Roberto Carlos e eu

Vista aérea do Parque Ibirapuera. Foto: Christian Knepper

Na rua onde moravam meus pais, o Roberto Carlos comprou uma casa para sua mãe. Aliás era bem em frente à nossa casa, no Jardim Paulista, que era então um bairro bem mais classe média do que é hoje.

As casas não eram muradas. Tinham o que se chamava de mureta. Uma instituição quase desaparecida. Na casa dos meus pais, hoje, quem comprou fez subir um muro grosso, com dois metros e tal de altura, parece penitenciária.

A casa da mãe do RC tinha um muro um pouco mais alto que mureta, coisa de um metro e meio no máximo e uns 10 ou 15 centímetros de largura. Portanto, acho que era mera coincidência o fato de o habitante anterior ser um coronel da Força Pública que vivia fazendo ginástica sempre que podia e cuidava quase maniacamente do gramado de frente da casa.

(Aliás, para reprimir o jogo de futebol da garotada mandou instalar uma cerca de arame farpado em torno dele).

Mas não era aí que eu queria chegar. E sim no Roberto Carlos.

Que um dia teve a infelicidade de aparecer por lá em pleno dia e foi aquele fuá. Não sei como souberam, mas em dois minutos formou-se um aglomerado absurdo em frente da casa. Por sorte já não havia arame farpado cercando o gramado.

Uma noite, bem tarde, eu vi o Roberto Carlos chegando num carro até certo ponto discreto e entrando apressado na casa da mãe.

Foi a única vez que o vi. Aliás, me pergunto se era mesmo ele.

Depois disso, não sei se a mãe mudou-se ou se morreu, o fato é que RC nunca mais deu as caras por lá.

Digo isso tudo porque poderia até ser um lugar de turismo, de romaria, acho que até mais atraente do que Cachoeiro do Itapemirim, aonde o Guedes recomendou que as domésticas passassem férias. Para as que trabalham em São Paulo, seria inclusive mais econômico, e permitiria que depois ou antes dessem um passeio pelo Parque Ibirapuera, que fica perto dali.

Ao menos enquanto não privatizarem o parque e o tornarem mais, digamos, “exclusivo”.

Brasileiros, 2019

Estou no maior dilema para a escolha dos filmes brasileiros de 2019, na eleição do Sesc.

Já tinha na minha lista de preferidos “A Vida Invisível” (Karim Ainouz), “Abaixo a Gravidade” (Edgar Navarro), “Bacurau” (K. Mendonça e J. Dornelles), “Chuva É Cantoria na Aldeia dos Mortos” (João Salaviza e Renée Nader Messora, “Divino Amor” (Gabriel Mascaro), “Eleições” (Alice Riff), “Los Silencios” (Beatriz Seigner), “Temporada” (André Novais Oliveira).

Já são sete.

Entra então um segundo grupo, que considero inferior ao primeiro, mas interessantíssimo:

“A Sombra do Pai” (Gabriela A. Almeida), “Deslembro” (Flávia Castro) , e logo depois “Domingo” (Fellipe Barbosa) e “No Coração do Mundo” (Gabriel e Maurílio Martins).

Acho que eu acrescentaria um terceiro grupo, de um filme só,:

“Inferninho”, de Guto Parente.

Mas aí vi “O Clube dos Canibais”, do mesmo Guto Parente e fiquei encantado. Seria um filme a mais para o primeiro grupo, e com destaque.

E ainda falta ver o “Mormaço”, da Marina Meliande, de quem escuto falar muito bem. Se alguém tiver link, ou DVD, ou lá o que seja, por favor dê um toque.

De todo modo não sei nem qual seria a hierarquia entre esses filmes, e acho mesmo que não importa. São diferentes, todos muito bem resolvidos. Ou então eu estou ficando velho e molenga, mas tudo bem: faz parte da vida. E já tive esse sentimento antes, e estava com a razão.

São filmes que valem a pena ver, produzidos de modos às vezes muito diferentes, com orçamentos diferentes, mas sempre muito interessantes. Uma geração muito forte, com exceção do Edgard Navarro, que faz parte dessa geração de exceção da virada dos 60 para os 70.

O problema é que esse pessoal agora vai ter de ir para uma estratégia de sobrevivência, voltar a produzir, quando for o caso, com menos dinheiro, mas têm de ir em frente de algum jeito, nem que seja filmando com celular, porque o que acontece no cinema brasileiro atual é mesmo muito especial.

Brazilian Citizen Kane

Foi bem interessante o debate em torno de “Cidadão Kane” que marcou ao mesmo tempo a comemoração dos 99 anos da Folha e o início das comemorações do centenário.

Digo “em torno de” porque em certo momento surgiu uma pergunta interessante e na qual eu meti o bedelho meio à toa.

Alguém perguntou quem seria o Cidadão Kane brasileiro. Seria o seu Frias? Isso de jeito nenhum. Ele era o anti-Kane. Nisso todo mundo que já tenha passado perto da Folha concordaria, como a Marina Person e a Bete Coelho.

Mas eu disse que meti o bedelho porque falei que quem mais se aproximaria de Kane, pela extensão de seu império de mídia (já não era jornal), foi Roberto Marinho.

E me esqueci que o real Kane brasileiro nunca foi Marinho, mas Assis Chateaubriand, que pulava da imprensa, rádio e TV para a política com uma desenvoltura espantosa. E, se não tinha a fortuna interminável de Kane, em todo caso punha os empresários contra a parede para arranjar dinheiro para montar o Masp.

Esse cara que usava o poder da imprensa sem nenhum pudor, que teve enorme poder, pessoas de contradições extremas é quem seria o Kane brasileiro.

Ao menos até onde vão minhas parcas informações sobre o assunto.

Meia-entrada

O argumento de um articulista da Folha sobre a meia-entrada não me convence.

Então, a meia-entrada seria um subsídio a quem não precisa.

Claro, todas as medidas dessa natureza beneficiam a quem precisa e a quem não precisa.

A alegação é simplória.

Bastaria ir a qualquer censo estudantil e verificar a classe social a que pertencem tais e tais estudantes. Pois numa população pobre como a brasileira tem mais dificuldade de acesso a equipamentos culturais o estudante que pertence a famílias pobres.

Ah, os adultos pagam um pouco mais por isso, é verdade. Porem o mais importante, no caso, é facilitar a entrada dos jovens em atividades culturais, como teatro, cinema, shows musicais. São os que mais freqüentam e os que mais necessitam da meia-entrada.

Sim, claro, há os filhos de pais que estudaram no Santa Cruz e se entopem de dinheiro no mercado de capitais, esses talvez recebam mesadas colossais e não precisem. Mas, e os demais? Vale aquela cascata do atestado de pobreza? (mais um estratagema para humilhar os pobres).

Tem uma série de reivindicações antissociais que são lançadas e relançadas de tempos em tempos, que reaparecem com a máscara do benefício social. Assim, a volta da jogatina livre criaria empregos (o mesmo se pode dizer do tráfico de drogas…), que a bagagem paga nos aviões ajudaria a baixar as tarifas (baixaram?), que o preço dos shows vai diminuir com o fim da meia-entrada (provem!).

Para os empresários, temo que o fim da meia-entrada não seja mais que um tiro no pé. A freqüência vai diminuir. Os velhinhos da sessão das duas da tarde sumirão. Os estudantes diminuirão enormemente. Então… bem, vamos aumentar os preços para sobreviver.

São cascatas meramente elitistas, essas, assim como o infame argumento de que a universidade pública deveria ser paga porque os alunos têm carros. (mas comprar carro, mesmo a prestação, não era tão bom para a indústria etc e tal?)

Capitólio é dos cinéfilos

Cinemateca Capitólio –  foto: Marcus Mello / Reprodução Facebook

O que a prefeitura de Porto Alegre está fazendo com a Cinemateca Capitólio é, para começar, uma atrocidade. Ela funciona num cinema de rua no centro da cidade, um cinema que foi recuperado e hoje é uma sala exemplar, mantida por funcionários municipais.

É verdade, tinha financiamento da Petrobras, empresa ex-pública que hoje existe para atender aos interesses de seus acionistas _inclusive o governo. Tudo bem. Deve existir no Sul empresa com sentido da importância cultural do lugar e em condições de financiar suas atividades.

Mas o que a prefeitura propõe, se bem entendi, não é financiar a Capitólio com dinheiro privado. Trata-se de doar R$ 2 milhões anuais para que uma empresa faça o gerenciamento do lugar.

Não conheço os detalhes e não acuso ninguém. Mas além de anticultural é um gesto que não cheira bem. A Capitólio tem de pertencer à rica cinefilia gaúcha, que a ergueu e a toca muito bem.

Mais estranho: essa atitude ocorre no momento em que a prefeitura de Porto Alegre inicia um arrojado programa de mobilidade urbana que supõe tarifa zero nos ônibus e grande subsidio estatal. Coisa que, se funcionar, será uma bênção.

Os vira-latas

O que mais me impressionou na viagem a Tiradentes este ano (vários anos depois de vir ao interior): a fabulosa quantidade de cachorros vagabundos, como diria a Carmen Miranda. Começou na estrada. Ao longe já dava para ver o cachorro atravessando. A van chega mais perto, mas ele segue indiferente a tudo, à pressa do mundo, à necessidade do homem de chegar a um outro lugar. Ele não. Está lá, como um Diógenes respondendo ao rei quando lhe pergunta do que ele precisava, e ele responde só que você pare de tampar o sol – foi isso ou algo assim. Um cão filosófico na pista. Se me matarem, mataram. Não vou me abalar por tão pouco.

Na cidade há uma enorme quantidade de cães sem coleira e sem patrão. De vez em quando você topa com um deitado sobre as patas dianteiras, o olhar pensativo que não pensa em nada. Ou então com um que anda para lá ou para cá sem dar satisfação a ninguém.

É estranho, porque me acostumei tanto ao espetáculo dos cães paulistas, tratados a pão de ló, passeando na coleira ou do dono ou dos cuidadores, vergonhosos, submissos, levados pela coleira, vez por outra latindo irritados, para quem passar por perto ou, sobretudo, para outros cachorros.

Não me lembro de ter visto um filme sobre cachorros vagabundos. Não sei por que, mas me pareceu um belo tema. O que são? Uma metáfora da liberdade, talvez. Mas isso não esgota a gama de sentimentos que transmitem, que vai da indiferença ao desgosto, do tédio à atenção excitada. Um grande tema, acho.

CINEMA: HISTÓRIA E LINGUAGEM 2020

Para quem esteja interessado, já estão abertas as inscrições para o curso

CINEMA: HISTÓRIA E LINGUAGEM 2020.

Parece mentira, mas o curso vai para o seu ano 22.

E continuará no endereço mais recente: na Sala de Cursos do Espaço Itaú Augusta.

Fica na Rua Augusta, 1470 no Anexo (onde ficam as salas 4 e 5)

O programa, horários, telefones para inscrições etc. tudo está detalhado no site

www.cursoinacioaraujo.blogspot.com