Narradores e Narrativas

Humilhada e ofendida, a palavra “narrativa” tornou-se nos últimos meses uma variante eufemística de mentira.

Como se, com tal narrativa, fosse possível dizer qualquer coisa – e qualquer coisa tomaria o lugar do fato.

Digamos que hoje existem duas narrativas atravessando o real brasileiro. A questão: será o Estado que corrompe a iniciativa privada ou será a iniciativa privada que corrompe o Estado?

A primeira, inequívoca opção do juízo do Paraná, da Polícia Federal e da PGR iam para a primeira possibilidade.

Tanto que quem fez delação premiada não foram os políticos, foram os empresários.

Verdade que ali a questão era prender Lula, encontrar qualquer coisa contra ele, a sua esposa, os seus filhos, qualquer parente, amigo ou fundação.

Nesse sentido, só o Estado (ele fora presidente) corrompia.

Desculpe quem, de boa fé, entende que não é assim. Mas tome o noticiário devidamente vazado (pelos acusadores mesmo): era o apartamento que ele não comprou, o sítio que não era dele, o dinheiro que recebeu por uma conferência (ah, se a gente fosse ver cada um desses: lembra daquele ministro que fez 80% de inflação em um mês e depois virou um prestigioso palestrante?).

Passado o tempo, cumprido o primeiro objetivo, que era tirar o PT do poder, vem a delação da Odebrecht. Ela complica um pouco as coisas, porque, mais que as demais empreiteiras, era uma espécie de Estado dentro do Estado.

Não há partido, não há político de alguma relevância que não tenha entrado nas delações.

Passado o tempo, a delação da Odebrecht deixa a “narrativa” original (aquela desenvolvida por vários meios de comunicação), verdadeira? Será difícil saber. Quem vai atrás da verdade é a PF. A PF não pega nem contrabando de cigarro na fronteira do Paraguai…

Então surge a segunda “narrativa”. Talvez o Estado, os políticos, não sejam tão corruptos assim. Talvez a máquina de corrupção da Odebrecht (entenda-se: empreiteiras) é que corrompa o Estado.

Coisa de que se suspeitava desde os tempos de Jânio Quadros (ou alguém passa mais de dez anos sem fazer nada e vivendo de um dicionário feito no escuro e de que ninguém nunca viu a cara?). Suspeitava-se não, era uma certeza: mas não havia quem corresse atrás.

Pois bem: a “narrativa” deslocou-se.

Foi ao centro: nem cá nem lá.

Se for ao fundo de tudo, nosso salvador “juiz Moro”, mais nosso mentor “PGR”, se tornarão os Simão Bacamarte do século: não sobra nem Estado nem Iniciativa Privada.

Com mais Trump e aquele maluco coreano, que dizer?

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