Paulo Emilio, ano 100

O crítico Paulo Emílio com seus gatos, em 1972
O crítico Paulo Emílio com seus gatos, em 1972

Foi uma sorte, das grandes, o Carlos Augusto Calil ter me convidado para dividir com ele uma conversa sobre Paulo Emílio no CineSesc, no dia 6.

Primeiro, porque pude ver cinco minutos, não mais, mas cinco minutos impressionantes de “Outubro” em cópia boa, mais que boa. Cinco míseros minutos para reconstatar como Eisenstein era grande, como cada imagem vibra, envolve, quase faz a gente pular da cadeira. Acho que se ficasse mais tempo lá talvez voltasse a ter a impressão que tinha de que “Outubro” é o menos animador do Eisenstein mudo. Mas, caramba, menos animador? É um monstro, como Murnau, um esteta raro.

Impossível não passar por esses filmes sem se comover com o cinema.

Paulo Emilio de cor

Evidentemente, o Calil conhece PE muito mais e melhor que eu. Eu quase diria: conhece de cor. Ou: de cor e salteado, como diziam as professoras antigas.

E a contribuição de PE ao pensamento brasileiro ainda não me parece mesmo devidamente valorizado. Porque ele pensa o Brasil a partir do cinema, ou antes, da impossibilidade do cinema.

Do fato de não conseguirmos chegar a uma arte tecnológica, popular e econômica.

A Ralé

Como a conversa tem um fim e não se pode perguntar tudo, ficou no ar e ainda perguntarei a ele sobre Paulo Emilio considerar que o cinema marginal reduzia o povo a plebe.

Me parece, no entanto, que existem vários cinemas marginais. “O Bandido da Luz Vermelha”, por exemplo, era um filme extremamente popular em qualquer sentido que se queira observar.

“O Anjo Nasceu” não foi um filme popular, mas de modo algum havia esse tratamento de ralé aos personagens…

Mas o que houve depois do AI-5 transformou completamente aquela geração. E a passada também, diga-se: ficou um cinema de manifesto, que meio transformava em motivo fílmico as aflições pessoais dos realizadores.

A Incapacidade Criativa…

Eis outra formulação de PE com a qual nunca concordei: que o Brasil ou o brasileiro fosse dotado de uma espécie de incapacidade criativa de copiar.

O que me pergunto é se essa seria uma qualidade brasileira, ou apenas brasileira.

Qualquer pessoa que comece a escrever, por exemplo, o faz por admirar um estilo ou um texto de outro. Ou textos de outros. O mesmo vale para outras artes. Quando o sujeito descobre que não pode, não consegue fazer aquilo ele está no caminho de encontrar seu próprio estilo, sua própria escrita.

Vale para a pintura, o cinema, o teatro, o que for.

Essa incapacidade não me parece brasileira. Quando a gente vê relatos dos japoneses do mudo, eles faziam anotações sobre os filmes americanos que viam, tentavam decifrar aquilo.

E o Hitchcock não queria imitar o Murnau? E assim vamos, ora mais ora menos, mas não consigo me convencer de que essa seja uma qualidade brasileira.

Digo isso no meio de formulações muito agudas de PE.

Algumas sobre assuntos triviais. Por exemplo, lembro dele dizendo que, quando se vai comprar uma roupa, um terno ou sobretudo, algo assim, é preciso gastar mais e comprar um produto de alto nível.

Porque mesmo depois de usado, já um pouco puído, até, esse produto conservará sempre a classe, a distinção. Talvez isso já não valha mais hoje: a gente passa na Zara ou na Riachuelo e compra uma coisa baratinha, usa um ano, joga fora e vai comprar outra baratinha. Quer dizer, baratinha numas…

O fim do cinema

Nunca soube da crença do Paulo Emillio no fim do cinema como expressão popular. Bem forte essa ideia, até porque prematura.

Calil diz que, se fosse hoje, provavelmente PE estaria voltado a coisas da internet, ao Porta dos Fundos…

Claro, ele diz que não pode falar em nome de PE. Ok, não. Mas quase. Primeiro porque o conhece muito, edita seus textos, dedica-se a ele enormemente. Segundo porque tem uma maleta que parece malinha de mágico, ele abre e de lá começam a sair livros e livros, e eu queria saber como tantos livros cabem numa malinha só. Tem os editados e os por vir…

Claro que a maleta é uma brincadeira.

Mas garanto que lá já estava parte da próxima coletânea, e Lena virão em breve alguns artigos, ele já anuncia, em que PE fala do cinema popular dos anos 1070, ou antes: do que havia de popular no cinema popular! Uma fala que, no momento, parecia antes de tudo polêmica, hoje parece produto de suas antenas muito agudas.

Em suma, uma noite muito, muito agradável, que pessoalmente valeu como um reencontro com ideias, coisas, textos de Paulo Emilio, mediados pela prosa muito agradável do Calil (eu digo Calil, mas todo mundo sabe quem é: o Carlos Augusto Calil).

Houve muito mais

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