agora o trocou por Bolsonaro trata-se de um desejo satisfeito.

É enorme a quantidade de pessoas para quem a aspiração à “law and order” ou à ordem e progresso é premente. A promessa de tirar os políticos fora do jogo do poder imediato ou de controlar a ordem pública mais severamente satisfaz a esses cidadãos. Se vai funcionar ou não é outra história e diz respeito a satisfações ou insatisfações futuras.

Importa que, quando o novo governador do Rio anuncia que vai atirar na cabeça dos suspeitos as pessoas pensam que será sempre na cabeça dos outros. Que haverá governo que governe, que evite a corrupção, essas coisas.

Isso pode ser um jogo de aparências, pode ceder num segundo momento, tudo isso. Por ora, a esquerda é que vai pagar o pato de tudo que tem de secularmente errado no país, por não ter cumprido coisas essenciais que prometeu (fim da corrupção é o que se pode usar para resumir o espírito da coisa).

O problema dos usos e costumes vai para vários lados. Minha impressão de desanalista político é de que a maior parte da população votou sabendo muito bem o que fazia, em termos de desejos e ansiedades. Se o tiro sairá pela culatra, se atingirá o governo ou o país inteiro, é outra história.

Outra, porém a mesma. Os perigos são óbvios, todos sabemos quais são.

P.S – Como dá para perceber eis minha primeira promessa descumprida de novo governo: continuo a palpitar por aqui.

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Para acabar… – de novo

Antes, porém, de entrar no Clube Silêncio, queria partilhar algumas coisas que me ocorreram sobre essas insanas eleições.

Embora se fale todo o tempo de política, tenho a impressão de que política será a coisa menos decisiva em tudo isso.

O que as pessoas querem é outra coisa.

Vivemos em um mundo extremamente confuso.

Antes havia homens e mulheres. Havia também os afeminados, mas eram devidamente discriminados.

Ora, o que existe agora é outra coisa:

Há gays, travestis, mulher que nasce homem, homem que nasce mulher…

Até homens e mulheres, simplesmente, existem.

Então, a ideia de Bolsonaro simplifica tudo: um pai não quer ver o filho brincando de boneca.

Pessoalmente, acho isso uma besteira sem fim, até porque, em criança, eu tinha várias bonecas e isso não teve nada, mas literalmente nada, a ver com minhas preferências sexuais.

Ao contrário, eu brincava com as bonecas porque queria ser pai, como o meu pai.

Mas tenho a impressão de que a maior parte das pessoas partilha da crença do Bolsonaro, quer dizer, acha que Deus nos fez homens e mulheres. O resto quem inventou foi o Lula.

Então é nessa arena, a dos costumes, que as coisas vão se decidir, me parece.

Da mesma forma, a Evolução.

É muito confusa essa história de começar macaco e acabar homem.

Mais vale alguém dizendo que Deus fez Adão e Eva e pau na máquina.

Essas coisas é que definem o sentimento das pessoas.

São usadas pelo bolsonarismo?

Certamente. O bolsonarismo até aqui é goebbeliano.

O tão discutido discurso de domingo é a cara exata do que será o próximo governo, quer dizer, o candidato se sentiu eleito e tirou aquela retórica mansa do caminho. Foi, me parece, absolutamente sincero.

Se, eleito, será isso mesmo, a menos que os militares decidam conter a ele e seus seguidores mais fiéis

Eu me pergunto é se esses militares que estão com o Coiso representam alguma coisa no Exército. Eles são semiletrados e semi mais ou menos tudo.

E os outros? São isso também?

Se forem, vamos mal.

Se tudo der certo, seremos guiados, na presidência do Coiso, pelo senso comum.

Caso contrário haverá uma mistura de senso comum com espírito sanguinário.

Bobagem dizer que ele é fascista. O domingo mostrou que o modelo é Hitler mesmo.

Já tem até seus judeus: os “vermelhos”.

E, depois de tudo,

Por que pensar, afinal, se Deus já pensou por nós?

A lógica é meio essa.

Para resumir: a razão está levando de lavada.

E tem razão quem diz que, ganhando Haddad, o país fica ingovernável.

Quer dizer: não há saída.

Para acabar com o blog

Não é por causa de Bolsonaro ou coisa parecida.

Eu mesmo olho aqui há quanto tempo não mando nada.

Acho que essa conversa, esse tipo de conversa, não faz mais sentido.

Apenas como adiós vou levar adiante uma ou duas ideias que tenho vontade de partilhar com os amigos.

No “Enfim, o Cinema”, um filme do Jérome Prieur que se pode encontrar no Youtube, existe um homem na Torre Eiffel envolto em umas curiosas asas, disposto a voar.

Digamos que é um precursor da asa delta.

Mas, claramente, não tinha conhecimento nem técnica para fazer seu voo.

O resultado, muito doloroso, é um salto no vazio.

Digo isso porque a imagem do homem não me sai da cabeça quando penso no Brasil.

É isso que vamos fazer: um salto no vazio.

Vejo com satisfação esses que lutam voto a voto, tentam convencer outros de que votar Bolsonaro é uma loucura, mas…

Mas o problema é que o imaginário da maior parte da população está todo investido nisso, enquanto o PT, como o PSDB antes dele, não tem mais nada concreto a nos dizer. Nada de novo, enfim.

Haddad não nos faz sonhar.

Bolsonaro faz um monte de gente sonhar.

Eu vejo apenas um salto no vazio.

Vejo a profecia de Plínio Marcos (ou Nelson Rodrigues, ou ambos) se realizar: o futuro será dos idiotas, porque eles são maioria.

E os idiotas não querem mais intermediários. Querem um tonto que nem eles.

Bolsonaro mal articula.

É uma espécie de chofer de táxi com uma enorme audiência, falando aquelas coisas estúpidas que nascem na cabeça dos taxistas e que eles generosamente partilham com seus passageiros.

E isso não me deixa ilusões: seremos governados por um grupo de broncos investidos da crença de que toda cultura, todo conhecimento de que se necessita é o que vem do senso comum.

Nada de ciências (sobretudo as sociais).

Nada de museus (‘pegou fogo, pegou, que que eu posso fazer?” – frase definitiva sobre o incêndio do Museu Nacional).

Nada de nada que represente civilização.

Entramos na era da não palavra (exceto a Palavra Divina) e, em termos domésticos, continuamos a viver em torno daqueles mesmos fantasmas erótico-religiosos-autoritários de séculos passados.

Por isso também resolvi que chega.

Mas para que seja uma longa despedida quero falar do delegado e da moça que foi marcada por uma milícia camisa preta.

Na próxima vez que eu tiver uns minutos livres.

Geraldo Veloso – 1944-2018

Veloso no acervo do CEC em 2015 (foto: Marcos Vieira/EM/D.APress)

Uma das alegrias que tinha ao ir a Belo Horizonte era a certeza de que encontraria o Geraldo Veloso.

Não só ele. O time de veteranos do CEC está sempre por lá, na sala Humberto Mauro e sempre há o que aprender com eles.

Mas o Geraldo era especial. Um cara com o humor dele não podia morrer. É horrível.

No facebook era o melhor comentarista, o mais informativo.

As postagens do João Carlos Rodrigues sempre saíam mais ricas depois que ele intervinha.

Bem, Geraldo Veloso fez uma carreira marginal no cinema marginal do mais marginal dos cinemas, que é o brasileiro.

Nunca o vi reclamar por isso, demonstrar nenhum tipo de ressentimento. Em troca, desenvolveu essas artes bem mineiras, da amizade e da conversa.

Não parecia precisar se afirmar sobre o mundo para ser. Era bem mineiro nisso também.

Acabou que nunca vi nem em vídeo nem em nada o Perdidos e Malditos.

Vai fazer uma falta danada em Minas.

O Analista Político

Como todo mundo tem direito a falar suas besteiras sobre assuntos políticos, lá vou de novo, com eleições chegando.

Penso em Ciro Gomes. À medida que Haddad se consolida como o candidato da esquerda, ele ensaia entrar numa trip de ressentimento contra o PT.

Não duvido que tenha razão. Mas quando vejo algumas críticas feitas a ele ao longo da campanha percebo que não eram tão imotivadas.

Por exemplo: dizem que trocou constantemente de partido, o que é verdade.

Sua resposta é digna: quem mudou foram os partidos, não eu.

Mas isso ajuda a entender porque as intenções de voto permanecem estagnadas com tendência a queda.

Ciro diz que foi aos EUA estudar desde 2005. Desde então deu aulas, consultoria, palestras. Quer dizer, ficou quase 15 anos fora da política e voltou com ambições nacionais.

Ok. Desses 15 anos tirou uma grande solidez nas ideias, que lhe serviram claramente para os debates.

A diferença é que, na hora H, Lula tem um movimento social e um partido atrás de si.

Ciro Gomes parece um herdeiro do varguismo e do brizolismo. Mas nesses anos todos não organizou esse movimento, não foi atrás de sindicatos, de bases, etc.

Talvez esses sindicatos não valessem a pena. Teria que se meter com tipos como Paulinho da Força e tal.

Ciro não sujou as mãos. Ele não cansa de repetir: nenhum processo, nada contra ele.

Só que em política não sujar as mãos tem um preço.

Ciro Gomes entrou como franco-atirador da centro-esquerda, assim como Bolsonaro como o franco-atirador de extrema-direita.

Pelos modos, só havia lugar para um desse tipo nesta eleição.

Ciro Gomes deve estar muito magoado, porque o Lula manobrou como pôde para esterilizar a campanha dele. E conseguiu. Vendeu Minas, vendeu Pernambuco, mas isolou o adversário. Foram manobras vis. Mas a política é vil até os ossos.

Resultado: sim, me parece que Haddad vai levar a parte da esquerda. E, sim, me assusta demais a hipótese de isso eleger Bolsonaro.

E, mesmo que não seja assim, mesmo que Haddad vence, seguiremos com uma sociedade partida em dois. Ando bem pessimista.

 

A Globo no espelho – Um Milagre

Como na Rede Globo (GloboNews incluída) as entrevistas com candidatos têm como centro saber se eles vão ou não se submeter aos entrevistadores e reconhecer como verdadeiro o universo tal como concebido pela Globo, acho que hoje já existem formas de contornar o problema e os conflitos decorrentes.

O entrevistador pode formular a pergunta e ele mesmo respondê-la. Com as tecnologias digitais isso é moleza. Pode até um ficar de frente para o outro.

Enfim o espectador poderá sentir-se “esclarecido” sem todos aqueles distúrbios habituais, sem o risco de ler editoriais de desmentidos e tudo mais.

O Milagre

De uma hora para outra meus amigos petistas, que viam nas pesquisas do Datafolha nada mais que uma fraude, começaram a acreditar nelas piamente.

Haddad subiu, empata com Ciro pelo segundo lugar e, convenhamos, tem mais chance de chegar ao segundo turno.

E daí?

Vejo aí vários perigos que meus amigos petistas não percebem ou se esforçam por não perceber.

Não dá para ser presidente da República por procuração. E e isso que Haddad seria. Mais: é o se propõe a ser.

Segundo: tem chances sérias de perder para o Bolsonaro, pois receberia por transferência a rejeição a Lula, que não é pequena.

Terceiro: ainda que a supere não superará de jeito nenhum a divisão da sociedade entre pró e anti PT (Lula), Vamos viver uma espécie de sequência (revanche ou não) do segundo mandato de Dilma Rousseff.

Por fim: digo isso pensando que eu sou fã do Haddad, achei desde o início ótima a administração dele aqui em São Paulo.

 

Xô T-Bonner

O que há de irritante nessas entrevistas da Globo (e News) com presidenciáveis e afins é que seus jornalistas parecem viver num mundo próprio, cuja existência os personagens-convidados estão lá para referendar.

A coisa podia se chamar entrevistas intransitivas.

Com Fernando Haddad, o bom rapaz Bonner, com seu jeito de quem paira alguns dedos acima do chão, não formulou, acho, uma mísera pergunta, nem para servir de disfarce, sobre o que o candidato pretende fazer.

Haddad pode ter sido o exemplo mais evidente, mas está longe de ser o único. O modelo é francamente inquisitorial: trata-se de apertar o cara até conseguir sua manchete.

Diga-se: na Globonews a coisa não é muito melhor, apenas multiplicam-se as cabeças. Ninguém (salvo Mario Sergio Conti e, vá lá, Gabeira) demonstra o menor interesse em seus convidados, a não ser como entes que possam confirmar suas ideias sobre o mundo, a humanidade, o Brasil, modelos de comportamento etc.

É interessante, porque um ou dois ali parecem ter o instinto de colocar a curiosidade acima do ânimo de pelourinho, mas é como se devessem seguir uma ordem superior para serem machões (mulheres inclusive), fortes, musculosos. Como se fosse essa a questão e não que porra esses caras propõem para o país.

Na Globo, é só o T-Boner, sua branca madeixa, seu terno ternável. Ele vive dando a desculpa preferida de nossa profissão quando queremos ofender alguém: “Eu sou jornalista” e coisa e tal. É nada. A moça Renata o acompanha como acompanhante, a explicitar a ideia do dueto: a verdade nós temos,o povo nós é que representamos. Aliás, por que você veio aqui mesmo?

Caramba, mal ou bem um desses caras será presidente do Brasil, não o T-Bonner. Tratá-los com respeito, não com esse arzinho de maitre de restaurante de quem parece dizer: olha, eu sou o equilibrado, o educado, o primeiro da classe, o que estudou no Santa Cruz. Ou seja, essa mistura de pedantismo com hipocrisia, de autoritarismo e condescendência. Tratar candidatos com decência é o mínimo que se exige, não essa grosseria embutida numa capa de boas maneiras que cabe mal nos personagens.

Resultado: quem esperou se aprofundar em algo do que pensam os candidatos, quem quis ao menos conhecê-los, saiu de mãos abanando. Isso depois de minutos e minutos de confronto. Que diabo de jornalismo é esse?

Estranho é que, afastado o ambiente da TV, quando Ciro Gomes vai a um debate no jornal O Globo, muda completamente o clima. Então pergunta-se e responde-se, debate-se de fato, fala-se de coisas que podem interessar ao futuro do país, os tão comentados e exigidos “projetos” para a nação, o famoso debate de que, na hora H, vejo tantos jornalistas costumam tirar o corpo fora em favor de baixas fofocas. Eles podem ser incômodos, agressivos por vezes, mas o essencial, a curiosidade, reaparece.

Se fosse assim sempre a Globo não seria a Globo.