O Profeta

O conto abaixo eu dedico à Lilian Amarante. Foi ela quem me pediu certa vez um texto de cinema para revista Nossa América. Eu respondi que já escrevia muito sobre cinema.

Mas tinha uns contos que recuperei e completei depois de uns 20 anos esquecidos na gaveta.

Ela gostou e publicou “O Carrasco Alemão”.

Daí veio uma série a que dei o nome de “Urgentes Preparativos para o Fim do Mundo” (Iluminuras, 2014)

Queria recuperar o “Carrasco”, mas não consigo tirar do pdf, essas coisas.

Então meio às pressas dei um fim (provisório) a “Profecia” e entrego aos incautos leitores.

Um presente de ano novo que, espero, não seja assim tão presente de grego.

E, no entanto, o mapa era claro. Deveríamos passar pelos arredores da cidade e seguir a caminho de Goiânia. Cada um deveria vir a pé, sozinho, levando suas provisões, até o ponto em que, segundo as coordenadas, o profeta viria nos resgatar. Já não em sua forma humana, mas de luz. Como o reconheceremos? Não se sabe. Tudo o que ele disse é que saberemos. Tudo está, pois ajustado: as bússolas, os mapas, o papel com informações essenciais. É preciso que as bússolas estejam ajustadas, ele disse, porque não existe caminho, nós é que o faremos. Os mapas são apenas referência. Assim, as coordenadas das bússolas. Pelo que se pôde ver, Goiás Velho estará no caminho, mas não há nenhuma certeza disso. O certo é que não iremos pela estrada, para evitar que sejamos detectados.

A angústia vem dessa caminhada solitária. Se todos nos conhecemos, por que cada um deve vir sozinho? Para evitar que sejamos seguidos ou mesmo detectados por satélites ou aparelhos assim, explicou Emmanuel, aquele que tivera contato direto com o profeta. Pessoas isoladas não chamam a atenção, enquanto um grupo, mesmo pequeno, desperta suspeita.

Por isso devemos seguir separados e da maneira mais discreta possível. Nunca usando aviões ou mesmo ônibus. Caminhar a pé, pedir carona aos caminhões, mas nunca por longas distâncias. Se um disser que vai a Brasília, o ideal será disfarçar, descer num bar onde o caminhoneiro pare. Quem vai até Carandaí, que é uma cidade pequena, pode seguir a pé na direção Oeste. Recomenda-se evitar S. João Del Rey. Pode-se buscar pouso nas proximidades de Oliveira, que também convém evitar: Ibituruna ou Passa Tempo são acolhedoras. Passa Tempo tem a vantagem de receber ufólogos, de maneira que se apresentar como um deles pode representar um bom disfarce.

O mapa é claro, ainda que os objetivos sejam obscuros. Tanto que nos encontramos na grande clareira. Os cinco. Cada um seguiu o seu caminho, mas todos chegamos, com nossas mochilas às costas. Rewall diz que Ninan ainda está por chegar, mas nenhum de nós o escuta ou dá atenção. Lars olha-o severamente. O próprio Lars começa a invocação da luz. Ouvimos no silêncio o correr de um riacho, os sons dos animais, a brisa agitando as folhas das árvores, muito suavemente. Lars é o único que conheceu o profeta pessoalmente, o detentor da profecia. Todos seremos absorvidos pela luz para nos transformarmos em pura energia. Seremos os pioneiros da nova espécie, diz Lars.

Nos anos que se passaram, Lars sempre teve uma explicação para a ausência de revelação. Quase sempre o culpado é um de nós, por ficar na posição errada em relação às estrelas, por tomar pouco líquido, ou muito, por dormir pouco, ou demais.

Em pouco tempo nossas rações acabaram: recorremos à caça, à pesca e às raízes para alimentação, no que fomos ajudados pelos índios, que aos poucos se aproximaram de nós, primeiro com ameaçadoras máscaras de guerra, depois com gestos mais amistosos. Foram se tornando camaradas. Quando chegou a estação das chuvas foram eles, diga-se, que nos ensinaram a construir taperas semelhantes às suas, pois nossas cabanas se despregaram do chão e nos deixaram encharcados em mais de uma ocasião.

…………….

Estamos aqui há 10 cheias. Nesses anos apenas Rewall se foi. Mais tocado pela melancolia que o tocou quando descobriu que Ninon nunca viria do que por um mal verdadeiro. O xamã, que tanto tem feito por nós, escusou-se por não poder combater um mal tão invisível.

Lars aos poucos aquietou-se: passou do estado de inquietação à conformidade em relação às intervenções do xamã, que de início desprezara e depois exorcizara por trair nossos objetivos. Ao contrário, há dias o vi perguntando ao xamã sobre se alguma vez viu nossa luz, essa que esperávamos.

O xamã riu. Disse que homens brancos vêm até a clareira em busca da “luz grande” (kuharay guasu) de tempos em tempos. Os mais antigos contam suas histórias aos mais novos. Eles esperam por essa luz grande, perfeita, durante muitas luas. Depois o primeiro deles morre: é sempre o melancólico, aquele que sente saudades ou tristeza por querer reencontrar seu amor, seus parentes.

Os demais sobrevivem e com o correr do tempo começam a acreditar em outros deuses e em outros mitos. Mitos que os índios lhes contam. Em nenhum deles essa luz existe.

Depois de algumas luas felizes querem voltar. No passado, voltaram. Não ouviram falar mais deles. Agora, porém, já não existe caminho de retorno, desde que o caos se introduziu nos tempos, que o sol e a enchente se misturam, assim como a claridade e a neblina.

Tentamos voltar assim mesmo. Temos ainda nossos mapas e bússolas. Os mapas molharam, perderam a cor e já não indicam o caminho. As bússolas, parece, enlouqueceram. A neblina constante não nos deixa ver as estrelas.

Há dias, tenho a impressão de que rodamos. Apenas rodamos. Andamos por todo um dia para retornar ao mesmo ponto. Não sabemos mais distinguir entre as raízes boas e as venenosas. Lars comeu uma raiz venenosa. Sabia, eu acredito, que era venenosa, e a mordeu com uma força tão desmedida que pareceu despedir-se ao mesmo tempo da vida. Deivid entrou em um rio para se banhar. Antes me disse que os rios, apenas os rios, conhecem os caminhos. Entrou abriu os braços, sorriu para o sol que batia em seu corpo e se deixou levar.

Resto eu que ainda escolho minha forma de partir. Não pelas raízes, não pelos rios. Por onde?  Devo prosseguir em busca de um caminho, seja qual for. O caos se dissipa, leva as nuvens que cobriram as estrelas por tantos dias. Elas ressurgem. Uma brilha mais que as outras, muito forte, como que sorrindo, como se sua luz fosse apenas para mim. Essa luz me banha, me ocupa, ilumina meu corpo. Pergunto se estou enlouquecido. Será o profeta à minha procura? Aqui estou. Pronto para ir. Vi aquilo que vivi para ver.

 

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