Café Society

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Se Café Society me parece um filme tão especial isso começa (e talvez termine) no fato de que Woody Allen não representa os anos 1930/40 nos EUA, a partir de Los Angeles e Nova York. Ele como que os acaricia com imagens.
Por LA o amor não é incondicional. Mas lá estão Steve Carell, o superagente, e Kristen Stewart, sua adorável secretária.
E NY é NY, não importa quem esteja lá.
Nesse filme de afetos não existe antipatia possível. Existe uma rivalidade entre Jesse Heiselberg e Steve Carell, em torno de Kristen Stewart. Estamos mais do lado de Jesse porque o seguimos, mas é impossível deixar Steve cair, tão simpático e agradável ele é.
O nosso dilema é quase o de Kristen.
Também com as cidades. De LA conhecemos basicamente uma piscina e um escritório. Mas aquilo é Hollywood, e isso basta para trazer à tona o mito da cidade dos sonhos. De NY conhecemos um night club. E basta para que se afirme o mito da vida real.
Mesmo a família judia do Bronx, entidade Woodyalleniana por excelência, com seus gritos, diversidade, dificuldade de viver, se afirma pela simpatia. Não há ninguém mais adorável do que o gângster, assassino irrefreável, que é irmão de Jesse.
Estamos num filme de afetos, que começa pela época e passa pelas cidades, pela dicotomia entre sonho e realidade (estranho: de Hollywood conhecemos um agente, aquilo que mais está longe do sonho; de NY, um night club, o mais próximo dele), em suma.
É diferente, digamos, da atração que “Meia-Noite em Paris” pode exercer sobre Allen. Ali o mito é o da literatura, de certa vida literária, de alguns autores. Mas a cidade é uma abstração.
Aqui, não. Embora as conheçamos por pinceladas, estão presentes de forma ostensiva. O que é NY? Um night club onde circulam ricos, artistas, aristocratas, gângsters. O jet set nacional e por vezes mundial. O café society, em suma: essa misturança.
E, como de afetos se trata, temos ali um triângulo amoroso. A mulher deve escolher entre dois homens igualmente dignos de seu amor. O modelo vem de “Casablanca”, que Woody já admirou muito: ele sabe que nos toca mais quando a perda amorosa não vem de uma escolha errada da mulher, mas de uma escolha, apenas.
E sabe que essa perda é irreparável. Devemos sentir intensamente a dor dos personagens, como sentimos as nossas: escolhas produzem perdas. Quando irreparáveis, geram bons filmes.
Ou ótimos.

Francofonia
Me encanta um pouco menos. Sokurov me encanta sempre um pouco menos do que devia, mas desta vez está bem perto do que eu esperava. A visão da França do século 20 a partir do Louvre sob ocupação é mais interessante do que os filmes sobre Lênin, Hitler ou Hiroito, me pareceu. Sem falar de sua revisão da história russa a partir do Hermitage, num plano único e artificial.

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