Super-Heróis

Uma coisa que já há algum tempo me intriga é o retorno tão forte dos super-heróis.

Eles começaram a se impor no entreguerras, salvo erro, com o Superman à frente. Entende-se: havia a percepção de que um conflito de dimensões universais estava para acontecer.

Nada melhor do que um bom protetor vindo de kripton cheio de vigor.

Superman já tinha o elemento de identificação poderoso que até hoje consegue garanir a fidelidade dos fãs:  trata-se, na aparência, de um sujeito comum, que no momento certo se transforma.

É o que todos nós, comuns, gostaríamos de ser, sonhamos em ser: um sujeito frágil em aparência, mas secretamente fortíssimo.

Quem mais veio depois não fugiu ao figurino: Batman, Capitão América, Homem-Aranha, Punho de Ferro.  Pegue quem quiser.

Mas o que me intriga é por que a família Marvel e qualquer outra família retorna com tanta força. Eu entendia bem no tempo em que eu cresci. A Segunda Guerra já tinha passado, mas guerra fria ainda existia, e com ela a perspectiva de guerra. E por guerra entenda-se uma coisa de homens fortes, valentes, bravos, corajosos, heroicos, dispostos a morrer pela pátria.

Bem, hoje tudo isso não passa de  machismo, para começar. A guerra é uma coisa de armas à distância. E não há perspectiva desse tipo de guerra. São localizadas. São terroristas. É outra coisa.

Penso ter avançado um pouquinho na tentativa de entendimento. O super-herói de hoje, ou seu sucesso hoje, me parece que corresponde à re-religiosidade do mundo. Esse fenômeno dos últimos 20 ou 30 anos, que talvez se deva ao fim do comunismo. Na falta de uma religião laica, como o marxismo, voltamo-nos a uma religião mística mesmo.

Pode-se sempre pensar que existiu sempre uma enorme quantidade de anticomunistas ou de pessoas contra o comunismo. Acredito que, à parte os mais pios, poucas pessoas entregavam-se de fato a Deus. O materialismo, admita-se, triunfava.

Desde então cresceu enormemente a fé. Ou as fés: a católica, a evangélica, a muçulmana. Mesmo na religião judaica, que não é proselitista, a crença em uma integração, em uma superação das diferenças religiosas (ditas “de raça”)  perderam atualidade em favor de um judaísmo cada vez mais febrilmente religioso.

E o super-herói hoje é, me parece, bem isso: uma emanação de Deus. É dele a força que pode nos proteger do mal (atentados etc.) que habita o acaso e que é representada pelo super-herói. Ele é, talvez, uma espécie de prova da existência de Deus, como foram outrora os milagres.

Ele protege as crianças e as contamina com a crença de que também elas, filha de Deus, podem superar qualquer obstáculo. As crianças e as pessoas infantilizadas seriam, nesse caso, os grandes clientes dessa classe de protagonistas.

Não sei se é uma explicação boa. Ao menos é uma. Até agora há pouco não tinha nenhuma. Era um mistério total a adesão de tantos espectadores a esses filmes tão repetidos.

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