Loteria, Bingo, Oscar

Não sei dizer como isso aconteceu, mas a competição pelo direito de competir ao Oscar tornou-se o momento mais passional e, a rigor, mais importante do ano cinematográfico.

Que importa se a taxa de ocupação das salas cresceu ou não, se o ministro da Cultura deixa o Netflix sem nenhuma obrigação com o filme brasileiro.

Importa só se tal filme vai tentar ir ao Oscar ou não.

Acho que isso começou com “O Quatrilho”. A ideia geral é: se um abacaxi daqueles entrou, qualquer um pode entrar.

E vale tentar até, como no ano passado,  indicar um filme qualquer só para não mandar o filme do inimigo político.

É lotérico.

Depois, este ano, a apresentação de gala: os caras da Academia Brasileira de Cinema (ou que nome tenha) apresentando o nome do vencedor na … Cinemateca Brasileira!!!

Sim, na Cinemateca que o MinC vem tentando desmontar desde a gestão Marta Suplicy.

Aliás: alguém se lembrou de perguntar como vai a situação do restauro no Brasil?

Como está a preservação de nossos filmes?

Dito isso, acho que não estamos no ano passado, quando “Aquarius” se impunha por uma série de razões tão grande que nem precisam ser lembradas.

Pois bem, “Bingo” me parece um filme honrado. À parte alguns diálogos ridículos mais ou menos no início, é muito bem escrito, tem boa direção de atores e, para resumir, é de uma grande eficácia.

Mas, me desculpe, aquilo não se aguenta. Bozo (ou Bingo) é um produto da TV. O ator que o interpreta não tem o direito de dizer que o interpreta. Ou seja, que é responsável por ao menos parte daquilo.

Um ator, que logicamente deseja ser reconhecido, tem de se esconder se quiser manter o emprego.

Esse ator bebe e se droga. A culpa dele se drogar e beber é, claro, da bebida e da droga.

É difícil ser mais tautológico.

Com que então a TV e sua engrenagem maluca não tem nada a ver com isso.

As coisas são assim porque o ator era meio destemperado e dado a prazeres…

Bem, no fim ele se arrepende de tudo. Ele é que se rende à mocinha e vira crente.

Claro, pois “Bingo” é, mais que um filme, uma questão de cálculo. Passamos pela TV elogiando o espetáculo e resguardando a TV. Depois botamos a culpa dos problemas do ator no prazer (sexo, drogas e bebida). Por fim, em plena desgraça, é calculista o bastante para omitir os mecanismos da TV e ao mesmo tempo jogar o problema para o alto. Isto é, para Deus: ele que resolva, porque também há o público crente a conquistar.

Eis, em resumidas contas, o ungido da política cinematográfica oficial: bom artesanato, muito oportunismo, nenhuma ideia a reter.

Palpite: não vai dar em nada.

Opinião: nosso melhor candidato para esse tipo de torneio seria “Era o Hotel Cambridge”.

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