Não há racionalidade no hospício

Calil na Festa Literária de Paraty em 2015. foto - Walter Craveiro
Calil na Festa Literária de Paraty em 2015. foto- Walter Craveiro

Li a já famosa entrevista do Calil ao El Pais, em que na chamada ele diz que o cinema brasileiro está estatizado. Ouço falar muito dessa entrevista. Eu a li com a atenção bem dispersa, pescando uma coisa aqui e outra ali. Quer saber? Acho que o Calil está meio maluco, ou meio perdido, o que é a mesma coisa. Ou então não entendi patavina do que ele quer.

Porque a  horas tantas ele diz que é horrível ter filmes que não são nem comerciais e nem bem-sucedidos do ponto de vista autoral. Então, o que fazer? Bem, para ele um bom exemplo é Boi Neon que se paga no exterior patati patatá.

Sim, ok, mas para chegar a Boi Neon ou Aquarius o cinema de Pernambuco pastou muito. Fez filmes que fracassaram, outros que não deram certo. E aí? Ninguém nasce feito. Em cinema menos ainda. Ninguém faz filme para fracassar. Filmes fracassam… Simplesmente.

Longe de mim dizer que estamos num mar de rosas. Longe disso. Mas: soviético? Vem cá, isso é coisa de quem não está batendo muito bem.

Tudo bem, entendo que aí existe a autocrítica de um ex-campeão da sovietização do cinema, dita Embrafilme, que a seu tempo lutou para amealhar o adicional sobre a bilheteria sob as asas estatais (para distribuição entre os acólitos da empresa) e assim acabar com a produção independente.

Mas, caramba, então que diga isso.

Não que precisa acabar com as comissões locais de cultura. Porque, se olhar bem, verá que dali saiu o cinema pernambucano que hoje está em Berlim, Cannes, o diabo.

Também comparar a França com o Brasil não vai dar em nada. Calil diz isso, no mais. O fato é   que, num cinema saudável, o produtor sabe que, se tiver o Delon, tem 400 mil entradas garantidas em Paris. Se tiver a Deneuve são 300 mil, se for a Huppert… etc.

Aqui não. Se botar o Wagner Moura não vai ter 10 mil ingressos garantidos. Aqui não funciona assim. E autor? Pensei que o Walter Salles fosse inaugurar isso, no tempo do Central do Brasil. Que nada. No filme seguinte, ninguém nem lembrava. Ninguém foi ver.

E o Kleber? Aquarius faz sucesso fora daqui. Aqui, a esquerda virou a cara porque pensou que ia topar com um filme militante. A direita… bem a imensa maioria da direita é aquele arremate de humanidade que a gente sabe. Fechou a cara por causa dos cartazes contra o golpe em Cannes.

(Estranha, a direita: quando alguém fala uma coisinha contra piadas racistas, idiotas e que tais, fecham a cara, dizem que não há liberdade de expressão e tal. Basta um cara fazer um grafite com o retrato do Chavez e vem aquele escândalo e esse papo de liberdade de expressão vai pro ralo mais que depressa).

Sigamos.

Enfim: todos sabemos como é difícil construir uma cinematografia contra o seu público, contra uma tradição construída todinha para o cinema estrangeiro funcionar.

Caraca! O Calil sabe disso muito melhor que eu. É o que o Paulo Emilio, que ele venera, disse a vida inteira. E com razão.

Então, volto ao início: não entendi.

Até concordo que nosso cinema ainda é irrelevante. Isso vem desde os anos 1970.

Não temos mais cultura cinematográfica. Ela é pobre. É difícil pedir que se construa um bom cinema sobre a ignorância. A geração do cinema novo, a da chanchada, a “marginal”, estava lá, malgrado suas diferenças, porque gostava daquilo.

Hoje você passa numa filmagem parece que está numa festa. São umas duzentas pessoas. Umas 180 sem fazer nada. Porque se o filme não é superprodução ninguém precisa de mais de 20 pessoas na filmagem. O resto é “pleno emprego”, digamos assim. É mania de grandeza, pompa, desperdício.

Tudo bem. Mas isso não vem de estatismo, nem de capitalismo, nem de sovietismo.

Ao contrário do que pensa o Calil me parece que a vida dos produtores é muito mansa justamente porque saem, basicamente, com o filme pago.

Não pode ser muito diferente. Já pensou o produtor de “Boi Neon” se o filme não tivesse ido para o exterior? Com 30 ou 40 mil ingressos não ia pagar nem o aluguel dos bois pra fazer o filme.

O que seria do produtor da Sinfonia da Necrópole (de que eu gosto mais que do Boi Neon, por sinal), com seus gloriosos 2 mil ingressos?

O Calil precisa explicar como ele pretende (ou entende que se deve) fortalecer as produtoras num quadro de consumo de imagens caótico como é o nosso, para dizer o mínimo.

Não dá para pedir racionalidade no hospício. Acho que o Calil está pedindo isso.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s