Precisamos falar de “Hollywood”

Digo de saída: falo do começo, do meio, do final da série. Quem não viu e detesta ver revelada a surpresa do final não deve ler o que se segue. Até porque o que o filme tem é apenas as surpresas do final.

……

O criador da série (minissérie, na verdade) foi contratado por cinco longos anos pela Netflix pela bagatela de US$60 milhões (seja qual for a correspondência com o Real hoje é dinheiro pra caramba. O dobro dos grandes salários da NBA, por exemplo, muito mais do que ganham Neymar ou mesmo Messi).

Foi contratado e fez uma série constrangedora por quase todos os pontos de vista que se queira observar.

Um que não é reprovável é a mistura de personagens reais (Rock Hudson em seus primórdios) com outros fictícios, que juntam qualidade e sobretudo defeitos de personagens hollywoodianos.

Mas ficamos meio que por aí. Ian Brennan, o gênio criativo, retoma o que mais ou menos circulou por inúmeros filmes sobre cinema ao longo de décadas, de “Assim Estava Escrito”, de Minnelli, a “Los Angeles – Cidade Proibida”, para ficar com dois exemplos relevantes. Não é original, mas tudo bem. A prostituição como reverso do sonho hollywoodiano de virar “estrela”, o poder os produtores e agentes, poder exercido não raro com violência, as festas de George Cukor, tudo isso está lá.

Há coisas que não estão e/ou foram substituídas. Assim, o velho teste do sofá, famoso até o advento, recente, do “Me too”, aqui não é uma instituição a que se submetem as mulheres, e sim os homens, em especial Rock Hudson, mas não só. Até aí até que vão bem as coisas: trata-se de botar em relevo algo que no passado foi defendido a todo custo pelos estúdios. E entende-se: como reagiriam as pessoas caso soubessem que Rock Hudson, o galã por excelência dos anos 1950, só gostava de rapazes?

É bom que hoje isso apareça, e Ian Brennan, sabidamente gay, faz bastante esforço para que apareça. Até demais.

Um dos problemas de seu “até demais” é que ele envolve negros e mulheres. Lá está Jeremy Pope, jovem roteirista negro que tem seu roteiro lido e aprovado apenas porque o enviou pelo correio e ninguém sabe quem é ele. De resto, ganha a vida fazendo michês.

Ao longo da trama, Jeremy vai entrando no estúdio Ace sem maiores resistências ou cerimônia. Ora, nos EUA da época os negros eram segregados. Mesmo Sidney Poiter e Harry Belafonte, exceções absolutas, só emplacam nos anos 1950. Mas, enfim…

Não é só isso. Como o dono dos estúdios Ace cai doente, sua mulher é chamada a tocar o negócio. Ela o faz com o brilho que, como acentuará mais tarde, só uma mulher pode trazer.

Não são apenas negros, mulheres e gays, são também chineses, filipinos e quem mais aparecer que levanta a cabeça com toda honra e orgulho na Hollywood de 1947. Sim, estamos diante de um sonho hollywoodiano, o que não é o problema, mas sim que faz parte disso que se chama pós-verdade.

Quentin Tarantino é mestre nisso, mas, afinal, consegue respeitar certos limites. Em um filme desmonta a história da Alemanha, da França e da Segunda Guerra, mas na última sequência. Em outro, ressuscita Sharon Stone, mas também apenas no final. São um último lance. No caso de “Hollywood” a coisa vai do começo ao fim, misturando pessoas que existiram a outras imaginárias. Claro, isso não é problema, desde que se monte o personagem a partir de traços de vários outros.

Mas aqui se vai um pouco longe. Um ainda desconhecido Rock Hudson subir no palco de mãos dadas com um negro, em 1948, não faz sentido. Um roteirista negro ganhando o Oscar, muito menos (ah, sim, a Ku Klux Klan faz uma investida não mais que protocolar quando o filme começa a ser rodado e some no mundo). Uma mulher dirigindo um estúdio com plenos poderes, também não faz sentido. Uma atriz negra ganhando o Oscar de melhor atriz, idem. Tudo isso, no entanto, poderia ser aceitável. Até mesmo o vilanesco agente com ligações sólidas com a máfia r que de uma hora para outra se torna bom rapaz pode-se engolir. Tudo isso pode ir na conta do caráter normativo de “Hollywood”. Não é o que aconteceu ou poderia ter acontecido, mas o que deveria ter acontecido e como deveria ser.

Aceitemos. Mas como explicar um roteiro que vai aos trancos e barrancos? Que parece novela da Globo, onde o roteirista tem de navegar ao sabor dos caprichos da audiência? Que nessa tocada faz de Hollywood um conto de fadas, o que não teria nada de mais caso não tomasse como ponto de partida o roteiro sobre o suicídio de uma atriz frustrada por não ter chance em Hollywood; um negro  roteirista que em seu primeiro filme estoura a banca; um filme horrível que estoura; uma conhecida atriz chinesa que vive sendo passada para trás e que também leva seu Oscar no filme (a lembrar: a mencionada Anna Mae Fang nunca ganhou Oscar nem aqui nem na China). Como explicar uma iluminação imutável, estejamos num restaurante, num estúdio, numa boate ou num hospital?

Aceitemos a técnica de misturar fatos e pessoas reais a fatos e pessoas imaginárias, promete muito. Mas do Rock Hudson jovem ator desajeitado ao Rock Hudson astro gay em 1948 nada mais se realiza do que uma enorme frustração, um passa-passa histórico sem sentido, sem organização e, por fim, sem imaginação.

Por US$ 60 milhões por ano dava para esperar mais.

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