Do que falar

Foto: Tuca Vieira/Folha Imagem
Foto: Tuca Vieira/Folha Imagem

Diz Zé Geraldo Couto que eu mais falo de política que de cinema.

Não sei se é verdade.

De um modo geral, e mesmo que não diga explicitamente, a política aparece em função de imagens.

O fato, porém, é que a paixão política anda muito à frente da cinematográfica.

Reage-se mais àqueles fatos (e suas imagens, na TV) do que a imagens de cinema.

Nesse sentido, o cinema está menos vivo, sem dúvida.

Talvez esse sentido não esgote todos os sentidos.

Em todo caso, agora, vários dias depois, o que eu mais ouço falar é sobre a sra. João Dória e a entrevista a Silas Martí, na Ilustrada.

Sim, claro, é hilariante. Em certo nível, pelo menos.

Devo dizer que muito tempo atrás eu convivi bastante com pessoas parecidas.

As coisas não eram tão radicais como hoje, mas algo já se anunciava.

A sra. Dória, é verdade, não sabe o mundo em que vive.

Ela chama a favela de Paraisópolis de Etiópia (será a única em seu círculo familiar?) porque, certamente, acredita que se trate de uma anomalia incrustada numa cidade impecavelmente rica.

Ela não sabe nem para o que serve o Minhocão.

E a pergunta que qualquer um se faz ao ler a entrevista é: porra, em que mundo mora essa mulher?

Mas a questão não é essa, e sim: por que separamos de modo tão radical o mundo dos ricos, dos remediados e dos pobres?

Ela não é diferente de tantas outras mulheres que vivem nesse mundo acanhado, onde os pobres são uma abstração ou até aberração, para quem pobre é quem não gosta de trabalhar, só fica bebendo cachaça ou então parasitando o governo com coisas como bolsa família.

São milhares, milhões talvez de mulheres ricas ou remediadas que são tiradas do mundo real para o do lar (ou da arte).

Lembro do Chabrol falando que para ele o problema não era a luta de classes. A luta de classes era boa porque significava que as classes estavam dialogando, ainda que asperamente.

O problema, para ele, é quando isso deixa de acontecer.

Me pergunto se a educação pública ajudaria a resolver a separação tão radical que existe em São Paulo, tão radical que uma mulher rica só pode encontrar referência para a favela ao seu lado indo até a Etiópia. Porque aquelas pessoas são uma abstração para ela, não existem, ela não as reconhece como tal. São os caras que a polícia deve bater sempre que possível e fim de conversa.

Quando a escola era pública (e não “para quem não pode pagar” – são coisas radicalmente outras) esse diálogo existia, de certa forma. Agora, um pouco, só na universidade (pública, ainda).

Pois do outro lado, na Paraisópolis, desenvolve-se a mesma ruptura: é como se as classes altas fossem parte de uma outra humanidade, que pode ser esfaqueada a troco de nada, ou de uns trocados.

Tenho a impressão de que nunca se construiu nada de decente como país a partir de coisas como essas. É alienação demais para dar certo. Não dá.

Mesmo as pessoas que conversavam no passado, que podiam divergir, trocar ideias, hoje não trocam mais nada. Vejo agressões. Meus amigos de direita não podem conceber cultura na esquerda (ela valoriza muito a erudição), o que tiraria autoridade de qualquer ideia que parta dali. Os da esquerda acham que pensamento de direita é uma anomalia geralmente concebida em proveito próprio e nada mais.

Não falo desse tanto de arrogância normal (defensiva), mas de intolerância pura e simples.

(Ah, intolerância: pronto, já falei de cinema).

É um pouco caricato tudo isso, mas não longe da verdade.

Mais cinema

“Elle” do Paul Verhoeven é uma beleza.

Vai passar na Mostra e entrar em cartaz. Voltarei a ele.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s