Ciência, futebol, cinema

Passando pelo Fox Sports, um jornalista defendia a ida de jovens jogadores de futebol brasileiros para outros países (jovens, eu digo, menores de idade ou ainda sem idade de profissional), contra outros e contra o ex-jogador Edmundo.

A horas tantas, o argumento dele é que era muito certo aspirar a deixar o país em busca de dinheiro.

E argumentava com o artista que, convidado a ir a Hollywood, preferiria ficar para salvar o cinema brasileiro.

E depois com o cientista que ficasse em nome da ciência brasileira.

Que dizer?

É mais ou menos assim que as coisas funcionam, no futebol ou na ciência.

Mas não foi sempre assim.

Einstein não inventou um aplicativo para ficar bilionário.

César Lattes não fez as descobertas que fez para ficar rico. Ou Chagas. Ou Pasteur. Ou todos esses que dão nomes a institutos diversos.

O Glauber Rocha se recusou a filmar nos EUA, por exemplo. Não por esnobar, mas porque seu cinema não tinha nada a ver com Hollywood.

No presente mundo argentário faz todo sentido cientistas fazerem a formação no Brasil e se mandarem.

Verdade que boa parte do tempo o Brasil está se lixando para o que se faz aqui. Se salva o cinema nacional ou a ciência nacional.

Mas difundir esse tipo de crença é um mérito de quem a difunde: eis trabalho bem feito.

Para mim, pessoalmente, é insuportável.

Classe é Classe ou: David Lynch

A minha primeira sensação ao ver o novo Twin Peaks: classe é classe.

E série é série. Uma coisa agradável, que pode ter momentos de beleza (ah, como “Better Call Saul”  explora bem a paisagem – entre outras virtudes), por vezes uma diversão muito boa, mas é isso e nem tanto mais.

David Lynch é do departamento do gênio.

Já passei por três episódios, mas basta o primeiro: começa com Dale Cooper num sonho-inferno, num espaço incontrolável , habitado por fantasmas, ele próprio um fantasma.

Passaremos por Twin Peaks, onde um policial revira caixas e caixas em busca de algo perdido.

E estamos já não sei onde em companhia de um duplo de Dale Cooper, porém um duplo maléfico.

Por fim, em outro lugar, Dakota do Sul ou Carolina do Norte (a série tem isso: a sucessão de eventos vai apagando a memória de certas coisas. Aliás, sempre ocorre isso nos filmes de David Lynch, ao menos comigo), ocorre outro crime. Aparentemente dois outros crimes, pois alguém encontra a cabeça de um corpo acoplada a um corpo sem cabeça (o que lembra demais aqueles quadros do Francis Bacon). E um culpado que deixou impressões digitais por todo o quarto e talvez nem tenha estado lá.

Ah, sim, há Nova York, onde num galpão misterioso um rapaz observa uma câmera em cuja objetiva nada aparece. Exceto quando ele está lá com uma garota e fantasmas começam a invadir a tela e… Bem…

É isso.

Onde vai dar isso tudo? É imprevisível, claro, é sempre surpreendente, como o reaparecimento de Laura Palmer tanto tempo depois.

Mas acompanhar linearmente a história não é só impossível, como desnecessário.

É o que eu queria dizer logo de cara: quando batem os primeiros fotogramas na tela é perceptível que estamos num outro universo, num outro departamento. Há uma classe na observação e na ocultação das coisas, dos seres, dos fatos, que não se vê, que é original. E basta olhar, contemplar. É o que basta: está lá uma beleza invulgar, um encanto invulgar. Para mim tem sido um deleite total.

De volta. Um pouco…

Faz tempo que não publico um mísero post.

Ao menos é hora de me explicar aos amigos.

Do que eu gostaria de falar (já que não ganho um tostão com o blog)? Do cinema da Eliane Caffé, do muito belo “Era o Hotel Cambridge”.

Mas falar desse filme já é falar de política. E política é o que nos ocupa a todos, todo o tempo, já faz um montão.

E, como sabem os amigos, sou um antijornalista, um cara meio lento, que remói os acontecimentos, que espera até ver alguma solidez nas coisas.

E que solidez temos? Nenhuma. Me sinto como o cara que está no mar tentando não se afogar, mas, cada vez que levanta a cabeça, vê uma nova onda chegando.

Se fosse publicar cada pensamento que me ocorre, a cada momento, bem… Isso daria uma Comédia Humana em versão chanchada.

As coisas que penso, provavelmente imbecis, não vejo em nenhum lugar. Ainda assim resolvi que começo a falar delas, um pouco por vez.

Peço apenas um pouco de paciência com minha infinita incompreensão dos fatos. Em todo caso, prometo que os posts estarão de volta.

Paterson, Cambridge e outros

Antes, o verão – Making of

Devia estar falando aqui de “Era o Hotel Cambridge”, o belíssimo filme da Eliane Caffè. Até conversei com ela a respeito. Mas por ora fica dito isso: uma beleza de trabalho. Trabalho e pensamento.

Devia falar também de “Paterson”, que me parece a obra-prima de Jim Jarmush. Como se todo o cinema dele convergisse para ali. Obra-prima.

Ou do “Pitanga”. Não gostei do Pitanga, apesar do personagem. Não sei quem foi que filmou, mas não entendo que num filme em que haja a assinatura do Beto Brant haja também aquele plano do Barreto tomado de baixo e de perto.

Todo mundo sabe (ou saberá um dia) que o pior da velhice são esses pelos que irrompem indomáveis no nariz e nos ouvidos. Filmar o Barreto daquele jeito é feio para ele e feio para quem filma. Um horror.

Mas eu preciso falar aqui é do Gerson Tavares.

Ou antes: o que acontece com o Brasil?

Faz algum tempo, no CineOP, Rafael Luna apresentou um belo restauro dos filmes desse cineasta hoje desconhecido. Na guerra ideológica intracinematográfica ali dos 60/70 ele seria o anticinema novo, o anti-revolução (cubana ou de esquerda ou o que seja).

Ok.

O tempo passou. Temos restaurados belos filmes. As questões daquele tempo não interessam mais bulhufas (temos novas!!!).

Mas o que foi feito dessa descoberta formidável? Nada. Talvez uma tese universitária?

Pode ser. Mas por que não existe reconhecimento?

Por que não se faz um ciclo? Por que o CCBB não se dedica um pouco a isso, a tratar de nossa memória cinematográfica?

Ou o IMS? Já começa a ter estrutura e tem um diretor de cinema à frente da programação.

Às vezes fico espantado como na Europa e mesmo nos EUA se reverencia os artistas. Aqui, o cara na melhor das hipóteses é esquecido.

Junto com seus filmes, claro.

Ao mesmo tempo, que me desculpem amigos e colegas que gostaram tanto de “Martírio”, me parece que é preciso um pouco mais de rigor no juízo dos filmes.

Esquecer a causa, que aliás é urgente, necessária, imprescindível, e mirar um pouco a eficácia do trabalho.

Se Vincent Carelli é um etnólogo e seu trabalho vai nesse sentido, muito bem. Mas como cinema pode ter toda boa vontade do mundo. Não me vai.

Não sou adepto do rigorismo extremo, não. Mas enquanto a gente não distinguir as coisas, não sei… Acho que faz mais bem ao diretor dizer o que está errado (ou o que a gente acredita estar errado) do que o certo.

E também tenho a impressão de que acreditamos sempre que, falando bem das coisas, estaremos protegendo o cinema. É uma atitude um pouco messiânica, além de inútil.

Estive relendo as preciosas críticas de filmes brasileiros do Paulo Emilio no Jornal da Tarde (e mesmo na revista Argumento). Ele defendia o interesse do filme brasileiro acima de tudo. Encontrava interesse em muitas coisas que nos passariam em branco (ou a mim, pelo menos).

Mas não era condescendente, isso não.

Bom, perdão se não fui claro, mas estou sem tempo para até mesmo ser claro. Abraços gerais.

Ah, comprei o livro sobre Jean-Claude editado pela Abraccine. Pena que o Orlando achou que minha colaboração seria uma piada. Não era. Um dia tentarei falar de 24 horas ao lado do J.C. viajando ao Japão.

Adendo:

Leio o juiz Moro acusando a defesa de Lula de transformar o depoimento dele em evento político.

Mas não é?

Desventuras do digital

Não é a discordância com vários, admiráveis colegas que me força a escrever aqui, e sim a percepção de que, não fosse o digital, Carelli teria feito de “Martírio” um filme excelente.

O digital é excelente, mas tem propiciado um hábito pouco animador: o esticamento artificial dos filmes. Como o material é barato, torna-se fácil. Como é rico em vários aspectos, torna-se difícil cortá-lo.

Tenho vistos longas que dariam bons curtas. Vi filmes que, concebidos para ser curtas, tornaram-se longas.

“Martírio” poderia ser até mesmo um filme curtíssimo. O material de arquivo bastaria, aliás: aquele jovem índio desajeitado, vestido de terno, com uma senhora tipo 10 mais elegantes ao lado, resume nossa política indigenista.

Carlos Adriano faria o diabo, só com essa imagem.

Mas há também a fala dos índios. As circunstâncias, que remontam à Guerra do Paraguai, à interminável guerra, como bem lembraria o Rosemberg (“Guerra do Paraguay”).

Sim, a situação dos índios é um horror. Desses e de outros. Coincidência ou não, já vi diversos sobre o extermínio provocado pelo contato e, depois, pela expropriação de suas terras e de sua cultura.

Isso não me leva a acreditar que um filme ineficaz, repetitivo, se torne eficaz por isso.

Andrea Tonacci, que fez filmes belíssimos a respeito dos índios, com os índios, entre os índios, não fez nada disso.

Outro caso: o segmento de Marco Becchis para “Mundo Invisível”, em que mostra um grupo de índios com suas vestes clássicas em uma floresta. Mas à medida que se movem, percebemos que a floresta não é tão floresta assim, há sinais de civilização ali. Eles caminham um pouco mais, ruídos surgem mais claros… Breve sabemos que estão no Parque Trianon, na av. Paulista, em frente ao Masp.

Se continuasse um pouco, o filme poderia ter promovido o encontro entre esses índios e seu espelho: esses outros, esfarrapados, despossuídos, expropriados de suas culturas, que vivem à beira da estrada vendendo cacarecos.

Lembro desses momentos lancinantes porque eles também estão em “Martírio”. Mas o empenho em mostrar tudo, em lugar de montar, de cortar, de concentrar, parece fazer suas virtudes evaporarem.

Na minha visão, o amor à causa às vezes é tão grande que termina por arruinar o filme. Me parece que é o caso aqui.