A Inquisição

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Até bem pouco atrás eu via A Paixão de Joana d’Arc, de Dreyer, como o magnífico fato estético que é, uma coisa perdida no tempo, entre a Inquisição e o sossego nórdico.

Agora que o revi em cópia restaurada e editada com decência pela Versátil, parece que outras  coisas aparecem: por exemplo, a angustiante premonição do que seria a perseguição aos judeus na Alemanha nazista.

Me foi mais ou menos impossível não associá-lo à formidável perseguição ao PT que ora se verifica sob aparência de processo judicial legítimo.

Só para  lembrar: o de Joana D’Arc era exatamente isso: um processo judicial legítimo.

Quem vê o filme logo se dá conta. Ela diz que escutou a voz de Deus. Os inquisidores, que ela escutou o Diabo. É um processo sobre crenças prévias, destinado a provar alguma coisa.

Bem, o que se passa no Paraná me parece dolorosamente semelhante a isso.

Não se trata de um processo destinado a estabelecer algum tipo de verdade, fosse ela precária, mas a estabelecer a culpabilidade do PT e, na prática, o seu banimento.

Senão, vejamos: havia até pouco tempo um governo de coalisão. Pelo que se lê, pelo menos até agora, ao menos três partidos se beneficiaram de esquema na Petrobrás: PT, PP, PMDB.

Talvez haja outros. Fiquemos com esses. O tesoureiro do PT está preso. O do PMDB, por exemplo, deve estar no poder agora. Aliás, quem é?

Quando se fala dos desvios, convém perguntar: quanto foi para o PT, quanto para o PMDB, quanto para o outro partido. Deve ser distração minha, mas nunca vi quem levou quanto…

Se o fato fosse mais divulgado eu teria topado com ele em algum momento, mesmo sendo o distraído que sou.

  1. O processo Lula é até agora o que mais se assemelha a um linchamento inquisitorial. Se bem acompanho os fatos, um homem está sendo acusado de ter visitado um apartamento em construção, é isso?

De querer comprar um apartamento que não comprou. Estou errado?

Ah, sim, mas esse apartamento seria um pagamento de tal empreiteira por não sei bem o quê. Onde está a demonstração disso? É uma convicção? De onde ela surge? É bem o caso daquele círculo de convicções apresentado por um inquisidor outro dia. Nenhuma demonstração, apenas um caso de associação livre.

Ah, sim, mas Lula viajou para  defender o interesse de empreiteiras. Mas isso ele não fazia escondido. Aliás, proclamava como política de Estado, e não me lembro de ninguém se opondo a isso. Ele manifestava a intenção de vender o Brasil no exterior.

Ora, esse é um procedimento mais que corrente nos países. Levou tempo para o adotarmos. Por exemplo, quando o Brasil comprou uns aviões militares, há pouco tempo, o que baixou de gente aqui para defender seus interesses não está escrito. Inclusive presidente francês em defesa da Airbus. Portanto, está bem mal contada a lenda segundo a qual presidentes só viajam ao exterior com comitivas de empresários, coisa impessoal etc. e tal.

Sigamos: não comprar um apartamento é um crime. Mas, não o tendo comprado, o que aconteceu? Como recebeu o pagamento espúrio?

Nada. Silêncio. O crime não é esse: o crime é não comprar um apartamento, assim como o de Joana d’Arc, mais ou menos.

Assim como os judeus na Alemanha: eram culpados de serem judeus. Fim.

2.Sim, a prisão de Guido Mantega e sua revogação são os fatos do momento.

O que a justifica? Uma delação segundo a  qual teria pedido doação de  dinheiro para o PT.

Supondo que seja verdade a primeira parte da proposição e com perdão por minha ignorância das leis: isso é proibido?

Ou existiu uma chantagem segundo a qual o denunciante não seria pago caso não depositasse algum na conta do PT?

Não vi nenhuma palavra a esse respeito. De repente, Sérgio Moro pode se esconder sob o segredo de justiça, de repente pode divulgar conversas pessoais de suas vítimas favoritas.

É assim mesmo ou eu é que estou vendo só fragmentos das coisas¿

Mas vamos à prisão.

Quem a decretou? Sérgio Moro? Então a terá julgado necessária supõe-se.

Bem, por que a revogou logo em seguida como desnecessária?

Alguma instância de justiça (ou não) o inquiriu a respeito?

Afinal, ela era necessária ou supérflua¿ Ninguém deve explicações a respeito?

Bom, como ninguém as pede e ninguém as dá, eu também tiro cá algumas conclusões.

a) A prisão faz parte de um espírito de show business que há bom tempo está sendo a base mais constante desse processo todo.

b) A prisão serve para intimidar qualquer um que quisesse doar dinheiro ao PT, pois sua vida será investigada na condição de beneficiário de alguma falcatrua, suposta ou não.

c) Sua posterior libertação é insignificante, na medida em que o objetivo a prisão era constranger o ex-ministro pessoalmente (já que desnecessário segundo seu inquisidor). O argumento de “humanidade” não cola: o mundo conhece a doença da  mulher de Mantega há anos.

d) As desculpas para a prisão e para a libertação são ambas totalmente esfarrapadas.

  1. Não me incomodo que a ou b seja processado, seja ele quem for, caso tenha cometido algum tipo de crime.

Mas o que vejo nessa história são crimes até segunda ordem imaginários para satisfazer a um ressentimento patológico através de uma investigação dirigida a certo partido político e a seus líderes.

Não escrevo isso como cientista político e muito menos como partidário do PT. Mas como o espectador de um espetáculo vagabundo que, por algum motivo que não domino, se apresenta e é recebido pelo mundo como um Shakespeare.

Não. No máximo é um Ionesco que baixou por aqui.

Se Sérgio Moro e seus procuradores não forem verdadeiros, que ao menos sejam verossímeis. O que andam fazendo é um insulto à inteligência, soterrada sob a montanha de efeitos especiais de terceira.

Argumentos ruins, desenvolvimento arbitrário e efeitos toscos. Enfim, isso aí é um blockbuster brasileiro.

P.S.

Por que aparece no Uol que “Mantega planejava escrever um novo livro”? Não planeja mais? Teve as mãos cortadas? Foi proibido de escrever? Tudo é possível agora. Como em Berlim, 33.

 

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