Ritmos alucinantes

Talvez eu tenha sumido daqui por algumas razões, mas não importa. A principal é o ritmo alucinante com que os usurpadores atuais estão mexendo no Brasil.

Eu vivi, ainda adolescente, o golpe de 1964. Houve coisas deploráveis, e o anticomunismo era um tanto maníaco, embora não discrepante do clima de guerra fria da época.

Pois bem, posso garantir: existe uma diferença gigante entre o que houve então e o que acontece agora.

Pode-se concordar ou discordar, pode-se dizer as piores coisas dos militares, etc., mas há uma diferença fundamental em tudo isso: eles tinham um projeto para o Brasil, eram esses caras que acordam hasteando a bandeiras, essas coisas.

As mudanças, sempre se pode concordar ou discordar delas, faziam parte desse projeto. Elas aconteceram num ritmo muito menos frenético. O que acontece agora é enlouquecido: a toque de caixa se fazem reformas profundíssimas, como se fossem uma leizinha de nada.

Como se soubessem que o tempo é pouco, então mandam bala.

Não comento o que não entendo, então não vou falar da necessidade ou não dessas reformas todas. Mas o ritmo é alucinante, ninguém quer saber o que querem ou temem os interessados (a população), nada disso.

É assustador, também é deprimente.

MinC

Ah, nessa área não tem conversa. Desde o caso “Aquarius” trata-se de vingança pura e simples, permanente, contra os artistas. Contra o cinema em particular.

Eis um outro departamento em que os militares foram muito mais inteligentes.

Claro que houve intervalos, como o governo Médici. O negócio dele era ouvir rádio de pilha e deixar que os torturadores baixassem o pau.

Mas, no geral, até o que era ditatorial tinha a vantagem de ser mais aberto do que agora, onde tudo parece normal.

Abra um jornal estrangeiro: só aqui existe quem acredita nisso.

Trajano

“Na Sala do Zé” entrevistou, outro dia, o presidente Lula. Ou, em poucas palavras, José Trajano rompeu a última pinguela, se pinguela ainda havia, a vinculá-lo à imprensa tradicional.

Mas o fez com classe. Até agora o que eu tinha visto desse programa achei meio sem graça, porque eu sempre admirei a maneira como ele é capaz de misturar linguagem, futebol e vida em geral. Quando sai fora o futebol ele parece tatear.

Mas aí algo mudou. Estava ali um personagem, Lula, que não costumo ver. Nas fotos ele está sempre barbudo, como se o desânimo o desleixasse. Aparece com expressões invariavelmente raivosas. No programa, nada disso: um cara bem disposto, falante como sempre foi.

Digo dele o mesmo que dos militares: dá para concordar ou discordar do que ele fala, mas existe ali, ainda, um projeto. É coisa meio rara.

De todo modo, vê-lo assim, livremente, sem palavras editadas e tal, me reforçou a impressão de que essa Lava Jato só existe para perseguir o Lula. O resto é meio que um entorno, um acompanhamento, eu diria, se a gente estivesse num restaurante.

De todo modo, o que me parece certo é que isso deve mudar a cara desse programa do Trajano. Ele vai se tornar mais político, e mais político do lado esquerdo da atual luta de classes.

Que não é bem luta de classe, tenho a impressão de que é uma tentativa de esmagamento final dos pobres, seja até pelos pouco disfarçados e muito eloquentes jatos de Lava Jato que o Dória despeja nos sem-teto.

Uma sugestão  

Não sei se isso mudou, mas em Paris, em outros tempos, quando chegava o inverno, abriam as portas do metrô à noite, que assim era transformado em abrigo.

Isso lá, onde número de miseráveis é (ou era) quase insignificante. Aqui, onde é imenso, e cada vez maior, isso seria uma solução aceitável: já que não há albergues, o pessoal que mora na rua poderia ficar até de manhã, até a hora em que abre o metrô, lá dentro. Depois, sairiam. Não é tão difícil de operacionalizar uma coisa assim. Desde que não se tenha medo ou desprezo, ou ambos simultaneamente, pelos pobres.

No cinema

Ah, no cinema nada que me mobilize muito. Fora “Twin Peaks”, claro. Ano até aqui bem fraco.

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