O visível e o invisível 4

O PROGRAMA

Um outro raro momento de interesse de “O Processo”: o senador paranaense Requião começa a enumerar o que seria o programa do futuro governo Temer.

Temer nunca se abriu sobre isso, ou só o fez tão discretamente que ninguém se incomodou com isso.

Ali está documentada a liquidação de bens nacionais, de petróleo a reserva aquática, tudo que possa ser liquidado. Liquidado no sentido de “sale”, para usar a linguagem mais recente das liquidações

Outro ponto: isso que genericamente se denomina “as reformas”, sem nunca se dizer do que se trata.

A instituição do semiescravagismo, entre elas.

Me pergunto como bobagens passam ao primeiro plano com tanta facilidade e como o que é importante se torna oculto.

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O visível e o invisível 3

NOSSAS CORES

Na colação de grau do meu filho, na Unesp, ouço o Hino Nacional.

Como a acústica é boa (escola de música, tal seria…) aquilo me parece afinal bonito, apesar da excessiva exaltação de grandezas potenciais e heroísmos imaginários, própria de hinos de países latino-americanos.

Ao ouvi-lo pensei no Brasil como uma nação inteira, feita de gente distinta, mas uma. Deve ser meio antigo, uma coisa meio nacionalista (algo que eu nem sou).

O que eu quero dizer é que, com todos os defeitos, meus, do Brasil e do hino, me senti representado por ele.

E penso que deveríamos pensar em termos de unidade nas diferenças, se, intolerâncias infinitas.

A direita, me parece, apossou-se de certos símbolos nacionais, seja o verde-amarelo da seleção (e da bandeira), seja o hino nacional e tudo mais.

Não fez certo. Seria como expulsar metade do país do direito à nacionalidade. É aquele “vai pra Cuba” deplorável que certos donos de automóvel lançam contra… gente de bicicleta.

E a esquerda aceitou isso passivamente. Vestiu-se de vermelho, como nos tempos de Stalin, como se devesse mesmo assumir os ideais comunistas que outros lhe atribuem (claro, ainda existem alguns stalinistas entre nós, mas não tantos assim).

Acho que em vez de entregar “a nacionalidade” de bandeja para a direita acho que seria muito mais lúcido cantar o hino nacional ainda mais forte e se vestir do mesmo verde-amarelo, porque tem o mesmo direito, porque pertence ao mesmo país e porque torce para a mesma seleção.

Excluir-se disso é, penso, excluir-se de signos nacionais.

É o que permite à direita agredir e matar pessoas sem mais nem aquela. Afinal, são “outros”, agredíveis, matáveis.

O visível e o invisível 2

UMA AUTOCRITICA

Aparentemente não há muitas pessoas dispostas a escutar o ex-ministro Gilberto Carvalho. No filme “O Processo” um dos raros momentos interessantes é aquele em que ele fala da necessidade de autocrítica pelo Partido dos Trabalhadores.

Ele segue com uns dois itens: o primeiro governo Lula foi o que mais fechou rádios comunitárias e o que mais deu concessões a Deus e todo mundo (se achava que ia comprar evangélicos e deputados com isso, acrescento eu, se deu muito mal. Acrescento eu, mas é o subtexto, me parece, do que diz Carvalho).

Ou seja, a estratégia de comunicações foi um desastre.

Em seguida ele diz que após o mensalão, tendo de enfrentar a dor de ver companheiros presos etc., o governo deveria ter investido numa reforma política.

Preferiu, disse ele com outras palavras, e eu com essas, se misturar à lama geral.

São dois tópicos que não vejo nos discursos petistas.

Penso que se Carvalho pudesse falar enumeraria mais uns dez, fácil.

Todo governo tem erros. Tudo bem. No caso, esses dois foram decisivos para a sorte do seu partido.

E, aliás, do sistema político inteiro.

Só que não ouço uma palavra sobre tais temas no arraial do PT.

Dizer que houve golpe pode ser uma meia verdade substancial. Dizer que a prisão de Lula é política é outra meia verdade.

Claro, a situação de Lula engendra solidariedade (a minha ao menos) porque não consigo entender como alguém é condenado por não comprar um apartamento ou por frequentar um sítio que não é seu. Isso me parece pura perseguição.

O problema de não fazer essas autocríticas, de não tomá-las a sério, é que tais atitudes (tanto nas comunicações como na reforma política) implicariam tirar poder da burocracia partidária.

Quer dizer, estou chutando isso, sem nenhuma informação. Mas é algo dedutível. Dê a voz a uma rádio comunitária e o controle da burocracia sobre a comunidade tende a esfarelar, não?

Mas tudo isso passa em silêncio. Não se ouve, não se vê.

O visível e o invísivel 1

Foto: Reprodução/Twitter/AlbanoJunior4

OLHAI POR NÓIS

Por alguma razão misteriosa, uma pichação no Pátio do Colégio virou uma coqueluche local.

Não faltou nem quem se referisse a ela como “vandalismo”.

Não faltou quem exaltasse o local “tombado pelo Patrimônio Histórico”, etc. e tal.

Vamos com calma, porque de repente meus colegas jornalistas tornaram-se formidáveis formalistas.

Primeiro, sim, o local celebra a primeira construção, o que teria sido a primeira construção religiosa na cidade, nos tempos de Nóbrega e Anchieta.

O que não quer dizer, nem de longe, que essa construção esteja de pé.

O atual Pátio do Colégio,  informo eu, não tem nada de pau a pique ou taipa ou de Anchieta.

Foi demolido várias vezes e reconstruído ai por volta de 1970, na época do governo militar. É recentíssimo. É um bom lugar para festejar casamentos. Tem um peso simbólico, mais nada.

Mais nada?

Vandalismo me parece uma expressão forte. Designa ataque destrutivo e, sobretudo, exterior (vindo de vândalos).

Não acredito que nem simbolicamente se possa pensar nisso.

Vi muitas coisas sobre a polícia, a busca dos “pichadores criminosos” e essa lorota toda.

Não vi uma palavra sobre a inscrição feita na parede: Olhai por nós.

Em vez de vandalismo seria mais apropriado ver nisso uma espécie de apelo desesperado, que se volta à Igreja, a Deus, ao padre, a sei eu mais quem, feito por pessoas desvalidas, digo: inteiramente desvalidas, sem família, sem prefeitura, sem governo, sem judiciário, enfim sem porra nenhuma que os apóie minimamente.

Estava na cara. Mas parece que a disposição é não ver isso.

Na Sibéria do IMS

Mas me pergunto: será que eu vi o filme do Escorel de má vontade?

E que boa vontade se pode ter debaixo do frio siberiano da sala paulista do IMS?

Quem é o maluco que regula aquilo?

A desculpa que dá o pessoal da porta, de que é uma coisa igual para todo o prédio, aquela conversa mole, não se aguenta dois minutos: você sobe ao banheiro e a temperatura é outra. Você sobe até a entrada e a temperatura é outra.

Podiam chamar aquilo de Sala Sibéria e pronto.

Ficava como homenagem ao Gulag.

Me disseram que a sala é péssima, que os cineastas da família não podiam ter permitido aquilo etc. etc.

Não achei nada disso. A sala é boa. Gélida, porém.

Aliás, meus amigos arquitetos acham o prédio o máximo.

Não eu.

Claro, a ideia de chegar pelo quinto andar, aquela vista extraordinária, os espaços agradáveis – tudo isso é muito legal. Formidável mesmo.

Mas, caramba, como é que você pode comprar um ingresso no quinto andar e depois ir para o terceiro, onde é a sala de cinema (ou outros andares de exposição)?

Pelo elevador.

Ou no pé dois, pela escada.

A ideia de um prédio fitness pode não ser má em si, mas seria bom avisar.

Quanto ao cinema pode recomendar que o público traga um cobertor de casa, porque não é fácil.

Se alguém sair de lá com uma pneumonia e resolver que vai processar o instituto, cá entre nós, eu acho que ganha.

Palavras do Estado Novo

Getúlio e o escultor americano Jo Davidson em julho de 1941 – divulgação

Me pareceu bem  problemático o “Imagens do Estado Novo” do Eduardo Escorel.

A pesquisa de imagem é um primor, mas a narrativa (aceitemos essa palavra que meus colegas usam tão frequentemente para suprimir esta outra: verdade), isto é, o que é dito, poderia existir perfeitamente sem uma só imagem – do Estado Novo ou qualquer outra.

As imagens não são fonte histórica. Apenas referendam uma interpretação que as precede.

Vale a ilustração. Mas, caramba, quatro horas de ilustração cansam.

O setor ilustração é, em todo caso, muito bom. Ver imagens do pessoal de Blumenau com bandeira nazista e rituais nazistas é excelente.

O  concurso de bebês (e algumas demonstrações de educação física) é uma coisa universal daquela época, mas informa sobre como o Brasil absorveu essas tendências.

No geral, no entanto, o filme promete muito mais do que cumpre.

Os anteriores (1930 e 1932) beneficiavam, no fim das contas, das poucas imagens à disposição, de maneira que a interpretação prévia ao menos não incomodava.

Aqui a gente espera que a imagem revele efetivamente algo. Mas a verdade do filme (ou sua narrativa, ou mais apropriadamente seu discurso) vem da palavra, não das imagens.

Tudo a ganhar

Em “Nada a Perder”, a biografia autorizadíssima de Edir Macedo, logo no inicio, ele coloca em questão a imagem do Cristo na cruz. A irmã retira a imagem da sala. É a primeira conversão. Mas é um pouco mais do que isso: já não se trata de chutar a Virgem Maria ou de dizer que imagens de santo são simplesmente imagens.

Trata-se de atacar a ideia de um Deus morto (ele o faz explicitamente). Macedo quer adorar um Deus vivo, não um palerma que acaba crucificado. Ok.

O que vem depois não deixa de ser uma crucificação em vida do próprio Macedo. Ele sofre nas mãos da primeira igreja neopentecostal que frequenta, depois nas mãos do cunhado, o R.R. Soares da TV, por fim dos políticos e dos bispos católicos em Brasília.

Ele é um perseguido.

Essa a imagem que o filme busca construir: a de um sobrevivente das perseguições.

Ao contrário de Cristo, que acabou na cruz e foi ressuscitar como filho de Deus etc. etc., Macedo não é filho de Deus, mas consegue sobreviver à perseguição e, portanto, mostrar-se apto a levar o seu povo.

Levar aonde?

Eis o que desde a compra da TV Record é fartamente explicitado: a Igreja do Reino de Deus é antes de tudo um projeto de poder.

Projeto que passa por impedir as perseguições ao povo neopentecostal, por triunfar sobre a Igreja Católica e, por fim, por tomar o poder mesmo.

Isso já está acontecendo, aliás: a dita bancada evangélica tem uma influência enorme nos desditados rumos do país, como se sabe. E o mais preparado dos velhos seguidores de Macedo, o bispo Crivella, já é prefeito do Rio.

Mas o essencial ainda é a diferença entre um Deus morto (e indiferente) e esse Deus macediano, em cujas mãos podemos segurar, com quem conversamos e discutimos.

Um Deus de TV, também, muito mais apto aos tempos atuais do que o velho Deus católico, aquela coisa distante, cheia de paramentos inúteis pelo caminho.

O filme não é grande coisa, mas não é pior do que a maior parte das produções populares. É novelesca, choramingas, cheio de ditas e desditas, de mães todopoderosas (embora não imaculada, a mãe de Macedo é decisiva em sua trajetória, segundo o filme).

Quem quiser pode rir. De tudo. Do arremedo de teologia judaica, das curas milagrosas, de tudo mais.

O problema é que a IURD hoje é dominante, carrega esse “povo de Deus”, dá umas esporadas aqui e ali em uns e outros, mas se mostra capaz de agregar todos eles.

Esse projeto de poder passa por destituir o catolicismo e seu deus distante, o que se tornou bem mais fácil depois do pontificado do João Paulo 2º, que no meu entender era uma besta quadrada, e depois do Ratzinger, que é um elitista (e nesse sentido próximo do protestantismo clássico).

Trago esses papas aqui porque o cinema é, por excelência, o domínio da imagem, portanto não é de espantar que o catolicismo tenha ali uma presença tão forte (Hitchcock, Buñuel, Rossellini, Pasolini, Scorsese etc.).

“Nada a Perder” prega a convertidos. Como se quisesse fixar, pelo martiriológio do bispo Macedo o triunfo sobre o martírio, o seu povo.

É um estágio.

Estágio de um projeto de poder. Claro, o catolicismo também é um projeto de poder. Mas ao menos já o conhecemos.

Vendo essa biografia parece um pouco que estou revendo “O Triunfo da Vontade”. A ideia não é tão outra. Apenas se trata de uma versão cinematográfica mais tacanha, adaptada à boçalidade do Brasil contemporâneo.

Não me espantaria se isso terminasse numa espécie de Exército Islâmico versão chanchada (mas não menos sangrenta). Isto é, versão Brasil.

Penso que a prisão do Eduardo Cunha atrasou esse projeto. Mas ele está aí, vivo. Vivíssimo.

Desta vez com 4 milhões de bilhetes de cinema précomprados.

O que é isso? Lavagem de dinheiro? Esses procuradores e polícias federais não dão a menor bola, em todo caso. E aqui correm bilhões.