A Globo no espelho – Um Milagre

Como na Rede Globo (GloboNews incluída) as entrevistas com candidatos têm como centro saber se eles vão ou não se submeter aos entrevistadores e reconhecer como verdadeiro o universo tal como concebido pela Globo, acho que hoje já existem formas de contornar o problema e os conflitos decorrentes.

O entrevistador pode formular a pergunta e ele mesmo respondê-la. Com as tecnologias digitais isso é moleza. Pode até um ficar de frente para o outro.

Enfim o espectador poderá sentir-se “esclarecido” sem todos aqueles distúrbios habituais, sem o risco de ler editoriais de desmentidos e tudo mais.

O Milagre

De uma hora para outra meus amigos petistas, que viam nas pesquisas do Datafolha nada mais que uma fraude, começaram a acreditar nelas piamente.

Haddad subiu, empata com Ciro pelo segundo lugar e, convenhamos, tem mais chance de chegar ao segundo turno.

E daí?

Vejo aí vários perigos que meus amigos petistas não percebem ou se esforçam por não perceber.

Não dá para ser presidente da República por procuração. E e isso que Haddad seria. Mais: é o se propõe a ser.

Segundo: tem chances sérias de perder para o Bolsonaro, pois receberia por transferência a rejeição a Lula, que não é pequena.

Terceiro: ainda que a supere não superará de jeito nenhum a divisão da sociedade entre pró e anti PT (Lula), Vamos viver uma espécie de sequência (revanche ou não) do segundo mandato de Dilma Rousseff.

Por fim: digo isso pensando que eu sou fã do Haddad, achei desde o início ótima a administração dele aqui em São Paulo.

 

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Xô T-Bonner

O que há de irritante nessas entrevistas da Globo (e News) com presidenciáveis e afins é que seus jornalistas parecem viver num mundo próprio, cuja existência os personagens-convidados estão lá para referendar.

A coisa podia se chamar entrevistas intransitivas.

Com Fernando Haddad, o bom rapaz Bonner, com seu jeito de quem paira alguns dedos acima do chão, não formulou, acho, uma mísera pergunta, nem para servir de disfarce, sobre o que o candidato pretende fazer.

Haddad pode ter sido o exemplo mais evidente, mas está longe de ser o único. O modelo é francamente inquisitorial: trata-se de apertar o cara até conseguir sua manchete.

Diga-se: na Globonews a coisa não é muito melhor, apenas multiplicam-se as cabeças. Ninguém (salvo Mario Sergio Conti e, vá lá, Gabeira) demonstra o menor interesse em seus convidados, a não ser como entes que possam confirmar suas ideias sobre o mundo, a humanidade, o Brasil, modelos de comportamento etc.

É interessante, porque um ou dois ali parecem ter o instinto de colocar a curiosidade acima do ânimo de pelourinho, mas é como se devessem seguir uma ordem superior para serem machões (mulheres inclusive), fortes, musculosos. Como se fosse essa a questão e não que porra esses caras propõem para o país.

Na Globo, é só o T-Boner, sua branca madeixa, seu terno ternável. Ele vive dando a desculpa preferida de nossa profissão quando queremos ofender alguém: “Eu sou jornalista” e coisa e tal. É nada. A moça Renata o acompanha como acompanhante, a explicitar a ideia do dueto: a verdade nós temos,o povo nós é que representamos. Aliás, por que você veio aqui mesmo?

Caramba, mal ou bem um desses caras será presidente do Brasil, não o T-Bonner. Tratá-los com respeito, não com esse arzinho de maitre de restaurante de quem parece dizer: olha, eu sou o equilibrado, o educado, o primeiro da classe, o que estudou no Santa Cruz. Ou seja, essa mistura de pedantismo com hipocrisia, de autoritarismo e condescendência. Tratar candidatos com decência é o mínimo que se exige, não essa grosseria embutida numa capa de boas maneiras que cabe mal nos personagens.

Resultado: quem esperou se aprofundar em algo do que pensam os candidatos, quem quis ao menos conhecê-los, saiu de mãos abanando. Isso depois de minutos e minutos de confronto. Que diabo de jornalismo é esse?

Estranho é que, afastado o ambiente da TV, quando Ciro Gomes vai a um debate no jornal O Globo, muda completamente o clima. Então pergunta-se e responde-se, debate-se de fato, fala-se de coisas que podem interessar ao futuro do país, os tão comentados e exigidos “projetos” para a nação, o famoso debate de que, na hora H, vejo tantos jornalistas costumam tirar o corpo fora em favor de baixas fofocas. Eles podem ser incômodos, agressivos por vezes, mas o essencial, a curiosidade, reaparece.

Se fosse assim sempre a Globo não seria a Globo.

 

Globo

Acompanhei mal as entrevistas da Globonews e do jornal nacional, mas ambas me deram a sensação de que os entrevistadores não têm o menor interesse pelo que tem a dizer os candidatos. Os jornalistas da Globo estão lá para, por uma espécie de interrogatório, confirmar o que pensam e difundem diariamente e parecem incapazes de escutar o outro. O outro não existe para a Globo e isso a torna revoltante. Nesse sentido saiu -se muito bem o Bolsonaro ao transformar-se em inquiridor e deslocá-los. Não é por isso que votar nele, claro, mas acho que mostrou argúcia . Um inquisidor afinal sabe como se faz inquisição! (Nisso aliás a Globo lembra os interrogatórios do Moro, que só ouve o que quer: deve ser um bom espectador). Há alguns entrevistadores que ficam fora disso. O Mário Sérgio Conti e o Gabeira certamente

O fim do Museu Nacional

Museu Nacional foi destruído por incêndio (Foto: Divulgação)

Só um descabeçado como o Sérgio Sá Leitão para dizer, numa hora dessas, que o Museu Nacional será reconstruído.

Não que o incêndio seja responsabilidade completa dele. É o atestado ardente, com o perdão da palavra, da desimportância do conhecimento no Brasil.

Isso não é invenção do Temer, que apenas acrescentou a isso uma parcela de ódio e vontade vingativa.

Mas não acredito que isso afete os tesouros agora perdidos do Museu.

Que eu saiba, o que resta deles está no “Lagoa Santa” feito por Humberto Mauro para o INCE.

Isso enquanto o filme não desaparecer,  o CTAv que o guarda não desaparecer, a Cinemateca Brasileira não desaparecer.

O Brasil brinca com fogo.

Um ano em dois

Estou um pouco fora do mundo eletrônico e só hoje percebi uma série de notificações de amigos me mandando parabéns pelo meu aniversário.

A surpresa foi, no caso, tão grande quanto a satisfação. Não divulguei minha data de nascimento, não que eu saiba, e não sei como ficou tão conhecida.

Agradeço enormemente a lembrança, mas devo dizer que, como entrei na empreitada um tanto insana de escrever uma história que acabou se tornando imensa, um romance, e como pretendo dar conta dela antes de morrer, tenho feito anos apenas de dois em dois anos, para me manter mais jovem.

Isso de escrever me afasta um pouco do convívio porque tenho de dedicar à escrita e ás muitas, inevitáveis cabeçadas na construção do texto, as horas vagas, quer dizer, aquelas em que não corro atrás da sobrevivência.

É angustiante, também, porque não sei se tudo isso vai dar numa coisa consequente ou numa besteira cósmica. Mas não dá para parar no meio.

Escorel e As Boas Maneiras

Não entendi bulhufas do texto que Eduardo Escorel publicou  no blog da Piauí sobre “As Boas Maneiras”. Mas não acho mau que o tenha publicado. Acho uma pena que saia agora que a carreira do filme já caminha para o esgotamento, pois as divergências e discussões podem nos levar a uma melhor compreensão do que vimos.

Vejamos então o que vi e que é quase o exato inverso do que viu Escorel. São outros olhos. Primeiro não se trata de um filme de terror mais do que de um filme de amor. O amor, que domina a primeira parte, envolve duas pessoas bem diferentes. Uma empregada e uma patroa. Uma preta e outra branca. O que as aproxima é a enorme solidão em que vivem, a necessidade de serem compreendidas por alguém, de se aproximarem, de serem aceitas.

São duas errantes, cada uma à sua maneira. Duas transgressoras, também. A sexualidade está no centro, inquietante como costuma ser, sugerida à maneira de Jacques Tourneur na série de Val Lewton. Elas carregam maldições. São renegadas pela família e pela sociedade.

A segunda metade do filme, da empregada com o filho da patroa segue uma cena mais impressionante do que a do próprio parto. Clara, a negra, hesita um instante entre deixar a criança junto à estrada de ferro ou levá-la consigo.

Decide levá-la consigo. É Joel, a criança, quem supre agora sua solidão. Ela sabe quem ele é, a maldição que pesa sobre ele e que o afasta de um destino nas normas. Ela sabe até que está lidando com um perigo muito evidente. Não que não seja advertida pela mendiga que canta ao relento e lhe recomenda que não olhe para trás, que esqueça o passado.

O que vem a seguir é, com efeito, dilacerante. O passado não esquecível, nem para a mãe adotiva (ou mãe de fato, não importa), nem pelo menino, que deseja conhecer suas origens. O drama se transfere da Berrini para um bairro de baixa classe média, uma quase favela. Clara tenta de todos os modos evitar que o filho siga sua tendência, torne-se o ser maldito que é. Intui que isso será impossível. Mas o sentimento maternal e sua fidelidade à mãe natural é o que se impõe a ela. Também ela não pode escapar disso.

Ali se dará a sequência de grand-guignol que tanto impressionou Eduardo Escorel. Pois é num shopping Center, o mais clean possível, que se desenrola a cena menos clean. A cena onde prevalece o sangue, ou o vermelho, para ficarmos com Godard.

O mesmo torna-se outro do mesmo. A amizade dos dois meninos da periferia, pobres, é superada pelo inferno que Joel traz dentro de si, em sua natureza dupla, de humano e monstro. E ntramos nas tripas da sociedade contemporânea, onde o pobre e o pobre são chamados a se odiar, a se consumir (num centro de consumo, aliás).

O que virá depois? O linchamento, outra figura tão presente em nosso mundo: a não admissão, a completa incompreensão do que seja o outro, mesmo que o outro seja, a rigor, si mesmo (pobre).

Mãe e filho dispõem-se então a, juntos, enfrentar a multidão. O lobisomem exibe então a sua segunda natureza, de criança frágil, embora a outra, a horrível, esteja ali presente.

Não consigo entender muito bem certas objeções de Escorel.  Há sanguinolência? Mas o que dizer de “Carrie, a Estranha”? Ou dos “Scanners”, de Cronenberg, das “Piranhas” de Joe Dante Etc. etc. etc.

Escorel desde o início adverte que não aprecia o gênero terror. Que, em último caso, prefere o terror sem terror, o de “A Outra Volta do Parafuso”. Isso muda muito.

Também não sou fã incondicional do gênero, nem de musicais, ao contrário desses cineastas músicos. Mas gosto do estranho encontro que promovem, com suas músicas ora rimando com cenas discretamente assustadoras (à maneira da Outra Volta do Parafuso), ora evoluindo para um horror mais pesado.

Ao contrário de Eduardo Escorel meus olhos viram aí um filme bem contemporâneo: da invasão caipira da metrópole (dinheiro estranho e abundante) à solidão da metrópole, da divisão da cidade em um lado e outro dos trilhos do trem ao poético encontro de seres solitários, do amor de uma mãe que tenta encaminhar seu filho num mundo extremamente agressivo à asséptica desenvoltura do consumismo.

Tudo me conduz ao presente por meio da mais radical fantasia, de um desses exemplos cortantes de amor excedente, “amour fou, amour unique”.

Devo dizer por fim que o fato de ter um olhar tão distante do de Escolrel sobre o filme não me leva de modo algum a respeitá-lo menos. Também vejo amigos que amam o terror um tanto indignados com a crítica. Mas se todos olharem para um objeto da mesma maneira, que graça tem? Por fim digo que não estou muito a favor do título. Quando alguém meio desavisado entra pensa que vai ver algo como A Princesa de Montpensier, o belo Bertrand Tavernier (o melhor filme dele, que aliás não admiro muito, que vi até hoje). Comigo aconteceu quando assisti ao Trabalhar Cansa pensando que devia ser uma espécie de comédia. Demorei a gostar do filme.

Boa noite, lobisomem

Entre os belos filmes do cinema brasileiro recente, me parece que “As Boas Maneiras” pode ter um lugar especial.

Primeiro por ser um filme de gênero original, que transita por São Paulo, do rico ao pobre, do branco ao negro. Uma São Paulo que parece dividida pela linha de trem, com o mau gosto horroroso da Berrini dando o tom de maldição.

Me parece que o argumento tem três camadas: 1. Existe um filme de amor entre duas mulheres desencontradas, um tanto perdidas no mundo, embora por razões diversas; 2. Esse filme é recoberto por um filme de lobisomem; 3. O filme de amor e o de lobisomem de certa forma são recobertos por um filme de amor materno.

Mas a ordem do que chamo “recoberto” pode ser muito bem invertida.

O filme começa muito claro no apartamento de Ana, a garota de Goiás exilada em São Paulo por conta de uma gravidez inconveniente e que contrata Clara, uma babá negra que a socorre logo na primeira entrevista.

São bem sozinhas. E dessa solidão surge o amor que leva Clara a ficar com o filho de Ana em circunstâncias que não vem ao caso aqui dizer quais são.

Aos poucos “As Boas Maneiras” se torna menos claro, as sombras surgem nesse mundo que a princípio era límpido. Há muito Sangue de Pantera, muito Jacques Tourneur aí, e isso é muito animador.

As Boas Maneiras nunca deixará de ter seus momentos de clareza absoluta. Por exemplo, a sequência do shopping, mesmo à noite, deixa que o mistério surja da situação, não forçando nada com a luz. Isso faz o momento de terror, que nada tem a ver com susto. No entanto saltamos aqui de Tourneur para um horror mais clássico.

Me chama a atenção ainda o ódio nos olhos do lobisomem. Que ódio é esse, inteiramente anárquico, sem objeto definido (que não seja a mãe)?

Me parece decisivo aqui que seja um filme do Caixote, quer dizer, de grupo. Marco Dutra e Juliana Rojas no caso.

Mas não há exclusividades. Eles se revezam, trocam de função, sobretudo conversam. O próximo deles será de Marco Dutra em parceria com o Caetano Gotardo.

O cinema é muito de conversa.

Por isso o melhor vem de Contagem, vem de Pernambuco, vem de São Paulo do Caixote. Com as exceções de praxe, Rio e Brasília em especial, vão compondo um belo quadro de filmes essenciais e pouco, muito pouco vistos.

Em tempo, próximo do Caixote, trabalhando em geral como assistente, há Daniel Chaia. Quando vai estrear? Me lembro de um concurso de argumentos da Prefeitura SP de que ele participou. Foi a única escolha unânime do júri. Mas se o tempo passa demais…

(Dou ao post o título de um argumento bem tolo que escrevi ali pelos anos 1970, do tempo em que o Carlos Reichenbach queria fazer da Jota Filmes uma produtora à moda do Roger Corman. Não rolou. De certa forma o pessoal do Caixote é meio herdeiro desse generoso projeto).