E, de repente, do nada, eclode uma campanha contra “Coringa”, como se o filme pudesse ser responsável por assassinatos em massa que viessem a acontecer nos EUA.
Entendo que a mãe de uma moça morta durante a projeção de um dos últimos Batmans tema por novos assassinatos.
Porém esses assassinatos massivos não precisam de filme para acontecer nos EUA. A julgar pelos argumentos, seria o caso de fechar todas as escolas secundárias de lá…
Mas o que prevalece é, de novo, como desde 1900, a crença de que o cinema é que determina o comportamento das pessoas.
Em parte pode até determinar, entre outras coisas, como as pressões sociais, a repressão sexual, a facilidade de acesso às armas, a frustração entre a distância do sonho americano com a realidade etc.
“Coringa” é um filme com cenas brutais, é verdade. Mas qualquer Batman em que tenha figurado o personagem, aliás, qualquer Batman supõe cenas de violência.
Mas, como bem disse Joaquin Phoenix, este Coringa é mais algo para que se reflita sobre a violência do que outra coisa.
Mas parece que refletir um pouco dói.
“Coringa” é um filho dileto do mundo das celebridades. Do neoliberallismo também, e da TV. Os dois formam o par que cria esse mundo em que ou o sujeito é um célebre ou é um nada. Eis a diferença entre os personagens de Phoenix e De Niro no filme. Ambos fazem piadas ruins, mas um deles faz as piadas ruins de que o público ri.
Entre a dor e o nada, eis como está o Coringa.
É um belo e surpreendente filme, este de Todd Phillips.
Se algum louco entrar no cinema e matar gente, acredite, não tem nada a ver com o cinema, exceto por essa campanha contra o filme, que, inconscientemente ou não, acaba se tornando uma propaganda dos assassinatos massivos.
