Autor: Inácio Araujo

Escorel e As Boas Maneiras

Não entendi bulhufas do texto que Eduardo Escorel publicou  no blog da Piauí sobre “As Boas Maneiras”. Mas não acho mau que o tenha publicado. Acho uma pena que saia agora que a carreira do filme já caminha para o esgotamento, pois as divergências e discussões podem nos levar a uma melhor compreensão do que vimos.

Vejamos então o que vi e que é quase o exato inverso do que viu Escorel. São outros olhos. Primeiro não se trata de um filme de terror mais do que de um filme de amor. O amor, que domina a primeira parte, envolve duas pessoas bem diferentes. Uma empregada e uma patroa. Uma preta e outra branca. O que as aproxima é a enorme solidão em que vivem, a necessidade de serem compreendidas por alguém, de se aproximarem, de serem aceitas.

São duas errantes, cada uma à sua maneira. Duas transgressoras, também. A sexualidade está no centro, inquietante como costuma ser, sugerida à maneira de Jacques Tourneur na série de Val Lewton. Elas carregam maldições. São renegadas pela família e pela sociedade.

A segunda metade do filme, da empregada com o filho da patroa segue uma cena mais impressionante do que a do próprio parto. Clara, a negra, hesita um instante entre deixar a criança junto à estrada de ferro ou levá-la consigo.

Decide levá-la consigo. É Joel, a criança, quem supre agora sua solidão. Ela sabe quem ele é, a maldição que pesa sobre ele e que o afasta de um destino nas normas. Ela sabe até que está lidando com um perigo muito evidente. Não que não seja advertida pela mendiga que canta ao relento e lhe recomenda que não olhe para trás, que esqueça o passado.

O que vem a seguir é, com efeito, dilacerante. O passado não esquecível, nem para a mãe adotiva (ou mãe de fato, não importa), nem pelo menino, que deseja conhecer suas origens. O drama se transfere da Berrini para um bairro de baixa classe média, uma quase favela. Clara tenta de todos os modos evitar que o filho siga sua tendência, torne-se o ser maldito que é. Intui que isso será impossível. Mas o sentimento maternal e sua fidelidade à mãe natural é o que se impõe a ela. Também ela não pode escapar disso.

Ali se dará a sequência de grand-guignol que tanto impressionou Eduardo Escorel. Pois é num shopping Center, o mais clean possível, que se desenrola a cena menos clean. A cena onde prevalece o sangue, ou o vermelho, para ficarmos com Godard.

O mesmo torna-se outro do mesmo. A amizade dos dois meninos da periferia, pobres, é superada pelo inferno que Joel traz dentro de si, em sua natureza dupla, de humano e monstro. E ntramos nas tripas da sociedade contemporânea, onde o pobre e o pobre são chamados a se odiar, a se consumir (num centro de consumo, aliás).

O que virá depois? O linchamento, outra figura tão presente em nosso mundo: a não admissão, a completa incompreensão do que seja o outro, mesmo que o outro seja, a rigor, si mesmo (pobre).

Mãe e filho dispõem-se então a, juntos, enfrentar a multidão. O lobisomem exibe então a sua segunda natureza, de criança frágil, embora a outra, a horrível, esteja ali presente.

Não consigo entender muito bem certas objeções de Escorel.  Há sanguinolência? Mas o que dizer de “Carrie, a Estranha”? Ou dos “Scanners”, de Cronenberg, das “Piranhas” de Joe Dante Etc. etc. etc.

Escorel desde o início adverte que não aprecia o gênero terror. Que, em último caso, prefere o terror sem terror, o de “A Outra Volta do Parafuso”. Isso muda muito.

Também não sou fã incondicional do gênero, nem de musicais, ao contrário desses cineastas músicos. Mas gosto do estranho encontro que promovem, com suas músicas ora rimando com cenas discretamente assustadoras (à maneira da Outra Volta do Parafuso), ora evoluindo para um horror mais pesado.

Ao contrário de Eduardo Escorel meus olhos viram aí um filme bem contemporâneo: da invasão caipira da metrópole (dinheiro estranho e abundante) à solidão da metrópole, da divisão da cidade em um lado e outro dos trilhos do trem ao poético encontro de seres solitários, do amor de uma mãe que tenta encaminhar seu filho num mundo extremamente agressivo à asséptica desenvoltura do consumismo.

Tudo me conduz ao presente por meio da mais radical fantasia, de um desses exemplos cortantes de amor excedente, “amour fou, amour unique”.

Devo dizer por fim que o fato de ter um olhar tão distante do de Escolrel sobre o filme não me leva de modo algum a respeitá-lo menos. Também vejo amigos que amam o terror um tanto indignados com a crítica. Mas se todos olharem para um objeto da mesma maneira, que graça tem? Por fim digo que não estou muito a favor do título. Quando alguém meio desavisado entra pensa que vai ver algo como A Princesa de Montpensier, o belo Bertrand Tavernier (o melhor filme dele, que aliás não admiro muito, que vi até hoje). Comigo aconteceu quando assisti ao Trabalhar Cansa pensando que devia ser uma espécie de comédia. Demorei a gostar do filme.

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Boa noite, lobisomem

Entre os belos filmes do cinema brasileiro recente, me parece que “As Boas Maneiras” pode ter um lugar especial.

Primeiro por ser um filme de gênero original, que transita por São Paulo, do rico ao pobre, do branco ao negro. Uma São Paulo que parece dividida pela linha de trem, com o mau gosto horroroso da Berrini dando o tom de maldição.

Me parece que o argumento tem três camadas: 1. Existe um filme de amor entre duas mulheres desencontradas, um tanto perdidas no mundo, embora por razões diversas; 2. Esse filme é recoberto por um filme de lobisomem; 3. O filme de amor e o de lobisomem de certa forma são recobertos por um filme de amor materno.

Mas a ordem do que chamo “recoberto” pode ser muito bem invertida.

O filme começa muito claro no apartamento de Ana, a garota de Goiás exilada em São Paulo por conta de uma gravidez inconveniente e que contrata Clara, uma babá negra que a socorre logo na primeira entrevista.

São bem sozinhas. E dessa solidão surge o amor que leva Clara a ficar com o filho de Ana em circunstâncias que não vem ao caso aqui dizer quais são.

Aos poucos “As Boas Maneiras” se torna menos claro, as sombras surgem nesse mundo que a princípio era límpido. Há muito Sangue de Pantera, muito Jacques Tourneur aí, e isso é muito animador.

As Boas Maneiras nunca deixará de ter seus momentos de clareza absoluta. Por exemplo, a sequência do shopping, mesmo à noite, deixa que o mistério surja da situação, não forçando nada com a luz. Isso faz o momento de terror, que nada tem a ver com susto. No entanto saltamos aqui de Tourneur para um horror mais clássico.

Me chama a atenção ainda o ódio nos olhos do lobisomem. Que ódio é esse, inteiramente anárquico, sem objeto definido (que não seja a mãe)?

Me parece decisivo aqui que seja um filme do Caixote, quer dizer, de grupo. Marco Dutra e Juliana Rojas no caso.

Mas não há exclusividades. Eles se revezam, trocam de função, sobretudo conversam. O próximo deles será de Marco Dutra em parceria com o Caetano Gotardo.

O cinema é muito de conversa.

Por isso o melhor vem de Contagem, vem de Pernambuco, vem de São Paulo do Caixote. Com as exceções de praxe, Rio e Brasília em especial, vão compondo um belo quadro de filmes essenciais e pouco, muito pouco vistos.

Em tempo, próximo do Caixote, trabalhando em geral como assistente, há Daniel Chaia. Quando vai estrear? Me lembro de um concurso de argumentos da Prefeitura SP de que ele participou. Foi a única escolha unânime do júri. Mas se o tempo passa demais…

(Dou ao post o título de um argumento bem tolo que escrevi ali pelos anos 1970, do tempo em que o Carlos Reichenbach queria fazer da Jota Filmes uma produtora à moda do Roger Corman. Não rolou. De certa forma o pessoal do Caixote é meio herdeiro desse generoso projeto).

Críticas e autocríticas

foto: Leon Rodrigues/SECOM Prefeitura de S.Paulo

Vários amigos se espantaram por eu estar feliz com o novo prefeito de São Paulo.

Alguns perguntam quais as virtudes que eu vejo no neto do Covas.

Bem, a virtude essencial, insubstituível, é NÃO SER O DÓRIA.

Quanto ao mais, não sei nada dele.

Espero que seja bem melhor que o antecessor, o que não é difícil.

Ao mesmo tempo, temo que haja em relação a qualquer pessoa que não venha da esquerda, que não seja da esquerda a tendência a uma rejeição por princípio, como se não fosse possível alguém pensar diferente do que pensamos.

Esse sectarismo, concordo, partiu da direita.

Ela que estigmatizou Lula como “nove dedos”. Como se um operário ter o dedo decepado no trabalho fosse algo capaz de diminuí-lo (e não as condições infames de segurança do trabalho existentes no Brasil).

Ela que inventou o “vai pra Cuba”, aplicável a qualquer ciclista, é verdade, mas sobretudo uma maneira de negar a nacionalidade de pessoas que pensam diferentes dela.

Ela que se apropriou da bandeira e do hino.

E, claro, não faltam ali as hienas a entoar um “Marielle vive” entre risos de quem imagina mortas as ideias da assassinada.

Pois bem: acho que com essa gente não tem papo mesmo. Não há como conversar com fascistas.

E se não existe hipótese de convencimento, porque são puros retardados, não há o que falar.

Se, em compensação, toda hipótese de diálogo for cortada, se cada um ficar em seu canto ruminando suas verdades com os amigos de facebook, bem…

Aí eu acho que não tem jeito.

Em São Paulo, por exemplo, as ruas estão caindo aos pedaços. E o que faz o Dória? Manda asfaltar o que está ok, só porque ali tem mais carros andando.

E quando um edifício se incendeia e cai, o que diz esse inominável? Que aquilo era habitado por marginais.

E se fosse?

Então, com gente dessa espécie não há conversa possível, são uma sub-humanidade.

Mas com pessoas razoáveis, que argumentam, que defendem, sei lá, que o neoliberalismo ou coisa parecida pode ser uma solução melhor do que qualquer outra, bem, eu conversaria sim.

Por isso, em relação ao novo prefeito, o que posso dizer, pessoalmente, é: não sei nada sobre ele.

Mas espero que faça os faróis de trânsito funcionarem, que ao menos volte a funcionar aquela operação tapa-buraco, que os parques voltem a ser asseados como já foram.

E, sobretudo, que a concorrência dos ônibus seja benéfica para a população mais pobre.

Se essas coisas acontecerem, não vejo porque ficar contra ele, a menos que exista alguma coisa que desconheço. Aí é outra história.

Enfim, é isso que, mal ou bem, penso dessa política doméstica.

A Tragédia Urbana

Foto Paulo Pinto/FotosPublicas

Não faz nem dois meses que o repulsivo Doria deixou a prefeitura.

Um prédio inteiro, enorme, caiu. As falhas de controle sobre o prédio são obviamente municipais e, sobretudo, incidem sobre o período do inominável ex-prefeito.

Morrem inúmeras pessoas.

Pois bem, o que ele tem a dizer sobre tal tragédia?

Que o prédio era habitado por criminosos.

O que significa:

Se morreu está bem morrido. Azare-se.

Não consigo perceber nessa figura nenhum sinal de solidariedade, de fraternidade, ou, vamos resumir logo, de humanidade nesse tipo infecto.

Eu falei bem outro dia do jovem Covas. Bem, duas ou três atitudes dele me fazem desde já me retrair e retirar o elogio.

Vamos esperar para ver onde vai dar isso.

Mas, claro, nem de longe é comparável ao seu antecessor.

Sai, Dória, sai

(foto: Suamy Beydoun/ Estadão Conteúdo)

Alguma vantagem haverá, ao menos para nós daqui da capital, em o Dória se candidatar a governador.

Coisas muito simples: por exemplo, voltou a existir a OperaçãoTapa-Buraco. Nada transcendental, mas um buracão quase incontornável que tinha ali perto do Hospital Samaritano, perto da esquina com av. Higienópolis, foi coberto.

Parece inacreditável. Eu já começava a acreditar que aquilo seria eterno, que duraria até que um carro se afundasse ali.

Outra bola dentro do jovem Covas (filho ou sobrinho ou neto do Mario Covas): parou aquela licitação troglodita que o Dória queria fazer e que de cara iria eliminar milhares de empregos de motoristas de ônibus, sem falar que a vida dos pobres ia ficar ainda mais sacrificada, o que era uma espécie de bandeira do , ufa, ex-prefeito.

Os cobradores

Espero que a nova licitação não elimine os cobradores de ônibus.

Há séculos se fala nisso, que na Europa é assim, que nos EUA é assado… Etc.

Só que aqui o papo é outro. A população é indefesa. Não sabe onde desce, não sabe se tomou o ônibus certo, as linhas são confusas, a capacidade de leitura muito relativa, etc.

Então o cobrador é uma espécie de amigo que a gente tem no ônibus.

Enfim, como aqui é pra palpitar mesmo eu defendo os cobradores e cobradoras do Brasil.

 

“Arábia”, minha vergonha

Aristides de Sousa como Cristiano em Arábia, de Affonso Uchoa e João Dumans (Embaúba Filmes/Divulgação)

Para que fazer bons filmes se eles nem têm lugar para ser exibidos?

“Arábia” se chegar a 5 ou 6 mil espectadores estará muito bem, muito feliz.

Não há Concine, nem congresso, nem presidente, nem ninguém que garanta uma cota de tela decente para que os filmes de outra natureza que não comédias sejam exibidos.

Com isso, o espaço publicitário, a verba de lançamento (de distribuição), a divulgação, tudo míngua.

O cinema se torna uma questão de prestígios, de licitações, de burocracia, porém o público fica decididamente fora de tudo.

Acho muito bom que existam algumas produções populares bastante decentes. Não são o suficiente.

O cinema existe para nos tornar melhores. “Arábia” faz isso. Eu admito que muita gente prefira chafurdar nas águas da pura política, essas coisas…

No Brasil, a gente adora política muito mais que cinema. É compreensível, até.

Mas, caramba, isso deixa a gente muito, muito pra trás.

Foi vergonhoso no ano passado ver que “Gabriel e a Montanha”, afinal um filme brasileiro, teve muito mais público (não falo nem de repercussão ) na França (nem falo de Europa, nada) do que no Brasil.

Temo que o mesmo aconteça com “As Boas Maneiras”.

É desanimador. Não como cinema, mas como nação mesmo.

(Independente do resto, que é resto mesmo).

O visível e o invisível 5

MALDITA FILOSOFIA

Após três anos de implantação do estudo de filosofia e sociologia no curso secundário, uma pesquisa do Ipea constata que ela trouxe atrasos na percepção da matemática pelos alunos, com relativo retrocesso.

Não duvido de que isso tenha acontecido. Nem de que a implantação dessas disciplinas tenha favorecido a melhor capacidade de interpretação de textos, porém…

Três anos não são rigorosamente base para nada. Está na cara.

Se tomarmos uma década, período em que talvez os alunos possam entender melhor a que vem uma disciplina como filosofia, há muito banida do currículo. Então se poderá esboçar uma comparação.

Talvez, então, seja possível perceber que essas disciplinas se completam em vez de se excluírem.

E que o entendimento do mundo e o entendimento dos números não são coisas contraditórias.

Embora seja um instituto sério, o Ipea sofre necessariamente do viés “praticista” imposto a nossos estudos desde o MEC-Usaid pelo menos.

E isso produziu, na prática, técnicos tecnocráticos, incapazes de ver outra coisa diante de seus olhos que não números: como na pesquisa em questão.

Esses técnicos não constatam um retrocesso. Eles são produto de um retrocesso anterior, analisando uma decisão capaz de levar os alunos à frente.