Saudades de Collor, já

 

Foto: Valery Hache/AFP
Foto: Valery Hache/AFP

Quando eu escrevi aqui que o Brasil ainda sentiria saudades do governo Collor, não estava brincando.
Mas não pensei que esse sentimento chegaria tão rápido e tão radical.
Não é preciso chegar a grandes calamidades. Pequenos gestos já indicam o tamanho da baixeza que toma esse governo, provisório ou não.
No facebook, o Zanin escreveu que a cena proibida não está no filme: é a foto da equipe em Cannes mostrando palavras de protesto contra o impecheament.
A notificação do Ministério da Justiça que recomenda “Aquarius” para audiências acima de 18 anos pode, é verdade, funcionar como propaganda para o filme.
Mas não é isso que importa, e sim a percepção de que um governo inteiro, MinC, ou MinV, ministério da Vendetta, o da Justiça e qualquer outro que venha a intervir nada mais faz do que manifestar seu rancor em relação aos artistas envolvidos no protesto de Cannes contra a deposição de Dilma Rousseff.
Com um pouco de diplomacia, outro tanto de inteligência e um sentido mínimo de grandeza, o novo governo estenderia um tapete vermelho a este filme, abriria caminhos, poria os órgãos de comércio exterior para funcionar a favor não propriamente do filme, mas daquilo que até mesmo sua oposição ao novo governo poderia provar, de aceitação da pluralidade e, mais ainda, da alteridade. Não era o Temer, afinal, que supôs algum dia unir o país?
Mas a censura (pois funciona como censura) a 18 anos como que diz: eles são contra nós, então somos nós contra eles. Mostraremos que somos mais fortes. Mais ou menos como quando o atual chefe de polícia nacional, ou ministro da Justiça, era chefe de polícia aqui em SP.
Esse é o marketing que triunfa: vamos ver quem pode mais, não importa o quanto a gente se abaixe. À mesquinharia, porém, corresponde aqui a burrice sem par. Eu posso lembrar que Marta Suplicy danificou muitíssimo a Cinemateca não por vingança, mas por mera leviandade. Collor não agiu tão mesquinhamente ao fechar abruptamente a Embrafilme: pode ter sido sórdido, mas dava aviso do que seria sua política. Foi uma coisa demente, claro, mas havia algo na telha, uma ideia qualquer, talvez mesmo essa de ajudar o cinema americano, não sei.
Agora, nada disso. Nem isso.
O novo governo demonstra apenas coesão: age em conjunto. Mas parece um conjunto de castrados caminhando com viseiras.
O que se pretende, eu não sei. Talvez sejam gênios indecifráveis. Quem sabe o rapaz da CBN só fingisse ser um boboca e seja um gênio a se revelar. De todo modo, o que se conseguirá é, óbvio: a mobilização intensa do setor cultural que se opôs à deposição de Dilma Rousseff. Um setor que é 95% do setor.
Então, qual é a ideia? Se afirmar pelo confronto?
Poderia ser. Mas com Michel Temer se escondendo de eventuais vaias na abertura da Olimpíada?
Posso me enganar muito, mas não me lembro de um governo acéfalo como esse antes no Brasil. Uma coisa que, por pequenas decisões como essa que agora se anuncia, parece sem eira nem beira.
Na melhor das hipóteses.
Caramba, eu tenho mais o que fazer!

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