Autor: Inácio Araujo

Bolsonaro governa

Acho muito estranho ler, com freqüência, que Bolsonaro devia parar de se importar com miudezas, parar de falar bobagem e governar.

Governar é o que mais tem feito. Ao menos tenho essa impressão. É um raro caso de político que desenvolve exatamente o programa que prometeu por em prática na campanha.

Alguns itens:

  1. Acabar com defesa do meio ambiente – desmatar, ocupar terras indígenas, explorar minérios, gado e o que der. Enfim, perseguição a todo ambientalismo.
  2. Militarização – Cada vez mais postos importantes vêm sendo ocupados por militares.
  3. Perseguição à educação – a pretexto de marxismo cultural ou qualquer outro.Vale para universidades, escolas secundárias, financiamentos de pesquisas, corte de bolsas, ameaça de fechamento da Ancine etc.
  4. Alinhamento irrestrito aos EUA – dispensa comentários: teremos o primeiro embaixador em Washington pronto a defender os interesses norte-americanos no Brasil
  5. Autoritarismo crescente – É a parcela Moro do pacote, um tanto atrapalhada pelo The Intercept. Mas não desativado, longe disso.
  6. Passar nos cobres subsolo nacional – em especial o pré-sal, mas refinarias e fatias da Petrobras entre outras vão indo embora; aliás, o esvaziamento da Petrobrás, sua transformação em produtora de matéria prima vai se consumando.
  7. Reforma da previdência – check.
  8. Milicianização – Isso não era promessa, mas um não-dito de campanha
  9. Estímulo à violência – Não apenas lutando pela liberação das armas, mas por palavras, idéias e gestos.
  10. Descaracterização da república leiga – “Deus acima de todos”
  11. Perseguição à ciência – Demissão de profissionais que produzam dados incômodos ao governo (vide Inpe)
  12. Perseguição a ONGs – Isto é parte do autoritarismo, mas tem sua autonomia: vale para toda intervenção exterior ao governo que contrarie o governo
  13. Ataque aos direitos humanos – medalha para torturadores. Não precisa dizer mais nada.
  14. Liberalização da economia – ver projetos da Economia, vivos e ativos.
  15. Censura – ataques à Ancine em particular e ao cinema em geral; ameaças ao The Intecept.
  16. Perseguição à imprensa – Ou que outro nome se pode dar à medida que torna a publicidade legal gratuita, isto é, corta fonte de renda dos jornais da noite para o dia.
  17. Minorias – outro que dispensa comentários

 

A lista poderia ir mais longe.

Quem quiser lembrar e acrescentar, pode.

Listo aqui apenas as medidas que estavam mais ou menos explicitamente formuladas durante a campanha e de que melembro.

Não digo nada de milícias e seu acobertamento, de crimes enfiados debaixo do tapate (Marielle), de assassinatos no campo nunca resolvidos, quando em menos de uma semana se descobrem os hackers que teriam invadido celulares governamentais ou próximos disso.

Não falo de tratantagens envolvendo o presidente e filhos.

Tudo isso é outro departamento.

Apenas digo que Bolsonaro governa e muito.

Desgraçadamente, para o Brasil.

 

 

 

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Amor, o desconfortável amor

Dira Paes e Julio Machado em “Divino Amor” (2019) – (Sundance Institute/Divulgação)

Não me lembro de um diretor de cinema que tenha evoluído tanto e tão radicalmente quanto Gabriel Mascaro. De seu documentário em que desfazia dos habitantes de coberturas recifenses (“Um Lugar ao Sol”), parece ter tirado a lição de que um cineasta não pode se por acima de quem é sujeito de seu filme, justamente porque a transforma em objeto.

Passo por “Ventos de Agosto”, que me pareceu um exercício esteticista, destes a que artistas plásticos não raro se dedicam, quando pegam uma câmera HD. “Boi Neon” foi para mim, portanto, uma surpresa enorme, com sua sequência de paradoxos, sua capacidade de unir o novo e o tradicional, o opaco e o brilhante, o local e o geral.

“Divino Amor”, me parece, supera o que veio antes. Existe ali uma mulher que acumula as funções de neo-evangelista (é isso mesmo?) e burocrata. Ela zela, burocratizando a burocracia, para que os casais em litígio se reencontrem, se reconciliem.

Isso é narrado por uma voz infantil que, por estranha, deixa a sensação de estar desfazendo da personagem. Ela é uma burocrata a serviço de Deus e faz o que pode para ter um filho.

Ela participa da seita Divino Amor. Com seus dois sentidos, o amor é divino em si, mas também aqui estamos tratando do amor de Deus pelos seus.

O fato é que, apesar de remédios e exercícios, o marido mostra-se incapaz para a procriação.

Vou resumir, e quem acha que é importante não saber o final que vá parando a leitura por aqui.

A moça termina por engravidar, sim. À noite, no serviço, confere todas as fichas dos participantes da  Divino Amor e o DNA de nenhum deles confere com o DNA do pai.

Esclareça-se, ela é uma mulher fiel, ao menos até onde ela própria sabe.

Ela procura o pastor o drive thru para conversar sobre o caso. O pastor não quer papo.

Ela tenta voltar ao Divino Amor, mas neca: só entra acompanhada.

Tenta falar com o marido, ele resolve sair de casa.

Ela tenta convencer a todos de que é o caso de uma concepção imaculada, ou, em outras palavras, de um milagre.

Mas, esse pessoal que vive às voltas com milagres por dúzias, por pencas, não acredita na hipótese do milagre.

E por que não? Afinal, esses neo-evangélicos acreditam na vinda de um outro Messias, hipótese que roubaram sem nenhuma cerimônia do judaísmo (com a diferença de que para o judaísmo não existe segundo Messias, pois não reconhecem o primeiro).

Se houve um não pode então haver outro? E não seria essa mulher tão dedicada a Deus e sua causa um receptáculo digno do novo enviado?

Ninguém acha isso Ela, ao contrário, está convencida.

No final, a criança nasce e outra revelação se faz: a voz que ouvimos era a do bebê.

Um bebê sem registro, sem nome. Talvez o Messias que nós, novamente, não soubemos receber.

Talvez. Pode ser outra coisa, não pode?

Sim, pode ser o antiCristo, como o Bebê de Rosemary, algo que o estranho de sua voz, o tom ligeiramente sarcástico em relação ao comportamento materno, sugere.

Eis a formidável ambigüidade a que nos conduz o filme de Mascaro. Embora ele mesmo fale no “Five” de Kiarostami como a grande revelação cinematográfica de sua vida, eu vejo outra coisa, talvez erradamente, mas, paciência, é o que vejo: uma imensa ambivalência entre a fé infinita de Dreyer (como a moça do filme ele acredita que só existe fé quando ela é completa), e o demoníaco do Polanski de “Bebê de Rosemary”.

Do Bem pode nascer o Bem, ok, mas do Bem pode também nascer o Mal.

Eis um filme tão original quanto desconfortável.

P.S. – Não me lembro o nome da moça do filme e estou sem tempo de verificar os nomes no Imdb. Mas acho que podemos sobreviver a isso.

De além-túmulo

O verdadeiro feitiço, aquilo que encanta a tantos no filme de Petra Costa, é sua voz. Uma voz de além-túmulo, que bem representa o estado atual da esquerda no Brasil. Morta? Talvez apenas em catalepsia, à espera de que Lula ressuscite no terceiro dia para iluminar-nos.

Eis a esperança que freqüenta “Democracia em Vertigem”, que melhor seria denominar democracia em farrapos, que é esta nossa, onde a cada dia a podridão parece se espalhar mais por toda parte.

Quanto ao filme, eu teria uma pilha assim, ó, desse tamanho de reservas a fazer-lhe. Mas é preciso reconhecer que há imagens muito boas, devam-se ou não à intimidade de Petra com o poder.

A mãe dançando na avenida num dia de vitória é coisa bonita. A entrevista com Bolsonaro é burlesca. Ele tinha no escritório de deputado o retrato de todos os presidentes militares. Diz que a esquerda odiava o Geisel. Mas não tanto, certamente, quanto o Geisel o desprezava.

O tom é de lamento e expressa bem a impotência da esquerda. Não mobiliza nem sindicatos, nem sem terra, nem ninguém. Não tem muito nada a dizer.

O Ciro Gomes rodopia perdido entre suas idéias, que são fartas e não raro boas, e sua incrível vocação para a solidão. É o mais fiel seguidor do Brizola que eu conheço. Claro, o Lula lhe passou uma rasteira que, pessoalmente, acho que arrastou o país inteiro. Mas agora ele se faz de emburrado, não fala com o Lula, não visita, não nada. Antes, ele não fez aliança porque o tapete puxava seu tapete. Agora não faz porque não vai se aliar a ninguém. Quem pode se aliar a ele, senão a esquerda?

Enfim, essa é a situação da vertigem de Meunière que atinge a esquerda. Em vez de fazer congresso, devia tomar Labirin, para ver como se encontrar no dédalo.

A Petra Costa acho que cresceu vendo telejornais da Globo. Numa boa parte do filme mata as imagens com o discurso. A Globo é assim: as imagens não falam, não dizem, não pensam e não mostram. Elas chegam embaladas pelas palavras que já trazem A Verdade embalada. Notícia em versão supermercado.

Quando não é assim, ela entope o filme de música. Me lembra o artigo do Rivette sobre a abjeção. Não acho abjeto, mas sim que beira a imoralidade, essa mania de usar a música para criar um significado que não existe.

Para jogar sentimentos goela abaixo do espectador.

Enfim, meus amigos de esquerda parecem gostar de ir ao cinema para se lamentar.

Eu também me acho de esquerda. Acho que hoje sou anarco-ecolô. Algo assim.

Não. Não agüento essa choradeira. Aquele filme “O Processo” era a mesma coisa. Parece que está todo mundo às cegas.

Professor  Haddad

Até o Lula. Ungiu o Haddad seu sucessor. Haddad é professor. Quando fala, parece um Alckmin de esquerda. O elitismo está na sua pele. Não vai superar isso. Eu gosto dele. Achei um ótimo prefeito. Não se reelegeu porque tentou legar ao povo paulista noções de vida civilizada. Paulistas e paulistanos apreciam a barbárie. Que fazer? Não. Ele será um deputado, um senador…

Moro e seus pés de barro

Dito isso, gostei bem de ver os pés de barro do Moro. Barro? Melhor dizer logo lama.

Nunca gostei dele. Couraça caracterológica bem como descreve Wilhelm Reich.

Mas, hoje, o que me escandaliza não é tanto a sujeirada processual que vai aparecendo a cada semana, no ritmo do Greenwald.

É sua incapacidade de usar o subjuntivo. Coisas como “ele a gente manter isso vai ser bom”.

No exemplo só o “manter” é original dele. A absoluta incapacidade de usar o subjuntivo.

Noutros tempos eu imaginava que os juízes seriam homens sábios. Os mais sábios entre a gente do Direito. Mas o Moro, tem dó, é um capiau daqueles. Quem leu o texto que ele escreveu no concurso? Ou concursos para juiz agora são por cruzinha? Ou, pior, os outros concorrentes eram mais ignorantes que ele.

E, quando resolve demonstrar cultura solta uma frase em latim.

Como dizia o Millor Fernandes: se queres enganar a ti mesmo, engana-te; aos outros é mais difícil.

Conheço esse latim. Meu tio Ary, velho advogado, tinha um Dicionário de Brocardos Jurídicos. Frases em latim para a ocasião certa.

É na mão de gente assim que estamos. Quer dizer, que está o Lula.

E há o Ciro solitário, o Boulos que ninguém escuta, a Tabata que o Ciro quer ver pelas costas, a Marina que há muito tempo está no além-túmulo.

E depois há o Bolsonaro produzindo factóides ridículos enquanto pelas costas vai desenhando o fascismo nosso de cada dia, o fanatismo tipo AS, as milícias tipo SS. E em vez dos judeus ele pretende chegar à solução final dos índios brasileiros, da floresta, do que der. É pulsão de morte em pessoa.

Chega. Me cansei de mim, dessas tolices, desabafos e tudo mais. Fazer algo que preste.

O reverso da montanha

De Volta à Montanha de Gabriel

Eu gostava do “Gabriel e a Montanha” pela sua generosidade, até pela generosidade do personagem, que larga o que poderia ser uma boa vida aqui no Brasil para se aventurar pela África, para conhecer outros mundos. Gosto das conversas que ele mantém com as pessoas, aprecio sua curiosidade e a maneira como foi filmada.

Mas o Sergio Alpendre escreveu uma dessas coisas fantásticas que a crítica de tempos em tempos produz. Ele diz que gosta mesmo é do fato de a natureza ter se vingado do rapaz, em quem ele percebeu uma arrogância que me tinha passado despercebida. O jovem mimado queria, a rigor, vencer a montanha, estabelecer sua própria lei no lugar da natureza. Recusou todos os conselhos de prudência e foi em frente até se estrepar. É como se a montanha fosse.

Ora, Gabriel é a arrogância em pessoa. Ou melhor: é a arrogância brasileira em pessoa. É o sentimento de poder do rico brasileiro, que triunfa sempre contra qualquer coisa (inclusive a natureza, que estamos destruindo alegremente).

Mas o que mais gostei nessa história é que até aqui não tinha encontrado o elo entre o primeiro filme do Fellipe Barbosa”, “Casa Grande”, e “Gabriel”, e agora percebo como ambos tratam da queda da riqueza. No primeiro, o pai milionário (ou muito rico, ou abastado, dá no mesmo) entra em crise: a queda dele implica toda a transformação, mesmo que o menino já esteja propenso a aceitar um outro mundo.

No segundo, agora, o Alpendre me traz à consciência esse outro aspecto. Grande, Sergio Eduardo.

A notícia da morte do Rubens

A notícia da morte do Rubens (Ewald fº) é horrível, ainda que previsível.

Eu conheci com menos de 20 anos. Ambos éramos copydesks no Jornal da Tarde, naquela altura.

Em matéria de cinema desde então tivemos nossas divergências, ele pensava de um jeito, eu de outro. Mas, que importa?

Vou resumir: foi ele que me levou ao Candeias, que me introduziu ao cinema, a rigor. Ele já tinha esse carisma que depois ficou famoso via TV.

Mas o Rubinho sempre foi pessoa de uma lealdade sem fim. De uma afetividade ilimitada. Por isso a gente podia passar anos sem se ver e nem por isso perdia o prazer de se rever.

Eu gostava de ouvi-lo todo ano no Oscar. Para mim ele era o padrão do Oscar. Este ano ele foi tirado da cobertura, o que foi uma idiotice da TNT. O Oscar já é chato, sem Rubens ficou insuportável.

E temo que assim será para todo sempre.

Não poderei me despedir dele , no velório ou no enterro.

Estou escrevendo no dia 19, quando soube de seu falecimento. Viajo para Bolonha no dia 20.

Estarei saudoso.

Não sou de acreditar em Deus, mas, em todo caso: Que Deus o Tenha.

Eu queria falar de outra coisa…

Eu queria falar de outra coisa. Queria falar de um comentário do Sergio Alpendre sobre “Gabriel e a Montanha”, mas por hoje não dá.

As coisas que li ontem no “Intercept” me viraram o estômago. Não é que Moro tenha apenas dado um aconselhamento a um procurador, como apareceu no primeiro vazamento.

Agora fica muito claro que eles formavam um time. Um procurador chama o Moro de “caro”, só para começar.

Depois, em conjunto, o que é realmente espantoso, trocam idéias sobre como fazer para que o depoimento de Lula repercuta na imprensa de maneira a prejudicar o réu.

Já não dá para dizer que isso é um deslize, uma combinação ou algo assim.

Trata-se de uma óbvia conspiração.

Se ficasse só entre eles já seria horrível. Mas o mecanismo a essa altura deve estar espalhado por toda a Justiça.

Um horror. Uma coisa de virar o estômago.

Me senti tão mal que para esfriar a cabeça fui ver o jogo do Brasil. O que é ótimo para esfriar a cabeça e esfriar tudo mais, porque é uma chatice sem fim.

 

Parte 2

Me considero uma pessoa de esquerda, mas nunca fui petista. Gosto muito das políticas sociais que se desenvolveram no governo Lula, mas tendo a crer que sob seu governo, houve muita corrupção, sim.

Quando eu via o noticiário a respeito, os ladrões mais freqüentes eram caras do MDB, de uns outros partidos. Jogava-se a culpa toda no PT, o que é um tanto injusto. Mas parece verdade que para compor maioria o governo Lula fez qualquer coisa que pudesse ou não fazer.

Acompanhei um pouco do julgamento do Mensalão. Ao contrário do que acredita a maior parte dos petistas, me parece que Joaquim Barbosa foi um juiz arquijusto. Você pode discordar disso ou daquilo, mas não dizer que ele perseguiu alguém. Não fez isso.

Era um cara mau humorado, por causa das dores nas costas, mas isso é outra coisa.

Houve corrupção ali?  Houve. Mais do que nos governos passados? Francamente, não dá para saber. Mas havia um sistema (aliás, há) que favorece a corrupção. E o PT entrou nele, sim. Ele havia prometido acabar com isso, mas não acabou. As histórias de Marcos Valerio, os bilhões pagos a publicitários etc. não me parecem a melhor coisa do mundo.

Agora, também tem que ver quem corrompe quem.

Ficou dos julgamentos (desses de agora, não do mensalão) que os políticos corrompem a iniciativa privada, que fazem as empreiteiras se corromperem.

Ok. Acredita quem quiser. Em Papai Noel também acredita quem quiser.

 

Parte 3

Nem Papai Noel consegue acreditar no tal apartamento de Guarujá.

Caramba, então a Odebrecht, ou lá quem seja, para ganhar um contrato de bilhões, suborna um presidente da República de um país como o Brasil, com o tamanho e o peso que tem com um apartamento em Guarujá?

Se fosse um na Quinta Avenida, um na Champs Elisées, os dois de preferência, eu ainda poderia acreditar.

Mas, tenha dó, essa história de Guarujá não é questão nem de ser verdadeira, ela é francamente inverossímil.

 

Parte 4

Para terminar com essa história tão assustadora quanto repugnante.

Não é o caso de postular a santidade de Lula, não é isso.

Mas, claramente, ele foi condenado pelas suas virtudes e não pelos seus defeitos.

Ele foi condenado por coisas como cotas para desfavorecidos (sem humilhações do tipo provar que é pobre), negros em particular, desenvolvimento de universidades, ProUni, Bolsa Família, gente mais pobre freqüentando aeroporto, etc.

Ou, mais claramente, ele foi condenado para não poder voltar à presidência, o que muito provavelmente aconteceria.

 

E para terminar

Seria bom? Acho que não. Seria ruim Haddad se eleger? Acho que simplesmente não governaria. Haveria, no mínimo, uma conflagraçaão permanente.

O Brasil tinha que passar pela regressão fascista que está passando. Era o que ele queria, seja por acreditar na TV, seja porque foi lobotomizado desde 1968 (ah, o MEC-Usaid, única luta estudantil dos meus tempos que estava de fato certa), seja porque é muito frágil.

Tinha que passar por isso. Porque a ditadura daqui não foi a do Videla, que acabou com a Argentina por ódio ao comunismo.

Bolsonaro é o Videla. Gostaria de ser o Videla.

Os militares daquele tempo, Golbery, Geisel e tal, podiam ter seus defeitos, claro, mas tinham uma visão de país, de algo a fazer, um projeto.

Deu certo em algumas coisas, deu errado em outras.

Deixou um legado horrível, que podemos resumir pelo nome Bolsonaro.

Ou , agora, pelo nome Moro também.

É o horror – diria Joseph Conrad.

De Doria e Weintraub

De Doria

Uma coisa que me espanta na política brasileira: Doria.

Foi um prefeito desumano, certamente o mais desumano que já vi em São Paulo.

Foi um bolsonarista de primeira hora, porque com isso sabe que ganharia votos para se eleger governador. Eram os ventos que sopravam.

Agora, vai criando a imagem de direita civilizada, sem nada a ver com o show de ignorância do bolsonarismo, muito mais liberal do que repressivo.

É claro, vai tentando desde já botar por diante sua futura candidatura a presidente.

Não sei se a mudança é para comemorar ou para temer.

Conforme sopre o vento ele pode estender seu hábito de jogar água de madrugada nos sem-teto à escala nacional, tipo esse açougueiro que governa o Rio.

Ou pode ir para outro lado. Mas é mudança a registrar.

De Weintraub

Para o jornalismo investigativo:

Os colegas investigativos gastam tempo em algo que já ocupa polícia e tudo mais, como histórias do Queiroz.

Não podem se aprofundar em questões de milícia, por motivos óbvios.

Mas o que eu gostaria de saber é como o Weintraub tornou-se professor da Unifesp.

Normalmente, entra-se lá por concurso. Mas que concurso foi esse? Com quem ele concorria? Quem eram os examinadores que lhe deram vitória no concurso.

Afinal, hoje concursos em universidades federais são disputados por muita gente bem preparada.

Como pode ter sido escolhido um cara que, já ministro da Educação, nem ao menos tem o pudor de mandar um assessor conferir o seu português desvairado?

Aliás, nem se trata de investigar demais. Basta não ficar apenas no pobre Lattes de Weintraub. Acho que dando um pulo em Guarulhos, conversando com uns e outros, será possível achar coisas que, ao menos, satisfaçam a minha curiosidade.