Dick Cheney e a arte da conspiração; “A Favorita” e a arte da enganação

Christian Bale como Dick Cheney, com Amy Adams como Lynne Cheney. Fotografia de Matt Kennedy/AP

É um ano estranho, esse do Oscar. Conto um punhado de filmes bons, muito bons, ótimos. “Green Book” é surpreendente: límpido, seco, evitando os sentimentalismos, sofre um pouco apenas com a música, mas conta com um Viggo Mortensen iluminado.

“Infiltrado na Klan” só é surpresa por ter entrado no Oscar. “Roma” não é surpresa alguma, mas é um filme que me parece cada vez mais ok, sem mais. Em todo caso parece que o adoram em Hollywood.

Mas nesse ambiente liberal também dá para adorar “Vice”. Não sei se gosto tanto assim. Penso, no entanto, que é um filme importante. É importante que exista, que tenha sido feito, que esclareça sobre as tramas, o gosto do poder, o sadismo e a burrice dos republicanos, em especial os da direita republicana, o dito tea party.

Este, justamente, é que me parece um tanto negligenciado no filme de Adam McKay. O centro do filme é o vice-presidente e sua família, especial a ambiciosa Lady Macbeth que o leva por diante.

Apesar da ótima interpretação de Christian Bale e da maquiagem impecável, a grande personagem é Lynne, a mulher de Chaney.  Ele é em si um tipo desinteressante. Enquanto ela é um tipo complexo, pois construída como uma mulher inteligente, ambiciosa e ao mesmo tempo tremendamente sulista, atrasada, caipira. É o tipo mais sutil e também mais forte do filme.

O fato é que as tramas de Cheney e asseclas se parecem demais com o que acontece com essa direita tosca, desumana, plutocrata que tomou o poder no Brasil. Isso é um tanto angustiante de pensar: como essa gente manobra bem, como se articula bem.

Mas “Vice” não é tão brilhante nesse aspecto. Cheney é o centro, repito, o que deixa as articulações do Tea Party um tanto de lado.

No Brasil, tivemos uma articulação impecável entre políticos, judiciário, parte relevante da imprensa, mentiras escandalosas via redes sociais, vazamentos estratégicos (que pessoas decentes considerariam constrangedores), militares da reserva etc.

Claro, o PT deu uma força tremenda, seja pelas tratantagens próprias, seja por tudo que os caras do PMDB roubaram, seja por ter escolhido um cara com uma peruca ridícula para ministro do Supremo e se espantar depois com as decisões dele. Enfim…

Seja porque deixou passar sem abrir a boca o golpe dado no Paraguai. Golpe sem golpe, Golpe legislativo. Exatamente como depois haveria no Brasil. Era um ensaio geral. Outros vieram a seguir.

Divago antes de voltar a Cheney. A política americana é de dominação. Quem se opõe está sujeito a isso. Geisel e Lula perceberam que havia saídas. Dilma, nunca. Temer não queria sair, queria entrar: era o golpe em pessoa, arrastando consigo o mercado de valores.

Enfim, desculpem, o tema me leva para cá e para lá. É o filme e não é.

Queria falar do que me irrita: uma série de procedimentos tipo explicativos que mais parecem documentário de Michael Moore.

Estranho, porque em “A Grande Aposta” ele trabalhou um tema muito mais complexo (a relação entre a crise de 2008 e as desregulações promovidas pelos republicanos, a idiotice do público (isto é, nós), que nunca entende as reais motivações dos políticos.

“Vice” tem momentos no entanto brilhantes. Os referentes à mulher, à filha gay, ao apego ao poder… Não é isso: são as purpurinas que acompanham o brilho real que me irritam um tanto.

E tem um comentário excelente, um tanto Michael Moore, mas excelente: estamos num tempo complexo, trabalhamos cada vez mais para receber cada vez menos. Queremos no governo algo que pareça simples, óbvio. É a isso que respondem os atuais republicanos, tanto quanto aqui os bolsonarianos.

Resumindo: um bom filme para ver, menos bom para rever. Ótimo que tenha sido feito, importante como reflexão sobre o poder, o desejo, o cortejar o poder, sem falar dos métodos sujos da extrema-direita, que a gente conhece de trás pra diante.

Já “A Favorita” é um roteiro que vai de nada a parte alguma, tem uma direção das mais escalafobéticas que eu já vi, cheia de panorâmicas com grande angular, dessas de dar enjôo. Assim que escutei os primeiros acordes da música quis ir embora: o cheiro de xaropada estava no ar. Saí do cinema correndo, tentando pegar um outro filme em um outro cinema, perto dali. Os outros filmes estavam lotados. Para não ficar sem ar condicionado, entrei de novo na “Favorita” e lá fiquei. O ar condicionado estava ótimo. O filme é um dos mais bestas que eu já vi..

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