Sobre Dunquerque

É bem raro discordar de dois caras tão respeitáveis quanto o Zé Geraldo Couto e o Carlos Alberto Matos. Mas o fato é que isso aconteceu em relação a “Dunkirk”, que começa por ser uma monstruosidade no título brasileiro.

Talvez por não ter visto o filme em Imax, não tive em momento algum a sensação do Carlos Alberto, a saber: de que a primeira meia-hora era de uma barulheira de estourar os tímpanos.

Na projeção em que eu estive não senti nada disso, nem de longe. No mais, acho o som (não a música, mas os ruídos) uma das qualidades do filme.

Achei até que o filme começa bem: o lance do menino ainda na cidade, tentando chegar à praia, tendo que passar pelas barricadas dos franceses, é bem ok. Logo vem uma sequência decepcionante: o cara que rouba as botas de um morto e ao mesmo tempo o enterra devia ser bem preparada. Como está não tem o menor efeito.

Já o J.G. diz ser por princípio contra filmes de guerra, opinião que partilha, aliás, com a Denise Mesquita. Contra filmes de guerra porque espetacularizam a guerra.

Mas, nesse caso, dá para ser contra filmes de faroeste, que espetacularizam a matança dos índios, contra os Titanics, que espetacularizam desastres trágicos, contra melodramas, que espetacularizam o sofrimento. Enfim, mais fácil logo ser contra o cinema inteiro.

Acho que esse argumento, para ser franco, foi um pouco impensado. O que eu faria com os Samuel Fuller, com os Walsh, Ford, etc. de guerra? O que faria com o magnífico “Patton”? (e nem por isso Patton deixa de ter um lado abominável). E a sangueira toda de “Ivan o Terrível” seria desprezível. E… Bom, acho que já deu para ficar claro meu ponto.

Já Elio Gaspari achou o filme uma das maravilhas do universo porque tem a ver com a política ousada de Churchill, propiciando a enorme retirada, num momento que as tropas estavam encurraladas e sob pressão nazista na França.

Muito bonito, só que o argumento é pueril: nada disso está no filme. Não Churchill contra Halifax nem nada do tipo em questão.

Para resumir, o certo é que fui com esses comentários na cabeça ver o filme. E quando isso acontece, quando gente que entende de cinema fala muito mal de um filme e gente que não entende bulhufas fala bem, em suma, quando não espero nada do filme não é raro que comece a lhe encontrar virtudes.

Não foi o que, no caso, aconteceu.

Nele há três elementos muito bem definidos: a praia, onde os soldados esperam pelo embarque, debaixo de bala; o combate aéreo; o mar, com os navios (também torpedeados à beça) e os barcos dos civis cedidos à Marinha ou a lá quem seja.

Bem, a pretexto de uma narrativa inovadora, Christopher Nolan faz um filme que segue aos trancos e barrancos, de tal modo que um avião pode ser atingido com 20 minutos de filme e cair com 60 minutos. Corta-se do avião durante o dia para um naufrágio durante a noite na cara dura.

Sim, poderia ser uma revolução narrativa. Não é. É apenas uma confusão pouco competente. E isso porque o filme não dá nem de longe a medida do sacrifício do que tenha sido essa retirada. Essa geringonça narrativa apenas serve para disfarçar o que acontece aos sopetões.

Ou seja: em um momento, as tropas estão cercadas, atacadas, completamente indefesas na praia. Um pouco depois, como por uma espécie de milagre, todo mundo já está na Inglaterra. Caramba!  O negócio vai aos saltos. É um desastre narrativo.

Outro aspecto catastrófico: estamos diante de um épico sem personagens. Digamos que há um, mas frouxo como tudo, que é o dono do barco civil. Mas o personagem é tão ruim que até ele, que é um ótimo ator, por vezes se ressente da inanição do papel.

Os diálogos, quando não são pobres, são, com frequência insuportável, ridículos.

Agora, elogio da guerra eu não vi não. Existe a reconstituição, trôpega, de um episódio histórico relevante que por pouco não se reduz ao mero burlesco.

Elogio da guerra está a toda, sim, no novo “Planeta dos Macacos – A Guerra”  – se não me engano o título é esse.

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Um comentário em “Sobre Dunquerque

  1. Oi Inácio, puxa, tive dificuldades para lembrar onde expressei essa opinião. Muito embora ela seja verdadeira, talvez eu não tenha tanta convicção quanto o JG já que balancei perante seus argumentos (pegou no breu o exemplo dos faroestes, que simplesmente a d o r o). Bom, o fato é que, agora, me sinto compelida a ver o filme para saber o que eu mesma penso sobre. Vou.

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