Sapatadas e filmes bons

oriosagrado-34blg2Essa música da Maria Sapatão me pareceu sempre uma coisa de muito mau gosto.

Uma moça reclama que um menino a cantou, não sei aonde. Ok. Está aí uma música que, com efeito, difunde um preconceito, não apenas o registra.

Não me oporia a colocá-la em qualquer índex. Acho um absurdo deixar essas coisas a critério “do mercado” ou “da audiência”, que são, como se sabe, um reduto de imbecis.

Não sou inteiramente contra a censura. Ela força, como certa vez lembrou Borges, o exercício da imaginação.

Já a música da cabeleira do Zezé, longe de ser uma favorita, não me parece, em todo caso, algo que estigmatize os homossexuais. Entre outras porque não existe mais a menor associação entre cabelo comprido e homossexualidade, é coisa tão antiquada quanto preconceito contra calça comprida de mulher.

Sim, as pessoas aproveitam o intervalo entre estrofes para gritar “bicha”. Mas isso é uma espécie de desabafo. É que nem xingar a mãe de juiz no campo de futebol: não tem efeito nenhum.

No fim das contas, seria melhor parar com essas coisas, que começam a beirar a loucura.

Digo isso como alguém que é contra essas discriminações, assim como com negros, mulatos, índios.

Tudo isso faz parte do setor destrutivo, do instinto de morte, da vontade de fazer o mal a outro.

Pode ser até da “natureza humana”, mas a sublimação também é, de maneira que se pode pedir que as pessoas a exercitem. Transformem a pulsão predatória em criação, em civilização.

Agora, civilização é a palavra quando se fala da Mulata segundo Lamartine Babo.

É um canto a uma forma de beleza. E esse verso “e como a cor não pega”, por favor… É apenas algo que rima com “nega”.

Até porque, sabe-se, a cor talvez não se pegue, mas se transmite. O que dá em nossa exuberante miscigenação.

Nesse ponto eu entendo muito bem a turma da Porta dos Fundos, que se recusa a fazer humor com categorias que considera indefesas (toda as mencionadas e mais algumas).

Não há como aceitar esses sem talento que se julgam perseguidos pelo “politicamente correto”. Ah, mas pelo amor de Deus, esses se endereçam à mesma plateia que canta Maria Sapatão de pulmão inflado.

Também não aguento muito esses ressentidos que por sinal fazem o maior sucesso se dirigindo a outros ressentidos. Em São Paulo isso faz o maior sucesso, mas  me parece vil.

É só isso?

Não, não é. Depois que me recuperei da domingueira do Oscar vi uns filmes das caixas Renoir e Cassavetes. Vi o “Rio Sagrado” do Renoir, que nunca tinha visto. Um filme estranho… O Renoir pode dizer quanto quiser que não existem atores ruins, existem papeis ruins. Mas alguns desses deste filme são mesmo ruins.

E, no entanto, talvez seja isso que lhe dá uma graça amadorística, de maneira que certas partes do filme não me saem da cabeça.

Do Cassavetes revi, até agora, “O Assassinato de um Bookmaker Chinês”, que eu adoro. Os outros são “Faces” e “Noite de Estreia”.

No Renoir temos ainda “A Cadela” (com um belo documentário não creditado sobre o Renoir do início do som), o não menos formidável “A Besta Humana e o americano “Amor à Terra”.

Considerando que a Versátil lançou também uma caixa de terror que ainda não abri, o que não me falta é coisa para fazer.

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