Na Era de Aquarius

Aquarius

Dois filmes brasileiros que me impressionaram muito este ano têm cenas marcantes de cemitério. Um, claro, é “Sinfonia da Necrópole”, da Juliana Rojas, uma comédia musical de humor negro, que transfere a especulação imobiliária para o mundo dos mortos. Ou, ao menos, a residência dos mortos.
“Aquarius”, passa por muitas paisagens. Uma delas é o cemitério onde Clara vai depositar flores no túmulo do marido. Ao sair, ela vê a exumação de cadáveres que vai sendo realizada como coisa rotineira. É uma cena rápida, que acrescenta uma dessas tensões a um tempo ligeiras e agudas que o Kleber Mendonça Fº tanto aprecia usar.
Há filmes em que o editor te dá o tamanho da matéria antes de escrever e a gente (eu, em todo caso, mas acho que todo mundo que escreve sobre filmes) pena pra chegar lá.
E há filmes em que você começa a escrever e vai embora, e quando vê a matéria já está com o dobro do tamanho.
Foi o caso deste filme.
Ele me pareceu ter uma estrutura de bang-bang. Quem me conhece sabe que isso é um elogio.
Ali existe Clara que, como um pistoleiro, enfrenta os poderosos todos da cidade. E os poderosos não são necessariamente, ou não são apenas os caras da construtora que pretendem construir um novo monstrengo no lugar do predinho em que fica o apartamento dela.
São eventualmente seus filhos, a quem o dinheiro interessa, são outros antigos habitantes que venderam o seu apartamento e não veem a cor do dinheiro porque Clara não libera o seu etc.
E no meio disso existe uma deplorável perda de civilização que se vai mostrando. A paisagem se transforma ao gosto de um capitalismo selvagem cada vez mais voraz.
Como em “O Som ao Redor”, mas ainda mais intensamente, Kleber opta pela abordagem em deriva, pelos muitos pequenos acidentes que acontecem e que vão montando essa espécie de quebra-cabeças que desembocará no duelo final.
Pelo que se viu até agora, e sobretudo pela publicidade extra que ganhou do governo, o filme deve emplacar.
Isso é bom, mas vejo que o cinema brasileiro atravessa uma boa fase, com uma geração nova forte e nem por isso o público se interessa, a não ser quando temos um evento tipo “Aquarius”.
No entanto, temos uma turma muito, mas muito interessante aqui em São Paulo (a dos Filmes do Caixote), temos em Brasília o Iberê Carvalho, de “O Último Cine Drive-In”). Na periferia de Brasília há o Adirley Queirós, assim como em Contagem temos os Filmes de Plástico… E em Pernambuco, bem, lá há uma penca de cineastas dignos de estima.
No entanto, o resultado de “Big Jato”, do Claudio Assis, por exemplo, foi deprimente. Não pode um filme como esse… acho que não chegou a 10 mil ingressos vendidos. Ok, pode até ser que as mulheres tenham boicotado, mas não acho que tenha sido isso. Não mesmo. As mulheres não boicotaram o “Cine Drive-In”, nem a “Sinfonia da Necrópole”, e nem por isso.
Foram abandonados mesmo. E, pior, essas pessoas fazem bons filmes, mas para quem?
Que sentido isso tem? Onde estão os espectadores de bons filmes?
(E olha que o Brasil me parece meio privilegiado, recentemente, em relação ao mundo… Talvez eu exagere um pouco, mas é uma nova geração de artistas que está aí, mas parece quem nem está. Isso é bem deprimente).

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