Liberdade e vaselina

 

“Liberdade é, antes de tudo, o direito de outro pensar diferente de você”.

Por alguma razão que ainda não entendi essa frase sinuosa foi parar no final de um artigo de André Sturm para a Folha (pág. 3 de 15/9).

André defende que outro filme possa ser indicado para representar o Brasil no Oscar que não “Aquarius”.

Não é questão de estar acordo: isso é obvio. Caso contrário não haveria uma comissão e filmes inscritos, ou seja, um concurso para saber que filme representará o país (sim, no Oscar os filmes de língua estrangeira são indicação dos países).

O fato registrado por ele é que, após a escolha de outro filme que não “Aquarius”, as redes sociais se encheram de manifestações contra a comissão etc. etc. Comissão que é composta por membros muito ilustres e conhecidos etc. etc.

Não entro no mérito dessa comissão (aliás nunca entrei no de outras).

Engasguei foi nessa frase aposta no final do artigo. Grand finale, como se diz.

Então, complete-se a formulação: “liberdade é, antes de tudo, o direito de outro pensar diferente de você, desde que não o exponha nas redes sociais”.

Fica melhor assim, André.

Ou, se se quiser expandir o significado um pouco mais: “… desde também que não seja em passeatas em que se grita “Fora Temer” e outras palavras de ordem contrárias aos interesses do governo instituído após a deposição de Dilma Roussef, casos em que o pensante estará sujeito a apanhar da PM”.

Digo isso, em parte, porque até algumas semanas atrás as redes sociais eram o que havia de democrático, de belo, de moderno e tudo mais.

De repente viraram uma maneira de podar, ou até, de suprimir as liberdades públicas.

É isso mesmo? Entendi direito?

Então podemos formular a coisa até de forma mais simples e de fácil compreensão: liberdade é a liberdade de pensar como o governo Temer livremente escolhido pelos brasileiros através de seus representantes no Congresso Nacional.

O Belas Artes e o Sindicato

Deixe-me acrecentar uma coisa. André Sturm talvez seja a pessoa que mais me faz lembrar a Clara de “Aquarius”: lutou como um louco, mobilizou gente e mais gente (não sei se pelas redes sociais ou não) em defesa do seu cine Belas Artes.

Conseguiu reabri-lo (vitória, sim, inegável, contra a especulação imobiliária). Contou para isso com ajuda da prefeitura de São Paulo (petista) e da Caixa Econômica (federal, até pouco tempo sob controle do governo Dilma Roussef).

André é um ótimo administrador (além do Belas, conseguiu ressuscitar o MIS paulista, coisa em que eu não acreditava mais). Também é presidente do sindicato da indústria do audiovisual em SP.

Como tal, ele sabe que o MinC não foi recriado para gerir a cultura, mas para punir a cultura, já que largos setores se manifestaram contra a deposição de Roussef e, agora, contra o novo presidente .

E sabe que as artes, o cinema mais que todas, é dependente ao extremo de incentivos fiscais. E que, afinal, também deve haver artistas que fossem contra Dilma Roussef (liberdade é o direito etc. etc.).

Se a vingança for geral, caros, acabou cinema: de direita ou esquerda, de frente ou de trás, de alto ou de baixo. Neca. Fim.

Então é bom que o sindicato tome essa posição meio, vamos dizer assim, vaselina. É bom para André também não hostilizar o governo, por razões que dizem respeito ao Belas Artes. E acho que ele nem quereria, pois exerce funções no governo Alckmin.

O que me chateia um pouco é ver essa frase sobre a liberdade no final do artigo de uma pessoa que considero, mais que respeitável, estimável (e isso desde os tempos em que comandava o cineclube da GV junto com o Eduardo Simantob).

Ela é recorrente nos piores comediantes, nos difamadores profissionais mais sórdidos, numa gente que sempre faz e diz o que quer e nem por isso se julga impedida de gritar que qualquer discordância significa podar sua liberdade, é coisa de stalinista etc.

O Homem que Burlou a Máfia

O volume “Cinema Policial” que a Versátil lançou tem dois grandes filmes: “O Homem que Burlou a Máfia”, de Don Siegel, e “Profissão: Ladrão”, de Michael Mann.

Achei um pouco mais fraco o Peter Yates do volume (há ainda um outro, esqueci o nome agora do mesmo diretor do “Warriors”, que não pude ver).

Mas o que vale a pena mesmo ver, rever e trever é o filme do Siegel, que me pareceu sua obra-prima desde os planos de abertura.

Ele enquadra magnificamente, é eficiente, gracioso sem ser fresco, eficaz o tempo todo… Filme antolólgico. Me pareceu quando o vi pela primeira vez, e agora mais ainda.

 

 

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Um comentário em “Liberdade e vaselina

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