Deserto Vermelho

Não foi por falta de coisas acontecendo que esse canto aqui ficou deserto por tanto tempo.

Ao contrário, talvez tenham havido coisas demais, que me afastaram ora da possibilidade ora do tempo para escrever.

A começar por duas operações, pequenas, mas que exigem ida a hospital, recuperação, visita aos médicos e tudo mais. Quando estava tudo pronto para eu me preparar para as doenças de rotina, com seus exames de rotina, pronto: quebrou um dente. A dra. Lygia passou na frente de todo mundo.

Sim, já tinha havido Tiradentes e, para mim, mais que a descoberta de dois filmes mais que interessantes (informo que não estive lá desde o início, não vi tudo), foi o reencontro com o Rosemberg, o Luiz Rosemberg Filho, o Rô.

É um cineasta exigente, que não abre mão de seus princípios, mas é sobretudo uma das pessoas mais carinhosas que eu já conheci. Voltarei a isso um dia desses.

Com isso veio uma sucessão de fatos de que eu gostaria de falar, de comentar, de meter o bedelho.

O novo dicionário do Leão, por exemplo: Super-8. Mais um notável trabalho desse dicionarista obsessivo, solitário e inesperado: pois quem havia de esperar um dicionário de um fenômeno já antigo e, sobretudo, tão soterrado e disperso quanto o Super-8?

Em Tiradentes não estava o Orlando Margarido. Claro: puxaram o tapete dele na Carta Capital e ele ficou sem veículo para escrever. Uma lástima em todos os sentidos: lá não estava o amigo, o consultor gastronômico e, sobretudo, o cara de observações tão fortes e tão instrutivas que me acostumei a ler na Carta.

A crise bate pesado e uma das razões de eu ter sumido daqui é que tenho de dedicar uma parte de tempo grande atrás de dinheiro, senão não pago as contas.

E o começo do curso: esse momento em que tudo se junta. Corrigir as aulas, receber inscrições, escrever releases… Fora as aulas propriamente ditas.

Devo mencionar o Oscar? Passei o Carnaval bodeado: no domingo, trabalhando até 2h da manhã. No dia seguinte acordando às 9h para entregar outro texto. Na minha idade certas coisas começam a ficar um tanto pesadas.

E para chegar ao Oscar houve a maratona do Oscar. Ver a maior parte desses filmes muito chatos… Porque por mais bem intencionado que seja o vencedor, por exemplo, o “Moonlight”, duvido que alguém se disponha a revê-lo com prazer. E o filme do Casey Affleck  me pareceu uma xaropada, e sua interpretação não me impressionou de modo algum. Me pareceu um Oscar arranjado. Não quer dizer que não seja bom ator, mas o papel predispunha à interpretação uniforme que se pôde ver lá.

Também não gostei do Denzel Washington fazendo tipo. Seu filme não é nada nulo, é bem mais interessante que o do Casey, mas fica nessa categoria em que ver uma vez está mais que bom. Tirando o aspecto racial, tudo ali já é bem usado.

Já disse que gostei bastante de “La La Land”, inclusive depois de revisto. Tem essa virtude de se jogar no meio de uma multidão de clichês e depois esgueirar-se com muita classe. É um filme que, ao contrário do anterior, não busca fazer o musical vir do nada. Vai ao antigo para fazer o moderno. “So, old is new”, como diria Marlene Dietrich.

O Mel Gibson, pelo amor de Deus: quem disse que aquilo é bom? É um cara que ainda acredita em heróis. Fantástico. Todos agora só acreditamos em super-heróis. Ele, não. Depois, é aquela crença no martírio regenerador… Francamente! E o martírio, aliás, puxado a um indisfarçável sadomasoquismo. Até aí tudo bem: mas o mau gosto de corpos explodindo, ratos se banqueteando em caveiras… Não dá. Certas coisas, não dá.

Também não achei nada de mais em “A Chegada”. Tem um aspecto interessante: gira em torno de tradução, isto é, da possibilidade de compreender o que diz o outro absoluto. Não precisa ir a outro planeta: é virtude de que precisamos muito aqui mesmo.

Resumindo, concordo muito com o Mario Sergio Conti, que viu em “A Qualquer Custo” o melhor filme do Oscar. E o mais político também: a pobreza como herança é um assunto bem forte, desenvolvido como um faroeste moderno.

Claro, ninguém esperava que a Huppert ganhasse. Mas, cá pra nós, ela anda sensacional em tudo que faz.

Melhor que todos os filmes do Oscar, como inventividade e profundidade, me parece ser “Jackie”. Mas nem foi indicado, exceto por Natalie Portman e sei mais lá o quê.

Fim de Oscar.

Voltemos às minhas penas. Não. Elas terminaram.

Ah, claro, haveria muito a dizer das coisas de política.

Mas são tantas barbaridades, tão cotidianas, nossas, e não só nossas, que não dá pra acompanhar.

Fico com poucas coisas.

Primeiro, um apelo para que Dória tire sua fantasia de gari depois do Carnaval e, se faz questão de usar alguma fantasia, melhor seria a de tapaburaco. A cidade parece um paliteiro, cheia daqueles postezinhos acho que da CET para avisar que tem cratera na pista. Mas o prefeito está obcecado com seu novo papel de gari.

Segundo: ah, é fantástico morar em São Paulo. Uns moradores de perto da praça Roosevelt resolveram acabar com o Carnaval a partir de horas tantas. Não os culpo por isso. Mas será que isso é viável? Claro que a polícia do Alckmin acha que sim. E cerca a praça Roosevelt. E solta gás pimenta… E o  gás entra para dentro dos apartamentos, talvez até de alguém que tivesse feito a reclamação…

Quer dizer: para acabar com a festa fizeram um tal fuzuê repressivo que, claro, em vez de ninguém dormir com o barulho da festa ninguém dormiu com a tensão, o barulho e o efeito das bombas.

Mas, que dizer? É disso que São Paulo gosta. São Paulo não é um estado da Federação. É um estado d’alma. Uma espécie de doença.

Ah, e o caso Raduan Nassar? Tenho a impressão de que quem ganha prêmio pode agradecer a quem bem quiser. À mulher e aos filhos. Dedicá-lo aos pais mortos etc. Pode até apontar o que julga ser problemas de seu país.

Bem, o Raduan não ganhou um prêmio nacional, mas da língua portuguesa.

Tivesse um pouco de tino político, o nosso ministro fingia que esqueceu o aparelho de surdez em casa, não escutou nada, dava o premio e fim de papo.

Mas não. Resolveu dar de machão nordestino e se pôs a falar besteiras. Que o escritor não devia aceitar o prêmio se é contra o governo, etc. e tal.

Ora, se fosse um prêmio do governo brasileiro, abrir uma discussão desse tipo já seria besteira. Mas, vá lá, seria um prêmio nacional.

Ocorre que não. E aí ficou mais ou menos que nem a policia alckmista: pra acabar com o fuzuê fez outro, muito maior, só que maligno: não fala muito sobre as crenças do escritor, apenas sobre o caráter autoritário do ministro.

Me espanta esse pessoal que fica dizendo, no facebook, que ah, o Roberto Freire dos últimos tempos… Sim, nos primeiros tempos era comunista. Repetia a besteirada absurda que vinha do Kremlin e conexos. Ok, era uma religião. Mas não quer dizer que estivesse certa.

Mais certo estava o Itoby, que acaba de falecer. Foi para Cuba treinar a guerrilha. Viu que aquilo ia dar no que deu. Largou a coisa e ficou ao lado do Alfredo Guevara, no instituto do cinema. Foi, aos poucos, se tornando bem crítico ao governo cubano. Se houve oportunismo nisso? Sei lá: sobreviver era a primeira questão, e não me parece nada injusta.

Gostava do seu jeito um tanto cínico. Era sua maneira de exercer o criticismo feroz. Não o via há séculos. Desde que resolveu virar político. Foi candidato a vereador e entrou pelo cano. Também: buscou apoio na classe cinematográfica… Alguém se elege com isso?

Há mais coisas. Houve mais coisas nesse meio tempo. Acabei de lembrar de uma, mas perdi.

Ah, sim, lembrei das marchinhas de Carnaval. Proibir (ou proibir-se) o prazer de ouvir e executar “O Teu Cabelo Não Nega” e outras tantas, pelo amor de Deus. Me passo com alegria de coisas tipo “Maria Sapatão” e mesmo essa da cabeleira do Zezé, mais inventiva, me parece esquecível. Mas as clássicas? É ridículo, num primeiro momento, e deplorável em seguida.

Outra: tem uma gente que tudo que acham ruim botam a culpa no PT. Politicamente correto, por exemplo. É coisa que vem dos EUA? Já viu petista curtir algo que venha dos EUA?

Fala sério.

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